Sem ajuste fisca, não há economia que resista
Agência Brasil
Sem ajuste fisca, não há economia que resista

Qualquer pessoa sensata, que reflita sobre as medidas mais urgentes que terão de ser tomadas pelo próximo presidente da República — independentemente de quem vier a ser eleito em outubro —, não terá dificuldades para fazer a lista de prioridades.

Em primeiro lugar, será preciso resolver a situação fiscal. Em segundo lugar, será importante resolver a situação fiscal. Em terceiro, será obrigatório, e com a máxima urgência, resolver a situação fiscal.

Isso mesmo! Embora a pauta de necessidades seja extensa e inclua temas sensíveis — como a segurança pública, o retrocesso diplomático e o desarranjo institucional —, nenhuma ação do novo governo será eficaz se a realidade não for encarada. E a realidade é que a situação fiscal se deteriorou a tal ponto que transformou o Brasil em um ambiente hostil para a atividade econômica.

A voracidade de um Estado que arranca do cidadão tudo o que consegue e gasta sem saber se terá dinheiro para honrar os compromissos é a causa primária dos males nacionais. Contas públicas desajustadas, como consta dos manuais que Brasília insiste em ignorar, pressionam a inflação e mantêm os juros nas alturas.

A necessidade permanente de cobrir o déficit público (que deveria ser combatido com cortes nas despesas federais) serve de desculpa para a cobrança de impostos escorchantes. A soma de tudo fez do Brasil um ambiente hostil a quem quer empreender. Esta é a verdade.

Sinal dos tempos

Um exemplo dramático dessa realidade foi exposto na semana passada. Pressionada por um endividamento de R$ 17,3 bilhões, a Casas Bahia se tornou mais uma entre as quase oito mil empresas brasileiras que, neste momento, se encontram em Recuperação Judicial — a maior quantidade da história.

O que torna o caso emblemático é a trajetória da Casas Bahia.

Criada em 1952, a empresa nasceu e cresceu sob um modelo de negócios baseado na decisão de vender fiado. Ao abrir a primeira loja, no município de Santo André, no ABC Paulista, o imigrante polonês Samuel Klein — sobrevivente do holocausto — cometeu a ousadia de oferecer crédito aos trabalhadores chegavam em busca de emprego nas indústrias que se instalavam em São Paulo. O nome Casas Bahia, por sinal, é uma homenagem à origem dos primeiros fregueses.

Em 74 anos de história, o carnê da Casas Bahia ofereceu a milhões e milhões de brasileiros de renda modesta a possibilidade de mobiliar a casa. Ninguém fazia contas para saber a taxa de juros do crediário. O importante era que a prestação “cabia no bolso” e era a única forma do trabalhador ter sua geladeira ou sua televisão. A inadimplência era baixíssima.  

Deu certo? Ora, se deu!... A nacional moeda mudou sete vezes e perdeu 15 zeros desde a fundação da empresa. O Brasil enfrentou crise atrás de crise, mas a Casas Bahia resistiu às intempéries e cresceu.

Desta vez, ela não conseguiu!

Atenção! O pedido de Recuperação Judicial de uma empresa que tem a capacidade de superar crises impregnada no DNA, como é o caso da Casas Bahia, ao invés de um problema de gestão, revela que ela está operando num ambiente insalubre.

Condenadas ao cafafalso

O Brasil tem hoje uma legião de 84 milhões de inadimplentes — e os devedores da Casas Bahia estão entre eles. Pressionados pelo aumento dos preços dos alimentos e dos serviços, muitos clientes viram minguar o dinheiro de que dispunham para manter as contas em dia.

Como não recebeu o dinheiro dos carnês, a rede varejista também ficou sem recursos para se acertar

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