Orlando Brito e Dida Sampaio são dos dois mais respeitados jornalistas da capital do país. Veteranos na cobertura do Palácio do Planalto e de tudo o que acontece na órbita do poder, usam a fotografia para mostrar aquilo que as palavras são conseguem descrever sozinhas. Profissional desde 1966, Brito — que tem 70 anos e usa entre seus crachás a Credencial de Imprensa nº 1 da Presidência da República — estava no meio da multidão no domingo passado, dia 3 de maio, como já esteve milhares de vezes em seus mais de 50 anos de carreira.

Bolsonaro na porta do Alvorada:
Jair Messias Bolsonaro / Facebook
Bolsonaro na porta do Alvorada: "quebra queixo"improdutivo

Brito tinha ido à Praça dos Três poderes para produzir imagens de uma manifestação de simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro , que há mais de um mês criaram o hábito de se reunir todos os domingos para gritar pelo fim do isolamento social recomendado pelas medidas de contenção do Covid-19. De quebra, e sem conseguir deixar clara a relação que isso pode ter com as maneiras de lidar com a pandemia , eles também pedem a volta do regime militar e do Ato Institucional nº 5 — do qual muitos ali já devem ter ouvido falar mas, certamente, não têm a menor ideia do que foi. Se tivessem, jamais pediriam a volta daquela aberração jurídica. O que se viu ali foi um grupo de manifestantes dar um tiro no pé com uma demonstração de truculência que em nada ajuda a causa que defendem.

Em determinado momento, Brito viu que, a poucos metros do ponto em que se encontrava, Sampaio — que passou recentemente por uma cirurgia delicada — estava sendo agredido por manifestantes. Correu para socorrer o colega e também foi agredido. Teve os óculos arrancados do rosto pelos socos dados por alguém que o atingiu por trás e tudo o que conseguiu fazer foi proteger seu equipamento de trabalho.

ALTO DA RAMPA

Bolsonaro, a princípio, quis diminuir o peso do episódio — atribuindo a responsabilidade pelo ataque aos jornalistas a alguém que teria se infiltrado entre seus apoiadores. O problema, no entanto, é que nem o presidente acredita nessa versão sem pé nem cabeça. Na manhã desta terça-feira, dia 5, o presidente reconheceu Orlando Brito entre os profissionais de imprensa que estavam diante do Planalto para registrar uma solenidade em que ele apareceu ao lado do ministro da Cidadania Onyx Lorenzoni. Diante de todos, pediu que o jornalista subisse a rampa do palácio e se unisse a ele.

Como um profissional que conhece muito bem o poder da imagem, Brito preferiu não se deixar fotografar ao lado do presidente dois dias depois de ter sido agredido por apoiadores de Bolsonaro. Ia parecer que ele mesmo estava reduzindo a importância da agressão que sofreu. Mas ele também sabe que não se deve cometer a desfeita de recusar um convite do Presidente da República. Deixou o lugar em que se encontrava, passou pela portaria do térreo, subiu o elevador até o segundo andar e, ali, esperou pelo presidente.

ALMOÇO NO PLANALTO

Bolsonaro o cumprimentou e o convidou para almoçar no gabinete da Presidência . Além do jornalista, estavam na sala o deputado Fábio Faria (PSD-RN), o presidente da Embratur Gilson Machado Neto e cerca de dez ou doze assessores. Bolsonaro não fez qualquer pedido formal de desculpas. Disse apenas que “não tem como controlar a multidão” e lamentou a agressão. Depois, pediu e ouviu a opinião de Brito sobre a forma equivocada com que tem se relacionado não apenas com os jornais que acusa de persegui-lo, mas com os profissionais que trabalham para as empresas que os editam.

A reação do presidente foi a que se espera dele nessas horas. Com o mesmo tom com que espinafra a “mídia” sempre que se dirige a seus seguidores na porta do Palácio da Alvorada, ele se pôs a atacar O Globo, o Estado de S. Paulo e a Folha de S. Paulo. Brito não quis insistir no assunto. Quando o grupo se levantou para ir ao bufê e se servir de medalhões de filé com purê de batatas, o jornalista voltou ao tema.  

O presidente erra, e erra feio, ao tratar com hostilidade as pessoas que estão ali para realizar o trabalho de manter a sociedade informada sobre o que se passa dentro do governo. Isso pode lhe render aplausos de meia dúzia, mas atrai a reprovação de uma dúzia e meia de pessoas. E ele não pode se queixar de quem leva às páginas dos jornais as palavras que ele diz. Parte do que ele considera “distorções” cometidas pela imprensa, convenhamos, é resultado da forma que ele escolheu para dialogar com os jornalistas.

