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Agência Brasil
Presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco

Em carta enviada na sexta-feira aos colaboradores da petroleira, à qual tivemos acesso, o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, fez um balanço das ações pós-Covid. Lembrou que o caixa apertou com a queda do preço do barril de US$ 65 para US$ 19, em abril, mas que ações de contenção e corte de custos seguraram a dívida. 

Mas entre portas, o sexto parágrafo foi visto por veteranos funcionários como uma provocação desnecessária em tom político, como se a empresa (que foi assaltada, sim, na gestão do PT) fosse um antro de corrupção desde sua fundação.

Castello Branco escreveu: “Vemos a crise como um ponto de inflexão, a partir do qual devemos acelerar a execução da nossa agenda transformacional – incluindo a transformação digital – para permitir que a Petrobras promova uma guinada em sua longa história de destruição de valor, tornando-se uma efetiva criadora de valor para você e para a economia brasileira”.


Íntegra da carta de Castello Branco:

Caros colegas,

É com satisfação que posso dizer a vocês que estamos conduzindo o barco com segurança por mares nunca dantes navegados. Estamos muito orgulhosos do nosso time, cujo esforço e dedicação profissional nos permitiu superar, até agora, os enormes desafios enfrentados por nossa companhia.

A eclosão de uma crise global de saúde causou uma recessão global profunda e sincronizada que afetou severamente a indústria global de óleo e gás.

Os preços do petróleo Brent, que eram de US$ 65 por barril em fevereiro, despencaram para US$ 19 em abril de 2020, devido à contração de 25% na demanda global, ameaçando uma parada súbita nos fluxos de caixa. Um choque de liquidez exerce um efeito similar ao de um ataque cardíaco, haja vista seu potencial de interromper a continuidade das operações das empresas. Face à profunda incerteza, a perspectiva de queima contínua de caixa era demasiadamente real.

Tal qual numa guerra, a escala e a velocidade sem precedentes da pandemia global nos compeliram a agir rapidamente, já que sabemos que crises severas produzem vencedores e perdedores. E os vencedores tendem a ser aqueles que respondem rapidamente. Almejamos ser vencedores. Estamos trabalhando arduamente, com rapidez e eficiência para construir uma recuperação, saindo da crise melhores do que estávamos na era que a precedia. E é claro que a segurança das nossas operações e dos nossos empregados, assim como o respeito ao meio ambiente, continuam sendo um dos pilares da nossa estratégia.

O mundo se movia rapidamente, mas hoje se move ainda mais rápido, inspirando criatividade e inovação e exigindo maior resiliência.

Vemos a crise como um ponto de inflexão, a partir do qual devemos acelerar a execução da nossa agenda transformacional – incluindo a transformação digital – para permitir que a Petrobras promova uma guinada em sua longa história de destruição de valor, tornando-se uma efetiva criadora de valor para você e para a economia brasileira.

A curto prazo nossa prioridade número um foi proteger a saúde: a saúde física dos nossos empregados e a saúde financeira da nossa companhia.

Criamos um comitê de crise, composto pelo comitê executivo da companhia com reuniões diárias. Estabelecemos dois times que se reportavam diretamente ao comitê de crise, um lidando com a crise de saúde (EOR) e outro responsável pelas questões de liquidez e cortes de custos (time de liquidez).

Para minimizar o impacto da Covid-19 em nossa força de trabalho, decidimos implementar uma combinação de distanciamento social com uma estratégia de rastreamento, testagem e quarentena, com muito bom desempenho. Até esta semana, realizamos mais de 120 mil testes nos nossos empregados e prestadores de serviço, em um universo de 125 mil pessoas.

A TAR, a taxa de acidentes registráveis, de 0,67, continua sua trajetória descendente, estabelecendo um novo benchmark para a indústria de óleo e gás.

Nosso orçamento de capital para 2020 foi reduzido de US$ 12 bilhões para US$ 8,5 bilhões, e lançamos iniciativas para cortar mais de US$ 2 bilhões em custos, além da postergação de desembolsos de caixa, incluindo salários de executivos e bônus anuais, a última parcela dos dividendos de 2019 e parte dos pagamentos devidos a grandes fornecedores.

