A política do "tarifaço" de Donald Trump segue fazendo estragos, alguns mais concretos, outros mais simbólicos, mas o fato é que o tema não sai da mídia.
E é aí que devemos considerar que o presidente americano, muito embora notório investidor, é uma figura construída na e pela televisão. Trump claramente usou a tv como forma de alavancar seus negócios, inclusive e especialmente negócios políticos.
Boa parte, portanto, desse estratagema das tarifas entra nessa canaleta do impacto midiático. À pancada inicial de uma tarifa alta e quase inviabilizadora do comércio entre os EUA e um outro país, segue-se uma negociação. O líder norte-americano mostra os dentes e as garras não para atacar de fato, mas para mostrar que pode fazê-lo.
O lance mais recente dessa novela tarifária envolveu o Brasil em cheio: 50% de taxação sobre qualquer produto brasileiro importado pelos americanos.
O gesto é, do ponto de vista técnico, sem sentido. Os EUA são superavitários na balança comercial com o Brasil, não havendo, portanto, desequilíbrio nenhum no caso em desfavor dos EUA.
Também considera-se que com uma taxa dessas, simplesmente não haverá comércio entre os dois países, o que por certo prejudicará a economia brasileira, mas também fará faltar vários produtos nas prateleiras americanas, como o café brasileiro.
No meio disso tudo, Lula aproveitou uma esvaziada reunião dos BRICs para cutucar Trump, inclusive alegando que o dólar está em baixa e que se deve criar uma moeda própria do bloco Brasil, Rússia, Índia e China. Um ataque desnecessário, num momento crítico e com um claro viés eleitoral. Lula falou com suas bases, de olho em 2026.
De outro lado, a família Bolsonaro -- não se sabe exatamente por que -- buscou se colocar como a autora do pedido dessa taxação maluca de Trump em desfavor do Brasil, algo prejudicial até mesmo para o agronegócio que, tradicionalmente, apoiou Bolsonaro.
Assim, vimos três líderes atuais, cada um a seu modo, com nuances, intensidades e características diferentes, cometerem os seus deslizes. Internamente, e até o momento, só Lula se beneficiou desse imbróglio, já que o clã Bolsonaro saiu chamuscado.
O comércio bilateral com os EUA, no entanto, terá que ser equacionado em algum momento. Teremos que nos sentar à mesa com Trump e encontrar uma saída para esse verdadeiro impasse.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG