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A guerra é sempre uma demonstração do colapso do diálogo, do afastamento da força do Direito e da evidência de que a barbárie venceu a nossa porção civilizatória. E resulta em injustiças, mortes, fome e isolamento. A guerra, qualquer guerra, mata o que ainda existe de humano em cada um de nós. Basta ver a multidão de famélicos e desesperados andando como zumbis à procura de um lugar seguro. Os refugiados são o retrato da falência da humanidade. Só nesse início do combate, quase 1 milhão de ucranianos já se refugiaram. Triste. Humilhante.

Em um conflito brutal, como o que estamos vivendo, várias faces podem ser ressaltadas.

E devem ser: a prepotência do Putin, ao julgar que a Ucrânia não resistiria a uma pressão militar; a arrogância da OTAN, entendendo que lidava com um país que permitiria ver seu poder regional ser diluído; a visão estreita e militarista dos EUA, que pretendeu tratar a Rússia como um quintal, assim como tratou, à época, Cuba.

Naquele tempo, existia a União Soviética, que impunha respeito. Hoje, a Rússia é uma pálida representação do que já foi. Mas ainda tem força nuclear, mesmo não sendo mais uma superpotência.

E não precisamos de várias potências para destruir o mundo; basta uma. São muitos erros em um território que respira história. O russo que ataca a Ucrânia está lutando com um russo ucraniano que tem o sangue dele. Complexo.

Algo me deixa perplexo, dentre as perplexidades óbvias: o racismo que a sociedade, a imprensa e o mundo estão se deixando revelar. Chocante. Essa explicitação do preconceito talvez explique o motivo da falência da diplomacia e do diálogo. Como conversar com a elite hostil, covarde e cruel? Como conviver com esses pulhas, que se sentem superiores e supremacistas? Como tentar entender esse povo que despreza o que de humano ainda resta nas pessoas?

A imprensa mundial tem nos apresentado um show de horrores. A revelação de uma discriminação que nunca se imaginou ser possível nas grandes redes de comunicação.

Com a cobertura ao vivo do conflito na Ucrânia, não foi possível esconder essa vergonha histórica.

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Circula nas redes sociais, em um vídeo, fragmentos de uma crueldade que demonstra o estado de podridão a que chegamos. Tão cruel quanto a morte nos ataques insanos e assassinos do Putin à população civil na Ucrânia são as demonstrações claras do racismo. Mortes diferentes, mas são mortes.

Um repórter, louro, fala da perplexidade de ver “um povo relativamente civilizado e europeu” ser atacado e ressalta “aqui não é o Iraque ou o Afeganistão”!! E ainda confessa, ao vivo, que tem que “escolher as palavras”. Um outro demonstra a perturbação pois os refugiados, em fuga, “são europeus e tem olhos azuis e peles claras sendo mortas, crianças, pelos mísseis do Putin”.

E, ainda, a explicitação da barbárie nas palavras de um bandido disfarçado de jornalista: “não estamos falando de sírios fugindo das bombas, falamos de europeus fugindo com seus carros que se parecem com os nossos”. Outro fascistinha afirmando, com indignação nazista, sobre o massacre cruel da população ucraniana: “não é um país do terceiro mundo, ISSO É A EUROPA”. E um idiota completa: “Estamos no século XXI e estamos na Europa com mísseis apontados para nós como se estivéssemos no Iraque ou no Afeganistão. Vocês podem imaginar?”.

Realmente não é possível imaginar tamanha ignorância. Mas talvez isso nos leve a compreender o porquê da morte do diálogo, da falência do humanismo e da derrota da diplomacia. E estamos, o mundo, nas mãos de um idiota que se elegeu fazendo piada e atacando a política, pregando a não política, e que agora virou herói mundial por ter optado em não fugir - no que estava certo - e resolver o conflito sentado numa mesa, fazendo a política que a extrema direita tudo fez para derrotar.

Que momento trágico. O recorte da vitória desses que, como Bolsonaro, pregam a violência, o armamentismo, a não política e o fim do diálogo. Tristes tempos.

Recorrome a Clarice Lispector: “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

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