Brasil enfrenta, agora, o desperdício de vacinas
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Brasil enfrenta, agora, o desperdício de vacinas

É inacreditável a capacidade que o Brasil e o Rio de Janeiro desenvolveram para transformar em problema até a mais aguardada das soluções. É o que está acontecendo, por exemplo, com a vacinação contra o coronavírus. De acordo com uma reportagem exclusiva de O DIA, assinada por Carolina Freitas e Yuri Eiras na quarta-feira passada, doses preciosas da vacina de Oxford, distribuída no país pela Fiocruz, podem ser descartadas por uma combinação das características técnicas do produto com a ordem de prioridade na aplicação das vacinas.

O problema, denunciado por funcionários de uma Clínica da Família da Zona Oeste, chega a espantar. Cada frasco do imunizante contém vacina suficiente para imunizar dez pessoas (no caso da vacina do Instituto Butantan, cada frasco contém uma única dose). A questão é que, uma vez aberto, todo o conteúdo precisa ser utilizado rapidamente, para evitar que o produto perca seu efeito. Como a primeira fase da vacinação no Rio incluiu profissionais da área de Saúde com mais de 60 anos, houve o caso de frascos que não puderam ser totalmente usados por falta de pessoas do grupo indicado para receber o imunizante.

Numa situação em que o desperdício de uma única dose da vacina pode significar mais uma vítima da covid-19, um caso como esse provoca indignação e espanto. Pior ainda é a provável inutilização de 720 doses de vacina por falta de refrigeração adequada no Hospital Federal de Bonsucesso.

Problemas como esses só manifestam por falha no planejamento. No caso do hospital, um gerador que mantivesse em funcionado os refrigeradores utilizados para armazenar a vacina teria evitado o problema. Na outra situação, um agendamento prévio, feito com a ajuda de um aplicativo elementar, seria suficiente para se evitar esse desperdício. Nesse caso, o número certo de pessoas compareceriam às Clínicas da Família em dias e horários marcados para receber o imunizante.

Mania Nacional


Ninguém pode culpar a atual administração municipal pelo problema. O prefeito Eduardo Paes e o secretário de Saúde, Daniel Soranz, que completam no dia de hoje seu primeiro mês no cargo, vêm se empenhando para corrigir os problemas herdados da gestão passada. Uma coisa é exigir que as autoridades se desdobrem para cumprir suas obrigações. Isso, os dois estão fazendo. Outra, muito diferente, é esperar que produzam milagres. Tanto eles quanto o governador Cláudio Castro assumiram seus cargos quando o problema já estava instalado e, com toda a limitação financeira de um estado e de um município quebrados, precisam juntar forças para tirar o Rio da maior crise de sua história.

É lógico que a solução será encontrada e que, no final das contas, o problema parecerá menor do que poderia ter sido caso o bom jornalismo não tivesse entrado em ação e alertado para o risco de desperdício da substância mais preciosa que há no mundo neste momento.

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As providências para disciplinar os critérios de distribuição da vacina deveriam ter sido tomadas meses atrás. Mas, como se sabe, nada foi feito. Seja como for, isso é apenas mais um exemplo de uma característica criticada com insistência por esta coluna: a eterna mania nacional de não se antecipar aos problemas e, ao contrário disso, esperar que as tragédias anunciadas aconteçam para tentar resolvê-los.

O tempo disponível para tomar as providências capazes de evitar os problemas é tomado por discussões inúteis ou pela mais absoluta inércia. Foi o que aconteceu, claro, com a campanha de vacinação, anunciada a toque de caixa sem que antes o governo (nesse caso, o federal) se preocupasse em tomar com antecedência as providências que garantiriam a disponibilidade da vacina no prazo mais breve possível. Mas vale também para uma série de situações em que o hábito de varrer as decisões para debaixo do tapete aumenta a carga de problemas da população já castigada pela inoperância do poder público no estado. Outro exemplo dessa situação é o fornecimento de água no Rio.

Água nas torneiras

Qualquer carioca se lembra de que, no verão passado, a Cedae, estatal responsável pelo sistema de saneamento no Rio interrompeu por diversas vezes o fornecimento de água na cidade. Houve uma falta generalizada de água e, quando ela chegou, o que jorrou dar torneiras foi um líquido sujo e malcheiroso. A população, claro, protestou e exigiu providências. A estatal prometeu, então, fazer tudo o que estava a seu alcance para eliminar a tal da geosmina — a substância que seria a responsável para tornar a água tratada pela empresa imprópria para o consumo humano.

A questão é que, de lá para cá, nada foi feito. Ou, se foi, houve erros que fizeram com que a tragédia se repetisse neste verão. Como no ano passado, a água desapareceu das torneiras e, quando reapareceu, veio turva e com sabor de terra. A empresa, mais uma vez, tomou a única providência que conhece diante de problemas como esse: se esquivou da responsabilidade e prometeu resolver o problema, mas os problemas de fornecimento persistiram.


Dois verões consecutivos de exposição de sua incompetência já deveriam ter sido suficientes para mostrar que a única saída para resolver o problema do abastecimento de água e do saneamento no Rio é a privatização da Cedae. O projeto nesse sentido já está andando e pelo menos seis grupos já pediram para conhecer os números da empresa e estudar a viabilidade do negócio. Tomara que saia ainda este ano para que, no próximo verão, o povo do Rio não volte a sofrer com a má qualidade da água fornecida na cidade.

(Siga os comentários de Nuno Vasconcellos no twitter e no instagram: @nuno_vccls)

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