Nuno Vasconcellos

Nuno Vasconcelos
Daniel Castro Branco/Agência O Dia
Nuno Vasconcelos

A falha no aplicativo criado para receber os votos dos filiados desviou a atenção daquilo que há de mais importante nas prévias organizadas pelo PSDB para escolher seu candidato a presidente da República. E o mais importante é justamente a realização das prévias. A ideia era concluir o processo no domingo passado, com o anúncio do nome escolhido pela base para encabeçar a chapa presidencial. A vaga é pleiteada pelo governador de São Paulo, João Doria, pelo governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e pelo ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto.

O PSDB é o terceiro maior partido do país. Tem mais de 1,3 milhão de filiados espalhados pelas 27 unidades da federação. A questão é que apenas uma minoria de cerca de 45 mil filiados se cadastrou a tempo de participar do processo — e esse número já foi suficiente para sobrecarregar o aplicativo. Mesmo assim, a iniciativa foi positiva e deve ser aplaudida. Dispersos por centenas de municípios em vários estados, teria sido inviável mobilizar as urnas eletrônicas do TSE para realizar as prévias.

LEGENDAS DE ALUGUEL

Embora muita gente as considerem um reflexo das divergências internas de um partido que não conseguiu se unir em torno de um
candidato, as prévias podem significar o fortalecimento do partido e deveriam servir de exemplo a outras agremiações. Num país que conta com 33 partidos que, em sua maioria, nada mais são do que organizações sem representatividade destinadas apenas a abrigar candidatos nos períodos eleitorais, é reconfortante ver um deles adotar um mecanismo que tire da cúpula o poder de ungir aquele que falará em nome de todos na campanha.

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O problema técnico no aplicativo tirou o brilho de um processo que tinha tudo para servir de exemplo para as demais agremiações — mas nem por isso as prévias perderam importância. O aplicativo que apresentou o “bug” — expressão utilizada pelos profissionais da área de Tecnologia da Informação para se referir a problemas técnicos desse tipo — foi pago com dinheiro do Fundo Partidário e custou R$ 1,6 milhão.

Foi desenvolvido pela FAURGS, a Fundação de Apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Por essa razão, muita gente aproveitou para relacionar a falha técnica a alguma ação destinada a beneficiar o governador Eduardo Leite. Antes de ser posto para funcionar em situação real, o aplicativo foi submetido a testes e auditorias feitas por empresas e instituições — entre elas a Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo,
Fausp.

DECISÃO SEGURA

As acusações, ainda que não tenham fundamento, deixaram Leite incomodado — o que é mais do que esperado numa circunstância como essa. O
governador defendeu uma solução rápida para o problema — mas, diante de um “bug” dessa gravidade, a celeridade precisa ser acompanhada pela confiabilidade. O problema foi técnico, mas a solução exigirá muita habilidade política. Na quinta-feira, o presidente nacional do PSDB, deputado Bruno Araújo, apresentou uma solução que agradou aos três candidatos. Araújo anunciou a contratação de uma nova empresa, a Relata Soft, para receber e apurar os votos até o próximo domingo. Os dados cadastrais do aplicativo original poderão ser aproveitados.

A decisão agradou ao candidato João Doria. “A democracia interna exige respeito aos filiados que se cadastraram para votar. Existem soluções para garantir as manifestações de todos os filiados que se inscreveram nas prévias. É preciso concluir o processo eleitoral de consulta interna. Qualquer alternativa que não seja a rápida conclusão da votação é um desrespeito à vontade da maioria partidária. É violentar as prévias. É negar a democracia.” Arthur Virgílio apoia a posição do governador e, como ele, quer a continuidade e a conclusão do processo o mais rápido possível.

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