Nuno Vasconcellos

Nuno Vasconcelos
Foto: Daniel Castro Branco
Nuno Vasconcelos

O artigo publicado neste espaço na semana passada introduziu um tema que merece ser tratado de forma mais detida. A ideia central era a de que, diante de tantas tentativas fracassadas de se resolverem os problemas do Rio de Janeiro de cima para baixo, é preciso inverter a lógica do raciocínio e pensar em enfrentá-los de baixo para cima. O texto, que tinha seu foco na situação do Galeão e do Santos Dumont, disse em determinado momento que a recuperação do vigor dos dois aeroportos está relacionada com a revitalização da economia do Rio — e que é preciso deixar para trás os preconceitos em torno da unificação den1975 para tirar proveito de todas as vantagens que o interior e o litoral do Estado têm a oferecer.

Ninguém quis, com essa afirmação, reduzir a importância da capital no conjunto das forças que devolverão ao Rio o vigor perdido após tantos anos de maus tratos. O que se pretendeu dizer, com toda clareza, foi que a capital, o interior e o litoral do estado precisam deixar de pensar cada um por si e passar a ser vistos como parte de um mesmo conjunto. Ou, se preferir, como engrenagens do mesmo motor que terá que funcionar para que o estado inteiro ofereça atrativos capazes de atrair tanto o turista que viaja a passeio e quanto o enorme contingente de pessoas que viajam a negócios. E de receber os empreendimentos que, nas condições atuais têm preferido outros destinos.

Nenhum outro estado do Brasil reúne condições tão favoráveis quanto o Rio para dar uma arrancada capaz de deixar seus problemas definitivamente no passado. É preciso, no entanto, reconhecer que o cenário do momento não é favorável e que será necessário um esforço descomunal para que os ventos da economia voltem a soprar a favor do Rio.

Chega a parecer estranho imaginar que alguém viaje para tratar de negócios num destino que, no momento, não oferece atrativos econômicos suficientes para atrai-lo. Da mesma forma, seria surpreendente que turistas mantivessem os hotéis cheios o ano inteiro numa cidade que vem perdendo seu encanto aos olhos dos turistas brasileiros e estrangeiros. Reconhecer as dificuldades atuais não significa dizer que a capital e todo o Estado não possam se reerguer e voltar a ser um destino atraente não por aquilo que foram no passado, mas pelos atrativos que oferecerem no presente.

POR ONDE COMEÇAR?

Que o Rio de Janeiro tem uma das paisagens mais belas do mundo, ninguém tem o direito de negar. Também não se pode ignorar a qualidade das praias nem se queixar do clima favorável ao turismo na maior parte do ano. Essas vantagens, que poucos lugares do mundo oferecem, precisam, no entanto, ser reforçadas por ações que garantam segurança não só ao turista, mas, principalmente, ao cidadão fluminense. Também é preciso investir pesado na melhoraria da qualidade dos serviços nos hotéis e nos restaurantes das cidades. É preciso recuperar a infraestrutura deteriorada por anos e anos de descuido. Enfim... há muito o que fazer. O difícil é escolher por onde começar.

Os leitores mais frequentes deste espaço devem se lembrar da defesa feita aqui de um Planejamento Estratégico que defina as prioridades e aponte o caminho a seguir. Mais do que necessária, essa providência é mandatória. Um plano como esse não pode sair da cabeça de um único governante nem ser feito para durar apenas quatro ou oito anos. É preciso que as forças políticas do Estado, as lideranças empresariais e dos trabalhadores assim como os principais representantes da Sociedade Civil organizada, deixem para trás suas eventuais divergências, sentem-se em torno de uma mesma mesa e exponham seus pontos de vista até chegarem a um acordo em relação ao que deve ser feito.

