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“Estou farto do lirismo comedido, do lirismo bem-comportado.
...
Não quero saber do lirismo que não é libertação.”
Manuel Bandeira, Poética

De repente, a gente volta a sentir um misto de ansiedade e medo. O recrudescimento da Covid , a descoberta de mais cepas do vírus e a divulgação de novo surto de infectados em diversos países nos dão uma certa insegurança.

Quando começamos a ouvir sobre a hipótese de voltar a fechar restaurantes, bares e museus em países da Europa, nós, inevitavelmente, lembramos dos momentos de horror a que o mundo foi submetido há tão pouco tempo. A solidão como companheira no período de isolamento e a contagem macabra dos mortos, que nos obrigava a ficar um pouco insensíveis como fuga para não enlouquecer, uma estratégia de sobrevivência.

Mais do que nunca, confirmamos a importância da vacina ao acompanhar o dia a dia dos novos internados com a constatação, óbvia, de que os negacionistas são os que mais sofrem com o maldito vírus. E ainda assim, continua o show de horror por parte daqueles que negam a importância da ciência. Agora, a discussão sobre vacinar ou não crianças e adolescentes, como determina a medicina, mostra, uma vez mais, o lado desumano, imbecil e cruel dos que insistem em negar a ciência. Nem a morte de mais de 600 mil pessoas conseguiu sensibilizar esses bárbaros.

E com tristeza vemos, dois meses após o final da CPI da Covid e a aprovação do relatório final, que nosso alerta sobre a necessidade de tirar os poderes imperiais do presidente da Câmara dos Deputados e do procurador-geral da República, infelizmente, tinha toda razão. Escrevi várias vezes que ou mudávamos a legislação, ou poderíamos não ter a efetividade do trabalho tão sério da Comissão Parlamentar que paralisou o país. O resultado proposto pelo relatório está longe de ter o efeito esperado.

O impeachment e um processo penal no Supremo Tribunal contra o Presidente da República já saíram da pauta da sociedade. E o resultado do trabalho da CPI da Covid ficará como objeto de estudo de um tempo de trevas. Frustrante.

Com a possibilidade de um novo agravamento sanitário, voltamos a nos preocupar com os cuidados para o enfrentamento do vírus. Mas constatamos que não haverá punição para esse governo que foi o responsável direto pela intensificação da catástrofe. O Brasil passa a voltar os olhos para a necessidade de sobrevivência diante de uma realidade que sufoca a todos.

O país voltou ao mapa da fome, do qual tinha saído em 2012. Hoje, 27,4 milhões de brasileiros vivem em estado de pobreza extrema. São pessoas que passam fome diariamente. Ver a inflação chegar a 2 dígitos e encarar os 15 milhões de desempregados, 14,1% da população, e outros milhões de subempregados. A chamada recessão técnica já é uma realidade. Constatamos que o fosso não tinha chegado ao fundo e que, talvez, nem tenha fundo.

E na certeza absoluta da impunidade, comprada a preço de ouro com a cooptação de parte dos congressistas, o Presidente Bolsonaro, em plena segunda-feira, tem a desfaçatez de zombar do país dançando um funk e cantando uma música cuja letra misógina ofende as mulheres ao dizer: “Bolsonaro casou com a Cinderela, enquanto as de esquerda têm mais pelo que cadela”.

Essa é a mensagem do Presidente da República para as mulheres brasileiras neste final de ano. Num país onde a violência contra as mulheres cresce assustadoramente, a música escolhida pelo Presidente tem como autor um artista acusado de ser agressor de mulher. Nunca é demais recordar que, durante o isolamento social, o Brasil registrou 1350 casos de feminicídio em 2020, um a cada 6 horas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. E esse número, claro, é muito menor do que a realidade.

A esperança é que a saída desse estado de barbárie está nas nossas mãos, pelo voto, ainda que infelizmente demore mais um ano. Os brasileiros vão ter a oportunidade de tentar ter de volta um país que esses fascistas destroem diariamente.

É sempre bom lembrar que esse governo desmantelou as bases humanistas em todas as áreas. Reconstruí-las vai levar um longo tempo. Teremos essa tarefa pela frente. O que causa mais angústia é a certeza de que, para os desempregados e para os que têm fome, o tempo não para e cada dia perdido não tem volta. A espera pode ser possível para nós, mas para boa parte dos brasileiros ela é mortal. Vamos nos recordar disso todos os dias.

Socorro-me ao poetinha Vinicius de Moraes, no Poema de Natal:

“Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.”

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

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