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Uso de substância proibida para 'curar' crianças com autismo causa sofrimento e pode ser letal; entenda os riscos de utilizar o MMS nos filhos

criança com autismo
shutterstock
Autismo não tem cura; tratamentos devem visar saúde e desenvolvimento da criança dentro de seu tempo e possibilidades

É impensável imaginar que uma mãe ou pai seja capaz de oferecer ao próprio filho uma substância usada em produtos de limpeza como se fosse remédio. Parece mentira, mas é o que vem acontecendo na vida real de famílias de pessoas com autismo . É aterrorizador saber que esses mesmos pais, que oferecem o equivalente à água sanitária aos filhos, o fazem por amor, por acharem que podem curar suas crianças. Um misto de desespero e fragilidade que os torna completamente vulneráveis a todo tipo de informação que tomou conta da internet atual. As fakenews nunca foram tão perversas e com potencial multiplicador.

Vendido como medicamento, o MMS (mineral miracle solution, em inglês) é uma substância química criada há mais de 20 anos pelo americano Jim Humble, ex-membro da Cientologia. Sua utilização foi propagada por diversos países, inclusive no Brasil, onde famílias têm adquirido o produto que é indicado por vendedores para ser aplicado via retal, já que o cheiro forte de cloro dificulta a ingestão pela boca.

Por se tratar de uma substância usada para limpeza, o intestino descama, fazendo com que pedaços sejam expelidos pelas crianças. Os pais são convencidos de que os filhos estão eliminando vermes, os 'grandes causadores do autismo '.

À revelia de fiscalização, a divulgação do MMS invadiu anúncios feitos em sites de venda na internet e grupos de aplicativos de mensagens. Em uma estratégia de venda tão corrosiva quanto a própria substância, os anunciantes divulgam o MMS como a única forma de se conquistar a cura do autismo. Ludibriam pais e fazem com que estes se sintam culpados pelo transtorno dos filhos. Charlatanismo da pior espécie.

Sem autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária para a comercialização e distribuição no Brasil, o MMS também é proibido para fins de medicação por outras agências reguladoras, como o FDA, dos Estados Unidos. Aliás, desde 2010, o Departamento de Saúde estadunidense adverte os consumidores sobre os danos graves que a solução pode causar e alerta que, no caso de tratamento para autismo, o produto não se mostrou seguro ou eficaz.

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MMS
Reprodução
Oferecido como 'remédio contra autismo', MMS é proibido para fins de medicação por outras agências reguladoras

Ao contrário, os resultados do MMS só geram sofrimento às crianças que o consomem. Causa dores de cabeça, vômito, sobrecarga renal e coloca a vitalidade de todos órgãos em risco. Pode ser letal .

Não por acaso, recentemente, a Anvisa enviou um ofício de alerta a todas as vigilâncias sanitárias estaduais sobre a proibição desse tipo de substância. A agência também iniciou uma força-tarefa para tentar retirar o produto do mercado. Com isso, pelo menos 200 anúncios já foram derrubados na internet. O quebra-cabeça, porém, está longe de ser resolvido, já que em seguida surgem anúncios com outros nomes, o que tem levado a agência a notificar plataformas para impedir previamente as publicações.

Por isso, se você que me lê, sabe de alguma substância registrada em produtos de limpeza que é vendida como remédio, denuncie. Entre as sanções a quem vende, estão interdição e multa. O caso também pode ser encaminhado ao Ministério Público para apuração na esfera criminal.

Vale lembrar ainda que o CFM (Conselho Federal de Medicina) já assegurou que o método não tem respaldo científico e que médicos não podem anunciar seu uso. Os profissionais podem ser notificados a prestar esclarecimento nos conselhos estaduais, que podem abrir sindicância e avaliar se há infração ética. Qualquer pessoa pode denunciar nos conselhos regionais, inclusive você, leitor da minha Coluna Vertebral.

Felizmente, há mães bem informadas e dispostas a ajudar outras. Andrea Werner, jornalista e mãe de criança com autismo, vem movimentando uma campanha nas redes sociais para desmentir e orientar as famílias sobre o risco da substância. Informação de qualidade, empatia e união entre as famílias e profissionais é o melhor caminho para combater esse tipo de onda do mal.

A Lei Berenice Piana (12764/2012) e a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com deficiência (13.146/2015) são frutos de uma luta de muitas décadas. São legislações construídas pela sociedade civil, que arregaçou as mangas para mudar realidades esquecidas, olhando para segmentos à margem das políticas públicas. Como relatora de ambas as matérias, muito me entristece e frustra presenciar o desespero dessas famílias, que ainda hoje não têm a atenção devida do Estado brasileiro. O MMS é a concretização do desespero dessas famílias.

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O autismo é um distúrbio no desenvolvimento infantil que tem impacto gigantesco na interação social, na comunicação, no aprendizado e na capacidade de adaptação. Não é uma doença e, portanto, não há cura. O tratamento envolve intervenção comportamental, individualizada, intensiva e interdisciplinar. Qualquer solução, que a princípio pareça milagrosa e fuja deste padrão de tratamento, deve ser alvo de investigação. Na dúvida, desconfie. Procure profissionais sérios e fontes com credibilidade.

A cura para o autismo ainda não existe. Mas informação de qualidade e tratamentos promissores sim. Aos pais angustiados, que vivem à sombra de respostas e têm todo o meu apoio e empatia, saibam que o melhor retorno que seu filho pode dar a um tratamento é se mostrar, essencialmente, saudável, seguro e estimulado a se desenvolver dentro de seu tempo e suas possibilidades. Sem correr riscos.