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Até o momento, 99 localidades foram afetadas pela substância; Petrobras diz que óleo não é produzido no Brasil


Praia de Cumurupim, na Grande Natal/RN arrow-options
Redes sociais / Reprodução
Praia de Cumurupim, na Grande Natal/RN













Praia com óleo em Alcântara/MA arrow-options
Redes sociais / Reprodução
Praia com óleo em Alcântara/MA





Manchas escuras, de aspecto denso e espesso, com forte odor têm se espalhado por diversas praias do N ordeste brasileiro desde o início do mês de setembro. Inúmeros vídeos de animais marinhos sendo resgatados, cobertos por óleo, viralizaram nas redes sociais. As cenas são de emergência social e ambiental .

“É uma contaminação extensa que vai do estados de Alagoas até o Maranhão”, diz Flávio José de Lima, Biólogo e Coordenador Geral do Projeto Cetáceos da Costa Branca, da UERN (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte). O Projeto, que desde 1998 atua com pesquisa, resgate e reabilitação de animais marinhos , faz frequentemente o monitoramento ao longo de 325 quilômetros da costa, entre os municípios de Caiçara do Norte/RN e Aquiraz/CE em busca de animais em perigo.



( Óleo cru atinge litoral em oito estados no Nordeste e mata animais marinhos/ Canal: Seremos Resistência/ Youtube)

Em muito casos são os moradores da região que localizam os animais encalhados. Foi um pescador que, no dia 23 de setembro encontrou uma tartaruga-oliva coberta de óleo , que imediatamente foi recolhida pelo Aquário de Natal. 

“Esse óleo é altamente tóxico e ela chegou a ingerir, a gente viu saindo óleo pela narina. Isso pode causar muitos efeitos: neurológicos, gástricos, sanguíneos, para o sistema renal, hepático...”, disse Sofia Cabra, veterinária do Aquário Natal, que participou do processo inicial de limpeza da tartaruga . A bióloga diz que se não fosse o contato com o óleo, seria uma tartaruga muito saudável, “em pleno vigor físico”.

Tartaruga repleta de óleo é encontrada em praia do Rio Grande do Norte arrow-options
Redes sociais / Reprodução
Tartaruga repleta de óleo é encontrada em praia do Rio Grande do Norte




No momento o animal está sendo tratado pelo Projeto Cetáceos da Costa Branca. 

Além do risco às tartarugas marinhas , Sofia diz se preocupar com as outras espécies marinhas:  “A tartaruga é um animal que encalha, agora, a gente não tem como mensurar a dimensão desses estragos a invertebrados e corais - que não tem como sair do local - além das aves marinhas e peixes. O óleo é altamente tóxico para esses animais”, pondera, durante entrevista para o portal iG.

A causa do problema

Em várias partes do planeta, grandes quantidades de esgoto doméstico, industrial, agrotóxicos (de atividades agrícolas), substâncias tóxicas (de mineradoras), resíduos sólidos, entre outros poluentes são lançados nos oceanos . Entretanto, estima-se que aproximadamente 10% da poluição marinha é causada por vazamentos das plataformas de petróleo ou navios petroleiros .

O óleo encontrado nas praias, popularmente conhecido como piche - com textura mais condensada - tem características semelhantes ao petróleo , mas segundo pesquisadores, é quase impossível que a fonte de contaminação tenha vindo da Bacia Potiguar, dirigida pela Petrobras , onde existem mais de 30 plataformas de extração de petróleo instaladas.

Isso porque a corrente marítima vai do sentido leste a oeste no litoral brasileiro, e o aparecimento gradual das manchas deu-se no sentido contrário à corrente. A assessoria de comunicação da Petrobras informou, em nota, que o material coletado nas praias do Nordeste não é produzido nem comercializado no Brasil.

Por esse motivo, a conclusão mais aceita - já que o tráfego de embarcações é intenso na região Nordeste - é de que um navio petroleiro , durante operação de limpeza nos tanques de combustíveis , tenha lavado os tanques de petróleo em alto mar - uma operação ilegal, mas comum no mundo inteiro. Depois de feita a lavagem dos tanques, a água contaminada é devolvida para o mar, poluindo aquela região.

O petróleo , quando misturado com água, se espalha pela superfície formando uma camada que impede a passagem da luz, afetando a fotossíntese e o plâncton - fundamentais para a vida marinha - além de impedir a troca de gases entre a água e o ar.

Em nota na última quarta-feira (25), o Ibama se pronunciou afirmando que está “estabelecendo uma série de ações, juntamente com o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal (DF), Marinha e Petrobras , com o objetivo de investigar as causas e responsabilidades do despejo, no meio ambiente, do petróleo cru que atingiu o litoral de 46 municípios distribuídos em 8 estados da região Nordeste do país”. O órgão requisitou o apoio da Petrobras para atuar na limpeza das praias nordestinas. Nos próximos dias, a empresa irá disponibilizar um contingente de cerca de 100 pessoas.