
A direita brasileira descobriu uma verdade útil, mas insuficiente: o Estado pode ser administrado com menos incompetência. Folha em dia é melhor do que calote; concessão é melhor do que obra paralisada; caixa previsível é melhor do que improviso fiscal; servidor profissional é melhor do que cabo eleitoral fantasiado de gestor. É um avanço civilizatório modesto, mas real.
O problema começa quando esse avanço é confundido com vitória doutrinária. Uma jaula limpa continua sendo uma jaula. Um monopólio público que desperdiça menos continua sendo monopólio. Um Leviatã com PowerPoint, KPI e nota boa no Tesouro continua sendo Leviatã.
É preciso distinguir. A direita estadual de Zema em Minas, Tarcísio em São Paulo, Ratinho Jr. no Paraná e a tradição catarinense oferece casos respeitáveis de gestão fiscal: Minas reorganizou pagamentos a partir de déficit herdado; São Paulo avança em concessões e privatizações; Paraná e Santa Catarina ostentam avaliações elevadas de capacidade de pagamento. Mas a direita federal que governou entre 2019 e 2022 fez quase o oposto — expandiu gasto, criou orçamento secreto, ampliou fundo eleitoral, blindou desonerações setoriais. Foi populismo de gasto com retórica anti-esquerda. Tratar "a direita" como bloco homogêneo é confortável e falso.
Mesmo entre os bons gestores estaduais, o padrão é claro. Em Minas, a receita tributária passou de R$ 86,17 bilhões em 2023 para R$ 96,83 bilhões em 2024. Em São Paulo, ultrapassou R$ 269 bilhões em 2024. Em Goiás, a arrecadação cresceu 15,65% em 2024, em contexto de aumento da alíquota modal de ICMS de 17% para 19%. A direita brasileira aprendeu a arrecadar melhor. Ainda não aprendeu — ou não ousou — precisar arrecadar menos.
Dirão que arrecadação maior pode vir de crescimento, formalização e fiscalização. Pode, e frequentemente vem. Mas essa resposta foge do núcleo. O imposto nasceu como contabilidade da coerção; só depois virou liturgia da justiça. E quem chama imposto de "inevitável" raramente está descrevendo uma lei da natureza — está, mais das vezes, confessando preguiça institucional.
A defesa de um Estado menor não depende de provar que governos enxutos crescem mais. Mesmo que se demonstrasse, contrafactualmente, que Estados grandes produzem maior crescimento em determinado período, a preferência pela limitação do poder permaneceria — por três razões civilizacionais, não contábeis.
A primeira é assimetria de risco. Estado grande potencializa tanto o bem quanto o mal. Um governante competente e decente, com muito poder, faz coisas notáveis, como aprendemos da experiência da Singapura, Coreia do Sul, Taiwan, Japão pós-guerra. Um tirano, com o mesmo poder, faz coisas irreparáveis. A escala industrial dos crimes do século XX — Holocausto, Holodomor, Grande Salto Adiante — dependeu de aparatos burocráticos centralizados modernos.
Poder fragmentado não elimina violência política, mas encarece sua coordenação em escala extermínio. Daí decorre uma tese de engenharia institucional: a mudança não pode depender da virtude do governante; deve depender do desenho que torna a virtude desnecessária.
A segunda é epistêmica. Ninguém — direita ou esquerda, técnico ou político — tem todas as respostas para problemas humanos. As decisões europeias sobre imigração nas últimas duas décadas podem custar o projeto europeu inteiro; foram tomadas por elites confiantes em diagnósticos errados, sem mecanismo institucional para corrigi-las antes de o dano se tornar histórico. Estado pequeno significa mais experimentos, mais correções de rota, mais aprendizado distribuído. Estado grande significa apostar todo o país numa única hipótese, sustentada por quem tem incentivo profissional para não admitir que errou.
A terceira é temporal. Quem pensa em ciclos de cinco a vinte anos pode tolerar Estado expansivo; quem pensa em ciclos de cem ou mil anos sabe que toda concentração de poder, por mais bem-intencionada, envelhece mal e é eventualmente capturada. A humanidade enfrenta agora desafios de outra ordem — inteligência artificial, clima, computação quântica, proliferação de armas biológicas, envelhecimento populacional, ascensão chinesa. Estruturas centralizadas, lentas e auto-preservadoras lidarão mal com isso. Friedman não conheceu esses problemas. Marx, tampouco.
Há um aspecto técnico mas decisivo: o setor público carece de mecanismo robusto de auto-correção. Há punição para o incompetente privado; há proteção narrativa para o incompetente público. Agências que falham recebem mais orçamento. Programas que não atingem objetivos são expandidos, não reformulados. Imposto cria profissão, profissão cria lobby, lobby cria linguagem, linguagem cria legitimidade, legitimidade cria permanência. O sistema tem vício institucional por mais recursos, não vocação por melhores resultados.