Depois de definidas as metas, o passo seguinte é reunir os elementos capazes de concretizá-las. E, também, se certificar de que os recursos capazes de tocar as ações adiante estarão garantidos pelo prazo que durar o projeto — que deve ser de, no mínimo 20 anos. É preciso começar a trabalhar agora e fazer as coisas certas sem se desviar do rumo planejado até que, quando chegar o ano de 2040, a situação de calamidade permanente que afeta o cidadão fluminense hoje em dia seja apenas a lembrança de um tempo ruim.

Ninguém está dizendo aqui, como era comum ouvir durante o período do chamado “Milagre Brasileiro”, dos anos 1970, que é preciso esperar que o bolo cresça para só depois dividi-lo. Nada disso! O que está sendo dito é que as ações tomadas hoje gerarão efeitos imediatos para sociedade e que, de passo em passo, se deixará para trás tudo o que hoje parece impossível de resolver. Como fazer isso?

DO INTERIOR PARA A CAPITAL

É evidente que não se tem, aqui, a pretensão de apresentar uma fórmula mágica para a recuperação e o crescimento do Rio. Tudo o que podemos oferecer neste instante são duas ideias que podem contribuir para o debate. A principal delas é insistir o quanto for preciso na necessidade de se fazer um Planejamento Estratégico e definir as metas que orientarão todos os esforços numa mesma direção. A segunda é insistir na visão de que esforço que salvará o Rio dos problemas que o afligem deve ser feito de cima para baixo. Dos municípios menores para os maiores. Do interior para a capital.

Isso mesmo. As cidades fluminenses têm em relação aos municípios de outros estados uma vantagem que, se for bem explorada, pode ser a chave para a saída de qualquer crise. Tratam-se, é claro, dos royalties do petróleo. Bem aplicados, esses recursos podem ser o alicerce para o desenvolvimento sustentado dos municípios. Caso, porém, sejas utilizados para financiar cabides de empregos, bancar aumentos de salários para o funcionalismo ou para promover festas que não gerem benefícios econômicos permanentes para uma determinada localidade, servirá apenas para bancar, agora, o luxo que desaparecerá no dia em que o petróleo já não conseguir mais movimentar as somas fabulosas de dinheiro que movimenta hoje em dia.

Alguns prefeitos mais atentos a essa realidade já discutem a utilização do dinheiro em projetos que rendam frutos de longo prazo. Esses projetos, no entanto, serão mais bem aproveitados caso sejam orientados numa mesma direção. Veja, por exemplo, o caso dos oito municípios localizados na belíssima Região dos Lagos, no litoral norte do Estado. Se os milhões e milhões de reais que eles recebem na forma de royalties forem utilizados dentro de critérios técnicos bem orientados, todos sairão ganhando.

É preciso, claro, investir em programas de educação que preparem os jovens desses municípios (e de todos os demais) em programas de formação que os capacite para enfrentar os desafios da economia 5.0 que vem por aí. É preciso, claro, utilizar o dinheiro para fomentar ações de empreendedorismo que gerem renda e emprego para os jovens. É preciso estabelecer condições de infraestrutura que reduza os custos e atraia indústrias não poluentes para a região. Isso porque poluição não combina com a principal vocação daquela região — que é o turismo gerado pelas belíssimas praias e lagos de Araruama, Arraial do Cabo, Búzios, Cabo Frio, Iguaba Grande, Rio das Ostras, São Pedro da Aldeia e Saquarema.

A população local se beneficiará dos empregos de qualidade que serão oferecidos pelos empreendimentos em turismo, pelas empresas de entretenimento, pela indústria verde e por uma série de iniciativas que terão como maior consequência a melhoria da qualidade de vida da população. A educação terá mais recursos, a saúde melhorará e os problemas ficarão de uma vez por todas no passado. E mais: os benefícios gerados por esse círculo virtuoso se somarão aos de outras regiões fluminenses, repercutirão em todo o estado, chegarão à capital e gerarão a renda necessária para que o governo pague seus funcionários em dia e financie seus programas sociais. Esse, é claro, é o cenário perfeito. Que, se for perseguido com a ajuda de um bom Plano Estratégico, está perfeitamente ao alcance se nossas mãos

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