Reportagens publicadas diariamente por grandes veículos reproduzem números divulgados pelo chamado Ministério da Saúde de Gaza, órgão subordinado ao Hamas
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Reportagens publicadas diariamente por grandes veículos reproduzem números divulgados pelo chamado Ministério da Saúde de Gaza, órgão subordinado ao Hamas

Durante a pandemia de Covid-19, a imprensa brasileira deu uma importante demonstração de compromisso com a verdade. Desconfiando dos números oficiais divulgados pelo governo federal, criou um consórcio de veículos para cruzar informações, auditar dados e oferecer à sociedade estatísticas mais confiáveis.

A pergunta que fica é: por que esse mesmo rigor parece desaparecer quando o assunto é Gaza?

Reportagens publicadas diariamente por grandes veículos reproduzem números divulgados pelo chamado Ministério da Saúde de Gaza, órgão subordinado ao Hamas, organização classificada como terrorista por diversos países ocidentais. Quase sempre, os números aparecem nas manchetes como fatos consolidados, sem maiores questionamentos sobre metodologia, critérios de classificação ou possibilidade de manipulação.

Jairo Roizen
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Jairo Roizen


Tomemos como exemplo a recente manchete que informa que as mortes em Gaza ultrapassaram 73 mil pessoas desde outubro de 2023. O texto atribui a informação ao Ministério da Saúde local, mas não explica ao leitor quais categorias compõem esse número.

Quantos eram combatentes do Hamas? Quantos morreram em confrontos armados? Quantos faleceram por causas naturais durante os mais de dois anos e meio de conflito?

Segundo estimativas apresentadas por autoridades israelenses, entre os mais de 70 mil mortos estariam cerca de 25 mil combatentes do Hamas e mais de 10 mil mortes naturais decorrentes de doenças, idade avançada e outras causas não relacionadas diretamente às operações militares. Pode-se concordar ou discordar dessas estimativas. O que não parece razoável é simplesmente ignorá-las.

O jornalismo não existe para aceitar versões oficiais sem questionamento. Pelo contrário: sua função é confrontar narrativas, investigar inconsistências e oferecer contexto ao público.

Curiosamente, quando os números vêm de Israel, são frequentemente acompanhados de ressalvas, contrapontos e questionamentos. Quando vêm do Hamas, muitas vezes são apresentados sem o mesmo nível de escrutínio.

Isso não significa negar o sofrimento dos civis palestinos nem minimizar a tragédia da guerra. Cada vida perdida representa uma tragédia humana. Mas justamente por isso os números precisam ser tratados com máxima responsabilidade.

A credibilidade da imprensa não depende de concordar com Israel ou com o Hamas. Depende de aplicar o mesmo padrão de verificação para todos.

Se durante a pandemia aprendemos que números oficiais precisam ser auditados, essa lição não deveria valer apenas para democracias. Deveria valer também para dados divulgados por um grupo terrorista que controla Gaza há quase duas décadas.

A verdade não pode ter dois pesos e duas medidas.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do iG

**Jairo Roizen é jornalista e gerente de comunicação da Federação Israelita do Estado de São Paulo.

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