Nuno Vasconcellos
Daniel Castro Branco/Agência O Dia
Nuno Vasconcellos

Ninguém é capaz de prever, hoje, em que ambiente serão disputadas as próximas eleições presidenciais e estaduais. Ninguém pode dizer, também, quem levará vantagem nas disputas. O mundo da política é dinâmico e o ritmo das mudanças costuma ser tão acelerado que surpreende até mesmo quem se julga um observador atento. Qualquer previsão eleitoral que se faça neste momento, portanto, é precipitada e se baseia num cenário que, com certeza, estará completamente diferente na hora da decisão de voto.

Um fato, porém, é inegável. O Rio de Janeiro e o Brasil não podem se deixar arrastar agora para um debate que beneficia apenas os que estão diretamente envolvidos nele. Há problemas mais graves e urgentes para serem enfrentados antes de se pensar em eleições. Se eles não forem enfrentados já, restará apenas uma opção para ser feita em 2022. E ela é justamente a que está sugerida no título deste artigo. A tragédia será inevitável. A única escolha será a do veneno que a consumará.

Penúria fiscal

Não se trata de fazer alarme diante de uma situação que, por si só, é grave o bastante para nos deixar preocupados. A pandemia da covid-19 continua expondo a população a riscos elevados e exigindo atenção prioritária por parte de todas as lideranças, em todos os níveis de governo. Qualquer debate com interesses eleitorais travado neste momento desviará o foco das atenções daquela que deveria ser a prioridade de todos.

É desnecessário insistir que nada é mais importante neste momento do que a necessidade de se conseguir mais imunizantes e acelerar a campanha de vacinação. Esse é, até prova em contrário, o único caminho que levará ao controle da pandemia. E que permitirá, por sua vez, acelerar as providências indispensáveis para enfrentarmos os problemas que o Brasil e o Rio de Janeiro precisam começar a resolver antes de pensar em eleições.

No caso do Rio, como já está claro para todos, os problemas são mais graves do que em outros pontos do país. Por aqui, tanto estado quanto o município vivem numa situação de penúria fiscal que exige atenção e não pode ser negligenciada em hipótese alguma. A queda da arrecadação tornou ainda mais evidente a falta de dinheiro num momento em que a exigência de gastos públicos é crescente e necessária. Esse problema, sozinho, já seria suficiente para merecer a atenção das lideranças. Infelizmente, ele não é o único.

A infraestrutura se deteriora ano após ano e, do jeito que está, não oferece as condições necessárias para a recuperação da Economia. É preciso, portanto, começar agora, e não daqui a dois anos, a enfrentar o problema de saneamento, do transporte público, do sistema viário e das encostas que ameaçam a população nas áreas de risco. Outra providência urgente e sempre adiada é a do combate ao crime organizado — cada dia mais enraizado nas comunidades cariocas e fluminenses.

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"Canais desobstruídos"

O apelo por bom senso na definição das prioridades tem sido recorrente desde que esta coluna começou a ser publicada, há exatamente um ano. Nesse período, em diversos momentos, foi sugerido que os políticos abandonassem por alguns instantes suas ambições pessoais e se concentrassem no que realmente interessa: o combate à pandemia e a retomada da atividade econômica.

Esse apelo pode ser encontrado, por exemplo, no texto publicado aqui no dia 12 de abril do ano passado, quando havia pouco mais de 22 mil casos de covid-19 diagnosticados no Brasil e o número de mortes era pouco maior que 1.200. Àquela altura, algumas autoridades do governo federal insistiam em se referir ao corona como “o vírus chinês”. O título do artigo que abordou o tema falava por si: “Vírus não tem pátria e remédio não tem ideologia”.

Se a sugestão dada pela coluna àquela altura tivesse sido levada em conta, talvez o número de casos não tivesse chegado aos atuais 11,2 milhões e boa parte das mais de 270 mil vidas perdidas tivessem sido poupadas. Naquele momento, a China assumia o protagonismo na produção de equipamentos e de medicamentos de combate ao coronavírus. Transformá-la em inimiga era a pior decisão diplomática a ser tomada. “É preciso desobstruir os canais de comunicação de Brasília com Beijing e cuidar de mantê-los abertos”, sugeriu a coluna.

A advertência feita na ocasião continua válida. “Estamos diante de um inimigo que não marcou data para ir embora. No dia em que isso acontecer, poderemos assumir nossas diferenças e resolvê-las no ambiente mais adequado. Ou seja, nas urnas eleitorais. Agora não é hora para isso”. O ponto de vista permanece atual. Na terça-feira passada, a coluna Informe do Dia afirmou que a elite política do Rio não pode, sob nenhuma circunstância, se deixar seduzir agora por um debate que pode ser feito mais adiante e que, neste momento, não interessa ao eleitor. É a mesma opinião de um ano atrás, expressa com palavras diferentes.

Isso mesmo. As lideranças precisam ter claro que, ao arregaçar a manga para ser imunizada contra essa doença terrível, a pessoa não se interessa pelo caminho percorrido pela vacina até ser injetada em seu braço. Para ela, é irrelevante saber se o medicamento está ali por ação do presidente Bolsonaro, do governador de São Paulo, João Doria, ou por pressão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Quem tem a vida ameaçada por esse vírus letal, não dá a menor importância a esse tipo de discussão.

O que as pessoas querem, depois de receber a vacina, é saber quando seus parentes e seus amigos estarão protegidos. O que todos querem é saber quando a pandemia chegará ao fim, os negócios voltarão a funcionar normalmente e os empregos que desapareceram voltarão a ser oferecidos. Se essa curiosidade não for satisfeita já, todo o resto deixará de fazer sentido. Mesmo porque, muitos dos que hoje assistem estupefatos à antecipação de um debate eleitoral que pode ficar para depois, talvez nem estejam mais aqui para escolher seu candidato quando chegar a hora da campanha. É bom pensar nisso.

(Siga os comentários de Nuno Vasconcellos no twitter e no instagram: @nuno_vccls)

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