A Argentina oferece o experimento em tempo real. Milei herdou hiperinflação anunciada e desorganização fiscal histórica. Em dois anos, transformou déficit em 22 meses de superávit, reduziu a inflação de 117,8% em 2024 para 31,5% em 2025, derrubou a dívida pública de 155,7% para cerca de 78% do PIB, e foi referendado nas legislativas de outubro de 2025, quando La Libertad Avanza venceu com mais de 40%. O FMI projeta crescimento de 4,5% em 2025 e perto de 4% ao ano até 2030. Os custos foram reais: desemprego subiu, salários reais caíram, indústria local sofreu. O experimento ainda pode dar errado. Mas é o primeiro caso latino-americano em décadas em que se testou a hipótese de que reduzir o Estado pode ser, ele mesmo, política social — e os resultados merecem leitura séria, não desprezo ideológico nem entusiasmo automático.
A história oferece experimentos naturais mais brutais. Coreia do Norte e Coreia do Sul partilham península, língua e herança; foram separadas por uma única variável — o sistema operacional da governança — e divergiram em décadas para extremos de prosperidade e miséria. A Alemanha repetiu o argumento com a frieza de um laboratório. O fundamento do poder não é a capacidade de mandar; é a capacidade de fazer funcionar.
A direita brasileira evita encarar o ponto que dói: o problema não é apenas o mau gasto. É o poder de gastar. Enquanto o Estado concentrar orçamento, cargos, outorgas, contratos, licenças, subsídios e repasses, ele será o altar diante do qual empresários pedirão incentivo, prefeitos pedirão emenda, sindicatos pedirão reajuste, universidades pedirão verba, setores pedirão proteção e partidos pedirão cargos. Depois nos surpreendemos que a política seja fisiológica — como se tivéssemos construído máquina de distribuir favores e esperado virtude republicana.
Privatizações e concessões merecem o mesmo rigor. Bem feitas, reduzem risco operacional, enfraquecem feudos e melhoram serviço. Mal feitas, viram anestesia fiscal: receita única para mascarar despesa permanente. Vender patrimônio para cobrir desequilíbrio corrente é como vender a prataria para pagar supermercado — necessário em emergência, não modelo. O teste real não é quanto rendeu o leilão; é quanto de despesa futura, interferência política e captura ela removeu para sempre.
E há o imposto invisível. Concentra-se debate na carga nominal de cerca de 33% do PIB — alta para o que o Brasil entrega, baixa para o que o Estado consome de fato. Soma-se inflação como tributação oculta, complexidade regulatória que cria dificuldade para depois vender facilidade, insegurança jurídica permanente, e leis impossíveis de cumprir que deixam cidadão e empresa em estado de exceção administrativa. O custo real do Estado brasileiro está mal medido — e isso, sozinho, é argumento.
A doutrina correta é mais simples do que parece e mais difícil de aplicar do que admitir: imposto financia o que mercado, comunidade ou arranjo híbrido demonstravelmente não consegue entregar com qualidade superior, sob teste periódico contra alternativas reais. Onde há solução por voucher, contrato de desempenho, concessão, cooperativa ou plataforma capaz de produzir resultado melhor, o Estado recua. A função estatal concentra-se onde só ela pode operar — segurança pública, segurança jurídica, infraestrutura crítica — e onde a sociedade não pode se ajudar sozinha: crianças, idosos vulneráveis, pessoas em incapacidade. Concentrar recurso onde mais importa, e devolver o resto à autonomia social, não é abandono. É priorização — a mesma lógica militar de aplicar força máxima onde ela faz diferença real, em vez de diluí-la em todos os flancos.
A saída, portanto, não é gerir melhor o mesmo desenho. É arquitetura experimental: cidades, estados e zonas autorizados a testar arranjos alternativos sob metas públicas, dados auditáveis e direito real de saída do cidadão. Quem entrega melhor atrai moradores, capital e talento; quem falha perde os dois. A concorrência institucional disciplina o poder com eficácia superior a qualquer sermão moral ou fiscalização burocrática — e devolve à sociedade o que o Leviatã, bem ou mal administrado, sempre acaba por confiscar: a liberdade de descobrir, pela própria experiência, o que funciona.
A direita brasileira tem razão ao dizer que gastar melhor importa. Mas confunde gerência com doutrina. O Brasil não precisa apenas de um Estado mais eficiente. Precisa de uma sociedade menos dependente dele — porque concentrações de poder envelhecem mal, mudam de mão, e os erros que cometem ao longo de gerações serão maiores do que qualquer ganho de eficiência hoje.
Daniel R. Schnaider é Presidente do Conselho da PRIME Society — organização internacional sem fins lucrativos dedicada à pesquisa, desenvolvimento e promoção de inovações para um futuro sem pobreza.