"QUEBRA QUEIXO"

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Tudo o que diz o presidente da República, por mais embaraços que cause ao próprio presidente, será tratado como notícia. Isso acontece no Brasil, nos Estados Unidos, na França ou em qualquer outro país que prese a democracia e a liberdade de imprensa. Simples assim. Brito sugeriu que Bolsonaro deixe de fazer o “quebra queixo” improdutivo que acontece na maioria das vezes em que ele se dispõe a atender os profissionais da imprensa.

“Quebra queixo”, no jargão jornalístico, são as entrevistas desorganizadas em que vários microfones são postos ao mesmo tempo diante de uma autoridade cercada por repórteres que gritam para se fazer ouvir. Esses encontros, no Brasil, nos Estados Unidos, na França ou em qualquer outro país, quase sempre terminam sem que os repórteres perguntem o que desejavam e sem que o entrevistado dissesse o que queria. (É por essa razão que quase os governantes mais sensatos evitam esse procedimento).

Bolsonaro tem insistido até aqui em manter esse tipo de encontro e os resultados têm sido ruins para ele e para os jornalistas. Brito sugeriu que, se quiser manter a informalidade de seu relacionamento com os jornalistas e, ao mesmo tempo evitar situações constrangedoras para ele e para o profissionais, pode adotar, por exemplo, o hábito de passar duas ou três vezes por semana pelo Comitê de Imprensa mantido no andar térreo do Palácio do Planalto. E deixar as aparições diante do Alvorada reservada para o público que está ali para aplaudi-lo. A manutenção do modelo atual servirá apenas para acirrar um relacionamento que não está sendo positivo para nenhum dos lados.

FALTA DE CONHECIMENTO

E não está sendo mesmo. Cada vez que o presidente abre a boca para defender as instituições e até quando condena os que cometem a tolice de pedir a volta da ditadura, suas palavras parecem produzir o efeito contrário. Elas soam como a convocação de um ato que, no domingo seguinte, pedirá a volta dos militares ao poder e a reedição do AI-5 . Nada justifica esse tipo de motivação a não ser, é caro, a ignorância em relação ao que de fato foi o regime militar. Que tem entre seus momentos mais críticos a assinatura do AI-5.

Na tarde do dia 13 de dezembro de 1968, todo o primeiro escalão do governo foi chamado ao terceiro andar do Palácio do Planalto para tomar conhecimento do documento que o então ministro da Justiça Luiz Antônio da Gama e Silva , o Gaminha, redigira por ordem do marechal Arthur da Costa e Silva — segundo presidente do ciclo militar. Aquele texto, se transformaria no AI-5, dava ao chefe de Estado o poder de fazer o que bem entendesse para conter as manifestações contrárias ao regime.  

“ESCRÚPULOS DE CONSCIÊNCIA”

Em determinado momento da reunião, a palavra coube ao então ministro do Trabalho, Jarbas Passarinho . “A mim me repugna, senhor presidente, enveredar pelo caminho da ditadura, mas já que não há como evitar, às favas os escrúpulos de consciência”, disse ele. Conforme o que foi relatado por participantes a reunião, entre eles o próprio Passarinho e o então Chefe da Casa Civil e futuro governador de Minas Gerais, Rondon Pacheco, alguns dos presentes defenderam de medidas ainda mais duras do que as previstas naquele documento.

Apenas o então vice-presidente, Pedro Aleixo , se opôs e disse que as considerava exagerados os poderes que o presidente passaria a ter. Nesse momento, o ministro Gaminha interveio e perguntou, em tom de provocação: “o Senhor tem medo do presidente?” A resposta de Aleixo — único dos 20 participantes que não assinou o documento — foi definitiva: “No presidente eu confio. Tenho medo é do guarda da esquina”.

O que isso tem a ver com a agressão a Sampaio e a Brito? Tudo. Os manifestantes que transformam os jornalistas em inimigos há muito tempo já mandaram às favas seus escrúpulos de consciência. Eles agem como se, na ditadura que querem trazer de volta, eles mesmos serão os guardas da esquina. Não serão.

Ditadura não depende apenas da vontade de mentes autoritárias. Se existisse a mínima possibilidade de trazer o AI-5 de volta, os manifestantes que pedem por isso seriam os primeiros a sentir no lombo os cassetetes da repressão. Na primeira vez que eles desobedecessem a uma ordem vinda de cima e resolvessem protestar contra a decisão de qualquer autoridade, seja ela um presidente, um governador ou um prefeito — como fazem agora em relação às medidas de contenção da pandemia — sentiriam no lombo o peso dos cassetetes da repressão. Nessa hora, adorariam ter por perto gente como Brito e Dida, cujo trabalho é mostrar à sociedade o que é correto e o que é estúpido. Independente disso ser contra ou a favor do governo de ocasião.

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