O que esperar do novo ministro?
Daniel Castro Branco/Agência O Dia
O que esperar do novo ministro?

Que o presidente Jair Bolsonaro não nos ouça, mas a primeira impressão diante das declarações do novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, é a de que elas não devem ser tomadas ao pé da letra. Experiente e respeitado em seu círculo profissional, Queiroga era presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), antes de ser chamado para substituir o general Eduardo Pazuello à frente do Ministério da Saúde. A despeito das palavras conciliadoras que disse na chegada a Brasília, o presidente não deve esperar de seu novo ministro a mesma docilidade que teve do antecessor.

Queiroga não deve ser criticado pelo que disse até aqui. Suas declarações, na verdade, contêm todas as obviedades que costumam ser ditas por qualquer indicado para qualquer pasta em qualquer governo. “A política é do governo Bolsonaro não é do ministro da Saúde”, afirmou na primeira declaração pública que fez depois de ser oficialmente indicado para se tornar o quarto responsável pela condução das políticas federais de combate ao coronavírus em pouco mais de um ano de pandemia.

“O ministro Pazuello tem trabalhado arduamente para melhorar as condições sanitárias no Brasil e fui convocado pelo presidente para dar continuidade a esse trabalho”, completou. As duas frases são tão óbvias quando inócuas. Não dizem absolutamente nada e fazem lembrar situações que, no passado, renderam até anedotas.

Ao comentar a troca do embaixador Vasco Leitão da Cunha por Juraci Magalhães à frente do Ministério das Relações Exteriores, em 1966, o humorista Stanislaw Ponte Preta ironizou a intenção da autoridade que entrava em dar continuidade à obra da que saia. “Continuar a obra de Vasco Leitão da Cunha é uma boa maneira de dizer que não está pretendendo fazer nada”, disse.

A situação atual é mais grave e a pandemia não dá espaço para qualquer tipo de piada. E é justamente isso que preocupa. Tomada ao pé da letra, a intenção de dar continuidade ao trabalho de Pazuello não credencia ninguém ao cargo mais importante da administração pública no momento. Os números legados pelo ex-ministro são terríveis, mas o responsável por eles a partir de agora é Queiroga.

Efeitos letais

Na quarta-feira passada, dia 17 de março, completou-se um ano desde a primeira morte por covid-19 registrada no Brasil. Naquele momento, o número de casos diários da doença era pouco superior a cem e seus efeitos letais ainda não eram percebidos pela maioria das pessoas. Hoje, com o diagnóstico de mais de 90 mil casos por dia e o número de mortes batendo um recorde atrás do outro, não há brasileiro que não tenha perdido alguém próximo ou que não tenha sofrido de alguma forma os efeitos econômicos e sociais da doença.

Com o número de casos chegando a 12 milhões e a quantidade de mortes caminhando para 300 mil — número que deverá ser alcançado ainda esta semana —, a verdade é que as ações da área de Saúde do governo federal, desde o primeiro momento, foram pautadas por Bolsonaro. Crítico feroz das medidas de isolamento social necessárias para se evitar a propagação da doença, o presidente sempre foi um defensor da hidroxicloroquina, do “tratamento precoce” da covid-19 e de outras medidas que jamais tiveram a eficácia reconhecida pela Medicina.

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A impossibilidade de conviver com essas ideias sem que isso comprometesse suas reputações profissionais foi uma das principais razões para o afastamento dos dois primeiros responsáveis pela pasta da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Pazuello, por sua vez fez tudo que Bolsonaro queria, do jeito que o presidente queria, na hora que ele desejava e também não se aguentou no cargo. Em outras palavras, Mandetta e Teich saíram porque discordavam de Bolsonaro. Pazuello, porque concordava com ele. A pergunta é: e Queiroga? De que lado estará nessa balança?

Num cenário terrível como esse, o pior que poderia acontecer ao Brasil seria a confirmação do velho aforismo que diz que quanto mais se mudam as coisas, mais elas permanecem iguais. O que as declarações inócuas feitas por Queiroga na chegada têm a ver com isso? Ou melhor, por que elas não devem, como foi sugerido no início deste texto, ser tomadas ao pé da letra? O novo ministro disse na chegada exatamente o que Bolsonaro gosta de ouvir. Será que essa não será a chave para que ele faça o que deve ser feito e possa tomar as providências necessárias para enfrentar o problema?

Em outras palavras, ao invés de confrontar o presidente, dizer que tudo o que foi feito até aqui por ordem dele está errado, e correr o risco de ser tirado do cargo sem conseguir trabalhar, Queiroga chega elogiando o que foi feito. Essa pode ser a forma dele ter tranquilidade para adotar medidas técnicas capazes de melhorar o cenário e dar alguma esperança a uma população que, desde o início da pandemia, só recebeu más notícias.

Direito e dever

Como médico, Queiroga tem a obrigação de seguir procedimentos técnicos que Pazuello, como militar habituado a obedecer, não se sentia no dever de respeitar. A 20 de janeiro deste ano, três dias depois da aprovação das primeiras vacinas contra a covid-19 pela Anvisa, Queiroga postou em suas redes sociais um vídeo em que ele, usando máscara, aparecia com uma camiseta com a logomarca da SBC, recebendo o imunizante no braço.

Aproveitou a oportunidade para transformar o ato numa manifestação pública de apoio à imunização e fez um texto que se referia à vacina como “um direito de todos e um dever do Estado”.

Menos de dois meses depois daquela postagem, Queiroga tem nas mãos a obrigação de assegurar aos brasileiros o direito de se imunizar com a vacina que ele, como autoridade do Estado, tem o dever de providenciar. Não importa de onde a vacina venha nem quem a produza. Desde que sua eficácia seja reconhecida e aprovada pela Anvisa, qualquer imunizante que ajude a salvar vidas no país é muitíssimo bem vindo. Cabe ao ministro ir buscá-los.

A esperança que se tem é que, por mais que ele concorde em público com Bolsonaro e nunca critique em público as noções toscas do presidente a respeito do melhor caminho para se combater à doença, Queiroga consiga desentravar a fornecimento de vacinas. Que ele consiga promover o diálogo e resolver de uma vez por todas as divergências que, da parte do governo federal, obstruem o entendimento com os governadores. Que ele, finalmente, consiga cumprir sua obrigação e, se possível, consiga convencer Bolsonaro de que, se não puder fazer nada para ajudar, que pelo menos pare de atrapalhar o combate à doença.

(Siga os comentários de Nuno Vasconcellos no twitter e no instagram: @nuno_vccls)

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