Embaixador Cesário Melantonio Neto
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Embaixador Cesário Melantonio Neto

Ao ver Vladimir Putin tornar 4 meses de suposto blefe em realidades a ideia de uma guerra breve parece estar sendo afastada.

Moscou quer ver a Ucrânia subjugada e fora das áreas de influência ocidental, notadamente sem chance de filiar-se à OTAN.

A leitura mais comum entre analistas é de que a complexa ofensiva visava forçar uma capitulação do governo Zelensky sem muito derramamento de sangue. Não foi o que ocorreu.

Ninguém sabe qual é o real planejamento militar russo.

Putin pode, contra todas as expectativas, transformar a Ucrânia em uma Terra ocupada. Ou apenas teve, como parece, de reajustar suas táticas.

Quando invadiu, a Rússia cometeu erros táticos. O principal foi não ter feito um ataque concentrado de forças, dividindo-se em diversas frentes com objetivos às vezes concorrentes. A definição militar que se forma agora é outra, uma guerra de atrito.

Se Mariupol cair, um objetivo para Moscou se consolida, que é a parte terrestre entre Donbass e a Crimeia anexada em 2014.

Isso possibilitará uma retomada do ritmo da campanha se houver reforço, algo que leva semanas, de todo o flanco sul.

Por ora, o atrito se impõe e há relatos de forças Russas tomando posições defensivas.

Mas o tempo está a favor de Putin, que ampliou seu poder interno e mudou a equação com as elites que o sustentavam no início do conflito. Enquanto isso, as negociações seguem abertas, mas lentas.

A Rússia ainda tem vastas reservas de pessoal e armamento.

Talvez, e é bom destacar o talvez, este seja o cálculo de Moscou agora. Uma guerra prolongada de desgaste.

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A Ucrânia não tem a mesma capacidade de reposição de forças.

Com as sanções ocidentais tendo cobrado o pior em termos psicológicos e sendo aos poucos precificadas, até porque não chegaram de fato ao coração da indústria de petróleo e gás que alimenta a Europa mesma que condena o Kremlin, Putin pode eventualmente sustentar a sua posição.

O ocidente, por sua vez, também teme que o ritmo do impasse venha a favorecer Putin.

Se as ações vão chegar realmente aos hidrocarbonetos é algo a ver já que esse tema divide os europeus no momento em que a Alemanha importa 55% do seu gás da Rússia.

Há ainda a questão dos cerca de 4 milhões de refugiados e 7 milhões de deslocados internamente em território ucraniano.

Ela já começa a causar incômodo aos membros mais reticentes da União Europeia, como a Hungria. Todas essas divisões se encaixam nas pretensões de Putin sobre os europeus.

Mas a OTAN recusou qualquer coisa parecida com um ato de guerra: buscar fechar o espaço aéreo ou fornecer armas ofensivas.

Uma especulação nos hoje silenciosos meios militares russos é de que Varsóvia poderia enviar uma força de paz para o Oeste ucraniano com o governo local realocado em Lviv.

Ainda há espaço, na reação ocidental, para tentar pôr o sino no pescoço da China, aliada de Putin que não condena a guerra, mas rejeita oficialmente dar apoio econômico ou militar a Moscou.

De olho no espólio da crise, Pequim também talvez contasse com uma vitória rápida russa.

Mais recentemente o secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, disse que Pequim está apoiando Putin de forma política com “mentiras descaradas”. Com o apetite de Biden de manter o foco no seu rival estratégico, mais acusações devem vir no futuro.

A pressa ocidental também se deve pelo crescente temor de que as fissuras na tessitura que uniu os países comecem a se tornar fendas e que o preço da adoção do regime de sanções comece a ser mais sentido em suas próprias economias - além de hidrocarbonetos, fertilizantes que têm na Rússia grande produtor e já estão nos maiores preços da história, o que afeta toda a cadeia de alimentos mundial.

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