Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
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Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay

Existem várias Lisboas. A Lisboa de Fernando, do Pessoa; de Alberto, do Caeiro; de Álvaro, do Campos; a Lisboa dos milhares de turistas que andam por suas ruas como se vivessem ali os últimos dias das suas vidas. E existem os vários sons de Lisboa. O fado tradicional se escuta ao longe enquanto se mistura com as mais diversas línguas das pessoas que contam suas histórias.

E as largas avenidas, apinhadas de carro, confundem-se com as pequenas ruelas e becos. A cidade parece que tem vida própria. Quando olhada de um dos seus morros, dá a impressão de pequenas veias abertas. E tudo acontece sob a proteção do Tejo, que esbanja segurança como se desfilasse calmamente a abraçar a todos. É possível sentir um pulsar que nos lembra que o antigo Portugal deu lugar a um novo país. E, em todos os cantos, existe uma perplexidade no ar, como que a definir uma preocupação única e que nos assola: o que aconteceu com o Brasil?

O Brasil, que já foi motivo de glória, de júbilo, de inveja e de admiração, agora é um nome numa parede desbotada e, como diria o poeta, e como dói.

Nós, que andamos muito e temos a conversa como maneira de nos situarmos no mundo, acostumamo-nos a falar do nosso país e, principalmente, a ouvir a impressão dos outros povos sobre o Brasil. Mesmo fugindo das observações óbvias - futebol, Pele e café - o Brasil exalava uma admiração incontida.

Um povo que fixou a imagem de ser guerreiro, esperançoso e quase feliz. Abstraindo os estereótipos do carnaval e samba, na verdade, essa áurea de leveza ajuda a população que precisa lutar contra uma profunda desigualdade social. O velho maestro, Tom Jobim, definiu com fina ironia: “Morar em Nova Iorque é bom, mas é uma merda; morar no Rio é uma merda, mas é bom”.

Até o ano de 2012, o Brasil falava de igual para igual com as grandes potências mundiais, ainda que com nossas graves diferenças. A 6ª potência do mundo crescia e afastava o fantasma do desemprego. Os números da economia e a inserção de 36 milhões de pessoas no mercado de consumo criavam uma sustentável leveza de ser. E, o principal: pela primeira vez, a ONU retirou o Brasil do mapa da fome.

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Todos os outros dados poderiam ser somente números, mas, quando se tira um país do mapa da fome, é a garantia da dignidade a um povo acostumado a ser tangido como uma boiada sendo levada para o abatedouro.

De repente, a pergunta, hoje, entre as pessoas que nós nos relacionamos fora do Brasil, revela uma angústia profunda, uma tristeza avassaladora e uma cruel perplexidade: como o país elegeu este canalha, este crápula? Como explicar a fome voltando de maneira desesperadora, com 20 milhões de famélicos? Como conviver com o drama do desemprego, que representa 15 % da população ativa? Como conviver sem a esperança que os bárbaros nos roubaram?

Sim, quem aniquila a cultura, constrange o apoio científico, estupra a saúde, corrompe o sistema de justiça, enfim, desestrutura o país como maneira de dominação, é quem aposta na barbárie contra qualquer hipótese de humanismo. Também por isso Lisboa me encanta. Tenho a opção de me afogar nas dores das águas do Tejo ou de me perder nos infinitos becos que, praticamente, não têm saída. A única saída é acreditar nos poetas portugueses que seguem dando luz e nos guiando.

E seguir com Pessoa:

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo de travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

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