O momento que o país está vivendo não é fácil e, numa hora grave como esta, ainda aparece quem queira criar dificuldades que podem retardar a saída da crise . E, ao contrário do que parece para os que acompanham os acontecimento pelo noticiário da TV, essas pessoas não estão apenas dentro de governos ou órgãos públicos. Ninguém vai, aqui, se queixar aqui do fechamento de uma parte expressiva dos negócios — mas apenas da forma com que alguns agentes econômicos escolheram para lidar com elas. Também não se está cobrando nenhuma solução por parte do governo .

Postes de uma linha de transmissão de eletricidade no interior de São Paulo
Agência Brasil
Linhas de transmissão: distribuidoras dificultam as negociações com os grandes consumidores privados

Nem todos os problemas que afetam o mundo dos negócios, é bom deixar claro, têm a ver com a decisão dos governos que insistem na necessidade de manter os negócios fechados para prevenir a disseminação da pandemia . Num momento em que alguns negócios viram seu faturamento reduzido a zero pela interrupção total das atividades, alguns fornecedores privilegiados insistem em endurecer o jogo e criar dificuldades que mais adiante dificultarão a retomada dos negócios num ritmo saudável.

O PESO DA CONTA DE LUZ

Veja, por exemplo, o caso da conta de energia de grandes consumidores, que têm na eletricidade um insumo vital para suas atividades. De algum tempo para cá, a partir da privatização de companhias importantes nas áreas de geração, transmissão e distribuição de energia, o setor passou por uma modernização. Como os preços deixaram de ser controlados pelo governo, passou a ser interessante para os consumidores que demandam grande quantidade de  eletricidade fechar contratos de longo prazo que lhes garantam um preço fixo por um determinado consumo estabelecido em contrato.

Ninguém perde com isso: os consumidores passam a ter certeza de que terão assegurada uma determinada cota de eletricidade capaz de assegurar a continuidade de suas operações e os distribuidores passam a ter uma garantia de faturamento quaisquer que sejam as condições de mercado. Os consumidores pagam um valor fixo pela demanda contratada e compram a valor de mercado os megawatts que consomem o consumo além desse valor.

É uma solução perfeita para momentos de normalidade — quando os clientes sabem quanto de suas receitas deverá se reservada para a conta de energia. O que ninguém nunca previu, no entanto, foi uma situação como atual, em que as receitas não apenas caíram: elas foram simplesmente zeradas a partir do momento em que as empresas se viram forçadas a fechar as suas portas e se integrar ao esforço de contenção da pandemia.

PAGAR PELO CONSUMO

Numa situação como essa, seria razoável que os consumidores que usam a eletricidade para gerar empregos e tiveram sua receita reduzida de forma drástica ou até zerada pela crise tivessem um tratamento especial de seus fornecedores. Seria razoável que pagassem apenas pelo que consumiram enquanto estiveram fechadas. Ou seja, pela energia necessária para manter em funcionamento seus equipamentos de segurança e outros sistemas essenciais para que suas instalações não se deteriorassem. Não é o que está acontecendo.

Empresas como a CPFL , por exemplo, responsável pelo fornecimento de energia em 687 municípios em quatro estados do país, insistem em continuar cobrando pela demanda contratada mesmo sabendo que seus clientes estão impossibilitados de gerar receitas para pagar as contas. Em tempo: desde 2017, a empresa é controlada pela chinesa State Grid , a maior empresa de energia do mundo e está sendo especialmente inflexível com os clientes brasileiros.

Em tempo: a CPFL não é a única a agir dessa maneira. A questão é que sua área de concessão alcança áreas de grande atividade industrial e de serviços e qualquer dificuldade que ela criar agora poderá repercutir, daqui a pouco, numa região que concentra uma quantidade enorme de empregos de qualidade.

ADIAR NÃO BASTA

Tudo o que a companhia aceita é cobrar 30% do valor da conta contratada no dia do vencimento e empurrar os outros 70% para serem pagos em três prestações após a suspensão da quarentena. Não faz sentido: as distribuidoras de energia estão exigindo que seus clientes paguem mais tarde por uma energia que não consumiram agora e que nunca mais consumirão. Estão querendo receber por uma mercadoria que não entregaram. Isso significará um aumento expressivo de custos que, em alguns casos, pode comprometer a própria sobrevivência das empresas.

Ora, ainda que os negócios voltassem a funcionar a todo vapor a partir do dia seguinte ao fim da quarentena, o faturamento que ficou para trás não será recuperado. É dinheiro que deixou para sempre de entrar no caixa. Da mesma forma, a energia que não foi consumida não pode, assim como o vento na ideia da ex-presidente Dilma Rousseff, ser estocada agora para ser consumida mais adiante.

Os consumidores não estão pedindo qualquer vantagem especial. Apenas entendem que a excepcionalidade da situação exige que suas obrigações sejam tratadas de forma igualmente excepcional. Adiar o pagamento do grosso das despesas com energia apenas empurrará para mais tarde o desastre que a paralisação causará sobre os negócios. O ideal, nessa hora, seria que houvesse um entendimento por parte das empresas e do próprio governo em relação às contas que esses consumidores têm a pagar. Adiar não é suficiente. Se isso for feito, tudo o que deve acontecer é o adiamento, para depois da abertura, das demissões que todos procuraram evitar agora.

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