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Há poucos dias, participei de um debate sobre a Operação Lava Jato , realizado por uma emissora de grande alcance, com um ex-integrante da força-tarefa de Curitiba. Logo no início, afirmei que o ex-juiz Sérgio Moro era o coordenador dos procuradores, o chefe do grupo. Algo imoral, ilegal e que comprova a nossa tese de que ele instrumentalizou o Judiciário e o Ministério Público.

A partir do consentimento, dado o silêncio do meu interlocutor, não mais me preocupei com ele. Fixei-me no chefe dele. Foi espantoso ver o ex-procurador defender que Sérgio Moro foi enganado por Bolsonaro e, por isso, aceitou ser ministro da Justiça do governo fascista.

Será que a ânsia do poder era tanta que o ex-magistrado, com sua badalada e apurada experiência anticorrupção, não viu que apoiava um corrupto? Não levou em consideração o fato, simples e acessível, de que estava apoiando um miliciano declarado? Será que o ex-juiz, com todas as informações privilegiadas que sempre teve, não tinha nenhum dado sobre a família do Presidente da República? Nunca tinha ouvido falar nas conhecidas rachadinhas?

Como imaginar um ex-juiz criminal experiente, que se vendia como um combatente da corrupção - sua única e falsa bandeira –, sujeitando-se a ser o ministro da Justiça de uma administração reconhecidamente corrupta? Não percebeu, o arguto ex-juiz, as inúmeras irregularidades do grupo que apoiava o governo que ele ajudou a eleger? Não achou estranho o enriquecimento inexplicável do seu ex-chefe e família? Logo ele, tão criterioso e rígido com as fantasiosas histórias, hoje desnudadas, do apartamento no Guarujá e do sítio em Atibaia?

Até para ser hipócrita deveria existir limite, sob pena de acabar caindo no ridículo. Esse ex-juiz, ainda com a toga nos ombros, aceitou ser ministro da Justiça do governo que ele ajudou a eleger prendendo o principal adversário. A toga sagrada, que simboliza a independência e a imparcialidade, foi desonrada por ele. Esbofeteou o Judiciário expondo desnecessariamente os milhares de juízes sérios e honrados que existem pelo país afora.

Como pode ainda existir pessoas que acreditam nessa narrativa fajuta de combate à corrupção por parte do ex-juiz? Enquanto juiz, usou a mão de ferro para perseguir políticos por caixa dois. Porém, como ministro da Justiça, declarou ter “confiança pessoal” no seu colega de ministério, Onyx Lorenzoni, que assumiu ter feito caixa dois, mas deveria ser perdoado, “pois ele pediu desculpas e está arrependido””. Inventou uma nova maneira de extinguir a punibilidade: o compadrio.

Um ministro que conviveu mais de um ano com inúmeras irregularidades praticadas pelo seu chefe, o Presidente, sem tomar absolutamente nenhuma providência, cometendo o crime de prevaricação como um serial killer. E só saiu do governo por uma briga de poder após um período de grande fritura e inúmeras humilhações públicas promovidas pelo grupo bolsonarista.

Na realidade, quem conhece o ex-juiz sabe exatamente como ele age e não teve grande surpresa. Tivessem coerência intelectual, ele e o grupo de procuradores que coordenava, quando do episódio da aceitação do cargo público como contrapartida por ter tirado das eleições o principal adversário - que estava em primeiro lugar -, os procuradores teriam pedido a sua prisão e ele teria determinado que ele próprio fosse preso. Afinal, por muito menos, ele prendeu dezenas de pessoas.

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A busca desenfreada pelo poder a qualquer custo cegou o ex-juiz e seu bando. O incompreensível é que essa venda também cegue milhares de brasileiros que ainda acreditam nele.

O discurso falso e moralista de combate à corrupção só não os expõe mais ao ridículo porque eles não têm a menor noção do que é ser ridículo. Basta lembrar do episódio do vazamento da conversa da ex-Presidente para atender a interesses pessoais. Quando foi revelado que o ex-juiz teria dado publicidade aos áudios, defendeu-se argumentando que o relevante era o conteúdo das conversas, e não a maneira pela qual elas foram obtidas.

Porém, quando flagrado pela ação de um hacker - santo hacker - em conversas criminosas com os procuradores, negou-se a enfrentar o conteúdo escudando-se na maneira de obtenção das conversas, e não mais defendendo a validade do conteúdo.

É a busca pelo poder a qualquer custo. Agora, resta esperar que os brasileiros tenham olhos para ver que o ídolo tinha pés de barro e que o rei está nu.

Lembro a todos o mágico Mia Couto, no poema Cego:

“Cego é o que fecha os olhos e não vê nada.
Pálpebras fechadas, vejo luz. Como quem olha o céu de frente.
Uns chamam escuro ao crepúsculo de um sol interior.
Cego é quem só abre os olhos quando a si mesmo se contempla.”

Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

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