Ações integradas dos times de logística e vendas foram capazes de maximizar a exportação de petróleo e óleo combustível de baixo teor de enxofre, que atingiram recordes históricos de volumes. Este movimento foi fundamental para compensar a forte contração na demanda por combustíveis no Brasil, especialmente em abril – um mês a ser lembrado na história da indústria de petróleo – e para preservar liquidez.

A produção de óleo e gás está funcionando sem percalços e o negócio de E&P alcançou diversas conquistas.

Búzios vem batendo diversos recordes: em 13 de julho, a produção alcançou 844 mil boed. A P-70 iniciou a produção no campo de Atapu, com o primeiro óleo em 25 de junho.

Os custos médios de extração, na visão caixa, decresceram de US$ 8,4/boe no segundo trimestre de 2019 para US$ 4,9/boe no segundo trimestre de 2020, uma redução anual de 41%. Nos campos do pré-sal, eles alcançaram US$ 2,4/boe no 2T20.

Após uma redução aguda para níveis abaixo de 60%, acarretada pela fraca demanda por combustíveis, o fator de utilização médio das nossas refinarias encontra-se na faixa de 75% a 80%.

As emissões totais e sua intensidade estão em tendência decrescente desde 2015. A Petrobras apoia a Task Force for Climate-related Financial Disclosure (TCFD) e está fortemente comprometida com as metas da Oil and Gas Climate Initiative (OGCI).

O diesel renovável foi testado com sucesso e aguarda aprovação da ANP, a agência regulatória de petróleo e gás, para início de produção. O produto mostrou-se capaz de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 70%, quando comparado ao diesel regular, e aumentar em 15% a eficiência do motor em relação ao biodiesel tradicional.

Alguns investidores globais reconheceram os tremendos esforços que a Petrobras empreendeu para eliminar a corrupção, além de melhorar a governança corporativa. A companhia foi convidada para retornar como membro do PACI (Partnering Against Corruption Initiative). A Petrobras havia saído após o escândalo da Lava Jato.

Temos agido para mitigar os efeitos da pandemia global na população brasileira, doando testes clínicos, materiais médicos e de higiene, diesel e gasolina para abastecer veículos de hospitais públicos e usando nossa capacidade científica – cientistas e computação de alta performance – para ajudar nas inovações no campo da saúde. Adicionalmente, alimentos e botijões de GLP estão sendo doados para comunidades carentes.

A transformação digital é a chave para o futuro da Petrobras como uma companhia ágil e bem-sucedida. Ela vem sendo acelerada e implementada através da companhia. Os projetos endereçam custos, eficiência, emissões de gases de efeito estufa e segurança.

Conforme mencionado anteriormente, o choque global nos forçou a interromper a desalavancagem e a dívida total encerrou o final do primeiro semestre de 2020 em US$ 91,2 bilhões, US$ 4 bilhões acima de 31 de dezembro de 2019.

Contudo, a dívida líquida decresceu US$ 8 bilhões no primeiro semestre do ano, evidenciando que não houve queima de caixa. O fluxo de caixa operacional foi forte o suficiente para aumentar o nosso caixa.

Dado o cenário de recessão e a queda nos preços do Brent de aproximadamente 40% ante a média do primeiro semestre de 2019, isto foi uma conquista extraordinária.

A Petrobras ainda enfrenta muitos desafios em sua jornada para criação de valor sustentável. Assim, devemos continuar a desenvolver iniciativas para cortar custos e promover ganhos de eficiência num ritmo acelerado.

Como disse uma vez Sir Winston Churchill: “o pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o otimista vê oportunidade em cada dificuldade”.

Na Petrobras, não há espaço para o pessimismo. E nós acreditamos firmemente que, com coragem, otimismo e muito trabalho, nós vamos vencer.

Um abraço,


Capo
Roberto Castello Branco
Pres


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