Nuno Vasconcellos
Daniel Castelo Branco/Agência O Dia
Nuno Vasconcellos

Embora não se saiba qual foi o estopim da explosão que atingiu quase metade de Beirute, feriu milhares de pessoas, tirou dezenas de vidas e agravou ainda mais a crise humanitária que o Líbano vem enfrentando, é possível afirmar que a tragédia era evitável. Totalmente evitável. As imagens assustadoras que correm o mundo desde a terça-feira passada não teriam acontecido se as autoridades libanesas, ao invés de fugir de sua responsabilidade, tivessem feito o que tinham que fazer para evitar a fatalidade. Elas, no entanto, preferiram se omitir e o resultado foi o que se viu.

Tempo para agir antes que o problema acontecesse, todos tiveram. As 2,75 mil toneladas de nitrato de amônio que provocaram a catástrofe chegaram ao porto de Beirute em setembro de 2013 — há quase sete anos, portanto — nos porões do Rhosus, um navio russo com bandeira da Moldávia. A embarcação viajava da Geórgia com destino a Moçambique e, devido a problemas mecânicos, precisou fundear em águas libanesas. Assim que tomaram conhecimento da carga que havia nos porões, as autoridades locais impediram que a viagem prosseguisse: havia o temor de que o nitrato de amônio pudesse cair nas mãos de rebeldes líbios, que o transformariam em munição.

A medida inicial, claro, se justificava. Basta uma consulta ao Google para saber que o nitrato de amônio, muito eficiente como defensivo agrícola e fertilizante, é também um explosivo poderoso. Pode ser utilizado como propelente de foguetes e matéria prima de bombas. Por essa razão, sua guarda e manuseio exigem cuidados. Armazenado em condições adequadas de temperatura e de ventilação, não oferece perigo. Mas pode entrar em combustão se for exposto a temperaturas elevadas — provocadas por um raio, um curto circuito ou, ainda, pelo gesto de um irresponsável ou por um atentado terrorista.

PRESENÇA VISÍVEL — Uma tragédia dessa dimensão, por si só, atrai atenções. As imagens da destruição e a exposição do drama das pessoas atingidas despertam interesse, causam comoção e estimulam a solidariedade. Há, além desse, outros motivos para falar da explosão em Beirute neste espaço, que é dedicado à discussão de temas relacionados com o Brasil e, especialmente, com o Rio de Janeiro. A primeira delas é a ligação histórica entre o povo libanês e o povo brasileiro e carioca.

Entre a segunda metade do século 19 e as primeiras décadas do século 20, milhares de libaneses chegaram ao Brasil como imigrantes e deixaram suas marcas em várias cidades. A colônia do país amigo tem mais de 12 milhões de integrantes no Brasil — uma população superior à do próprio Líbano, que é de quase 7 milhões de pessoas. No Rio, em particular, a presença é visível. Muitos deles se estabeleceram como comerciantes na Rua da Alfândega — uma das marcas da presença libanesa na cidade. Há outras. O Clube Monte Líbano, na região da Lagoa Rodrigo de Freitas, é uma delas.

NÃO É MERA COINCIDÊNCIA — A outra razão para que o tema seja tratado neste espaço é a inércia das autoridades diante de uma tragédia previsível — algo que, infelizmente, é comum no Brasil. Conforme a Al Jazeera, a mais respeitada emissora de TV do mundo árabe, não faltaram avisos de perigo nem pedidos para que o nitrato de amônio fosse tirado dali. Mas ninguém tomou as providências legais para que a carga explosiva saísse do galpão precário em que se encontrava. Qualquer semelhança com a realidade brasileira, fluminense e carioca não é mera coincidência.

Não é preciso ser especialista para saber, por exemplo, que as chuvas de verão provocam deslizamentos e tiram a vida de pessoas que vivem em regiões de risco. Mesmo sabendo disso, pouco se faz nos períodos de seca, para evitar a tragédia que certamente virá quando as águas caírem. A situação, que já é ruim, torna-se ainda pior quando o próprio poder público cria as condições para que os desastres aconteçam.

No final de julho, a Câmara dos Vereadores do Rio aprovou por 28 votos contra 19 o Projeto de Lei 174, elaborado pelo Executivo. O documento, na prática, permite a regularização de construções ilegais. Mediante o pagamento de uma taxa, qualquer construção erguida pelos “empreiteiros” milicianos passa a ser considerada regular — mesmo que tenha sido feita de qualquer maneira e apresente risco de cair. Foi isso que aconteceu, por exemplo, com os prédios que desabaram na comunidade da Muzema em abril de 2019, matando pelo menos 24 pessoas.

Pela área atingida e pelo estrago que causaram, os desabamentos da Muzema são, proporcionalmente, mais graves do que a explosão de Beirute. Se outras tragédias como ela acontecerem daqui por diante, a Câmara dos Vereadores do Rio não precisará sair por aí buscando os responsáveis e procurando culpados: bastará apontar o dedo para si mesma.

(Siga os comentários de Nuno Vasconcellos no twitter e no instagram: @nuno_vccls)

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