Receio de ser alvo de denúncias, André Mendonça anuncia saída do ITER, seu rentável instituto de venda de palestras e cursos jurídicos
Rosinei Coutinho/STF
Receio de ser alvo de denúncias, André Mendonça anuncia saída do ITER, seu rentável instituto de venda de palestras e cursos jurídicos


O ministro André Mendonça parece que não fazia ideia do tamanho da encrenca que estava criando, quando nessa semana decidiu tirar o pino da granada que mantinha sob sigilo o relatório da Polícia Federal (PF) com as investigações do caso Master.

O objetivo inicial dele, que é o relator do caso no STF, era supostamente o de "pegar" o seu colega de toga e desafeto, Alexandre de Moraes, expondo as mensagens e registros constrangedores obtidos pelos agentes da PF, que detalhavam uma relação de proximidade e diálogos sensíveis entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

De imediato, Mendonça conseguiu o seu intuito.

Mas, além de jogar o Supremo Tribunal Federal numa crise institucional sem precedente, ele provocou uma turbulência política de consequências imprevisíveis, justamente às vésperas da realização do primeiro turno das eleições.

Mendonça deixou os colegas da Corte estupefatos com o seu modo de agir, mas não se importou, porque estava certo de que tinha cumprido o seu papel.

Além do mais, a pauta colocada em curso, destinada a derrubar Moraes, interessa muito a Jair Bolsonaro ( que nomeou Mendonça para o STF).

Mendonça só não esperava que a sua certeza e paz de espírito fossem durar tão pouco tempo.

Já no dia seguinte (2/9) foram divulgados pelo jornalista Paulo Motoryn mensagens e áudios revelando que Mendonça (logo ele) havia mantido encontro secreto com Daniel Vorcaro na sede do ITER - instituto fundado por Mendonça em 2023, especializado em venda de palestras e cursos jurídicos voltados para aperfeiçoamento profissional.

Nesta quinta-feira (3), porém, para surpresa de todos, Mendonça anunciou que ele e a mulher estavam deixando sua participação no instituto e que iriam repassar suas cotas do ITER , para transformá-lo numa sociedade sem fins lucrativos.

A saída dele do ITER, onde, daqui para a frente pretende ser um mero palestrante, não apaga, porém, os contratos que o instituto firmou com a iniciativa privada.

A suspeita é de que eles seriam ao menos 37 - número correspondente às notas fiscais emitidas entre os dias 11 e 14 de março de 2025.

Coincidentemente, foi no dia 14 de março que ocorreu a reunião entre Mendonça e Daniel Vorcaro.

Somente o curso das investigações poderá confirmar as suspeitas de que o Banco Master está entre as empresas privadas contratadas pelo ITER.

Evolução da crise

A crise que atingiu o STF neste começo de setembro começou a ser gestada há sete meses, em fevereiro deste ano, quando André Mendonça assumiu a relatoria do caso do Banco Master.

De lá para cá, ele se indispôs com a cúpula da PF, ao restringir o acesso a dados do inquérito, e também com colegas do próprio Supremo, como o decano da corte, ministro Gilmar Mendes.

A crise cresceu e o estranhamento entre os ministros toprnou-se público. Ela atingiu o seu ápice na terça-feira (1º/9), quando Mendonça decidiu jogar no ventilador o até então sigiloso relatório da PF sobre a investigação do Master.

Vamos aguardar os próximos desdobramentos dessa crise, que não tem data para acabar e ninguém sabe dizer se dela sairá algum vencedor.

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