Nuno Vasconcellos

Nuno Vasconcelos
Daniel Castro Branco/Agência O Dia
Nuno Vasconcelos

Quando, no futuro, algum historiador escrever um livro sobre o conflito que explodiu na Europa na semana passada, com a invasão do território da Ucrânia pelo poderoso exército russo, talvez provoque uma sensação semelhante à que a americana Barbara Tuchman descreveu em sua obra 'Os Canhões de Agosto'. Vencedor do Pulitzer — o mais importante prêmio de jornalismo dos Estados Unidos —, o livro lançado em 1963 relata os movimentos iniciais da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Trata-se de uma guerra que não precisava ter acontecido, mas que, pela combinação das atitudes idiotas e da falta de bom senso dos líderes da época, arrastou o mundo para um conflito longo, estúpido e sangrento.

Quando as primeiras bombas explodiram, no final de julho de 1914, havia a ideia geral de que tudo estaria resolvido em questão de dias e que o mundo logo retornaria à velha ordem que levara mais de dois séculos para ser construída. A verdade, porém, é que a sucessão de erros e omissões vistos ao longo do mês de agosto daquele ano, empurrou o mundo para um conflito que deixou mais de 23 milhões de mortos entre militares e civis. Um conflito que alterou para sempre a ordem internacional e, por ter sido mal resolvido, abriu as portas para um novo conflito — a Segunda Guerra Mundial, iniciada em 1939 — que explodiu pouco mais de 20 anos depois do armistício e foi ainda mais longo, estúpido e sangrento.

Embora não exista nenhum indício de que o conflito atual se prolongue pelos mesmos quatro anos de duração da Primeira Guerra Mundial — mesmo porque, a força militar da Ucrânia praticamente é infinitamente menor do que a da Rússia —, é certo que ela não precisava ter acontecido. Também é certo que, assim como aconteceu em 1914, as razões alegadas para o disparo do primeiro tiro estão longe de serem convincentes. Nada indica, pelos movimentos militares, que a Ucrânia oferecesse qualquer ameaça concreta à Rússia. O mais provável é que, como em 1914 e 1939, o conflito de 2022 se dá apenas pelos devaneios expansionistas de líderes alucinados pelo poder.

GUERRA E ECONOMIA

A essa altura, alguém já deve estar se perguntando, e com toda razão: o que o conflito entre a Rússia e a Ucrânia tem a ver com o Brasil? E mais: qual o motivo de se tocar nesse assunto num momento em que o Rio — que é o tema permanente desta coluna — ainda busca por vítimas da tragédia em Petrópolis e precisa pensar em seu futuro? Ou ainda: como um conflito que acontece a mais de 10 mil quilômetros de distância pode afetar o Brasil e o Rio?

Ninguém, a essa altura da história, tem o direito de cometer um equívoco parecido com o do comandante das forças alemãs, marechal Helmuth von Moltke, em 1914. Quando alguém o alertou para o impacto do conflito nas relações comerciais de seu país, ele respondeu, conforme relata Barbara Tuchman, com uma das mais loquazes manifestações de miopia já dadas por uma autoridade mundial: “Não me perturbe com economia”, disse ele. “Estou ocupado demais conduzindo uma guerra”.

É justamente esse caminho que os líderes brasileiros não podem seguir neste momento. Reduzir o conflito às suas implicações locais e às atitudes de cada um dos lados em conflito, sem se preocupar com suas implicações sobre a economia mundial, é, mais do que um erro, uma enorme demonstração de ingenuidade e despreparo.

As fragilidades estruturais acumuladas pelo Brasil nos últimos anos e agravadas no período mais recente deixam o país vulnerável a qualquer solavanco mais forte na economia mundial. Negar essa realidade é virar as costas para um problema que pode nos prejudicar, aumentar a pressão sobre o governo e elevar ainda mais o peso do fardo que a população brasileira vem carregando.

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Grande produtora de petróleo e principal fornecedora de gás natural para os países do leste europeu, qualquer soluço mais forte na Rússia tem impacto direto sobre os preços internacionais dos combustíveis. Com uma guerra, então, nem se fala! De acordo com alguns analistas, o preço do barril, que foi negociado a US$ 94 na bolsa de Londres na última sexta-feira, pode ultrapassar US$ 100 nos próximos dias caso as hostilidades se prolonguem.

Se isso acontecer, o preço dos combustíveis que já andam pela hora da morte nos postos brasileiros, aumentará ainda mais — e, junto com eles, se elevarão a inflação e a insatisfação da população. Nesse quesito é importante ressaltar a grande dependência que o país tem do transporte rodoviário torna a economia local ainda mais vulnerável aos aumentos dos preços dos combustíveis.

Outro produto de grande importância nos índices de inflação, que pode ter o preço afetado pelo conflito, é o trigo — matéria prima para o pão, o macarrão, o biscoito e mais uma série de produtos fundamentais na dieta do brasileiro. Maior produtor mundial do grão, a Rússia tem importância secundária no fornecimento de trigo para o Brasil (que tem uma produção local expressiva e compra da Argentina pouco mais de metade do que consome). Como o petróleo, porém, o trigo é uma commodity e qualquer aumento de preços do outro lado do mundo repercute imediatamente por aqui.

REFLEXOS DA CRISE INTERNACIONAL

São apenas dois entre dezenas de exemplos — e o que existe de comum entre todos é o fato de que seus impactos encontram o Brasil num momento de grande fragilidade econômica. Com as contas federais debilitadas pelo aumento exagerado de gastos públicos (no rastro das medidas de combate aos efeitos sociais da pandemia e dos maus hábitos dos políticos), a elevação generalizada dos preços dos combustíveis, do pãozinho, da carne e de uma série de outros itens pode causar mais estragos do que causaria se a casa estivesse em ordem e as contas bem organizadas.

Ou, sob outro ponto de vista, o reflexo da crise internacional seria menor se a economia local estivesse ajustada, funcionando a pleno vapor e vivendo um momento de expansão. A moral dessa história, de qualquer maneira, é a seguinte: embora não tenha como se isolar do mundo nem se tornar completamente imune às crises internacionais, o Brasil pode minimizar os efeitos de conflitos como esse caso faça o dever de casa e se converta num ambiente saudável para os negócios.

E o Rio? Não é preciso recorrer a um raciocínio muito complexo para entender a relação que existe entre os conflitos na Ucrânia e a situação do Rio. Num momento em que o estado ainda busca por vítimas da tragédia de Petrópolis — que, oficialmente, pode superar a marca de 250 — tudo o que não precisava acontecer era uma guerra do outro lado do mundo, com potencial para criar ainda mais dificuldades para uma população que já sofre com preços elevados.

Isso, talvez, sirva como prova da importância de se investir pesado na recuperação do Rio — ideia que vem sendo defendida com insistência neste espaço nas últimas semanas. Com o problema da habitação popular atacado de frente e investimentos expressivos na recuperação de sua infraestrutura deteriorada, o Rio certamente passará a atrair empresas, gerar empregos e se fortalecer a ponto de evitar que sua população sofra a cada evento mais brusco que aconteça no mundo.

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