O filósofo, educador e escritor Mario Sergio Cortella
Chico Max / Divulgação
O filósofo, educador e escritor Mario Sergio Cortella

A corrupção tem seu lado erva daninha. Por mais que se combata, ela nunca desaparece completamente. Mas existem graus elevados, medianos e mínimos da velha praga, que nos acompanha desde que o mundo é mundo. Se é praticamente impossível extirpá-la por completo, isso não significa que não possa ser colocada sob controle, de tal forma que seja minimizado seu efeito danoso para a sociedade como um todo.

Tive a oportunidade de assistir um vídeo curto do filósofo e professor da PUC-SP Mario Sergio Cortella em que ele faz observações pertinentes sobre a corrupção no plano individual. Ele inicia fazendo um chamamento à responsabilidade individual. A crise do casamento no Ocidente não implica que o meu casamento tenha que estar obrigatoriamente em crise. Relembra a perspicácia de Machado de Assis quando dizia que “Não é a ocasião que faz o ladrão, a ocasião apenas o revela”. A condição de ser ladrão seria anterior.

De modo muito franco, ele nos fala do tempo em que foi Secretário Municipal de Educação de São Paulo, de ter tido a experiência de gestor público, e as várias situações em que foi tentado. Mas não se dobrou às tentações porque não quis. O fato de viver num ambiente em que há corrupção não significa que deva me corromper.

Segundo ele, uma das capacidades que revela inteligência e franqueza de uma pessoa é reconhecer que fez algo que não deveria ter feito. Quando você é incapaz de reconhecer isso, a medicina tem uma palavra pesada para definir tal desvio de comportamento: psicopatia. Não ter o sentimento do arrependi-mento escancara o fato de que não tem noção de moralidade. Quem age dessa forma se julga inalcançável, acima dos demais. Orgulho tolo e a certeza (duvidosa) da impunidade.

Cabe aqui um contraponto ao que Cortella afirmou no vídeo. Basta lembrar o famosíssimo chamamento de Cícero, grande orador romano, nas Catilinárias: “Ó tempos! Ó costumes!”, em que ele fala da decadência de Roma. Ou seja, o clima geral de uma época maximiza ou minimiza a corrupção.

Monteiro Lobato, em artigo intitulado “Dom Pedro II era a Luz do baile”, nos mostra como o peso das instituições saudáveis, capitaneadas pelo exemplo de Pedro II, fazia com que o espertalhão ficasse constrangido em dar asas a seus instintos predadores e se comportasse como homem de bem. (Ele sabia que havia uma sentinela alerta.) E, por outro lado, na ausência dessas mesmas instituições, como o homem de bem podia se transformar em lobo já que a alcateia havia assumido o controle. (Ele sabia que não havia mais sentinela alerta desde o início da república.) Houve, de fato, muita corrupção, como nos garantem historiadores respeitáveis. E que foi num crescendo até hoje.  

Em artigo meu anterior, comentei o caso do jesuíta polonês que nos comícios segurava o fundo dos bolsos da calça com firmeza para não fazer a saudação do “Heil Hitler!”, enquanto a multidão em volta, alucinadamente, a repetia. De certa forma, o jesuíta confirma Machado de Assis. Mas nem por isso o fato histórico descrito por Monteiro Lobato é menos verdadeiro.

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