Comida de 2.200 anos do Festival do Dragão é achada em tumba

Pacotes com cereais foram encontrados em uma sepultura na China e mostram uma forma de preparar alimentos que existe há mais de dois milênios

Zongzi
Foto: zhen tang/Pexels
Zongzi

Arqueólogos chineses encontraram pacotes de cereais com cerca de 2.200 anos que podem ser antecessores de uma forma tradicional de preparar o  zongzi, comida tradicionalmente servida durante o Festival do Barco-Dragão .

Os restos da antiga preparação foram encontrados em uma tumba do  sítio arqueológico de Wuwangdun, na província de Anhui, no leste da China .

O zongzi é um alimento tradicional chinês feito principalmente com arroz . Os grãos são colocados dentro de folhas, que são amarradas antes do cozimento.

A forma encontrada na tumba tem uma preparação parecida, com cereais colocados dentro de folhas e presos com cordas.

Atualmente, o zongzi costuma ser envolvido em folhas de bambu, enquanto os materiais  encontrados em Wuwangdun usavam folhas de um tipo de carvalho encontrado no leste da Ásia. Também não foi possível identificar se o arroz encontrado nos pacotes era do mesmo tipo usado nas versões atuais do alimento.

Cereais envolvidos em folhas e presos com cordas podem ser antecessores do zongzi
Foto: Reprodução/National Science Review
Cereais envolvidos em folhas e presos com cordas podem ser antecessores do zongzi


Por isso, Yong Ge, pesquisador do Instituto de Paleontologia de Vertebrados e Paleoantropologia da Academia Chinesa de Ciências e um dos autores do estudo, considera exagerado afirmar que os objetos sejam zongzi.

Ainda não há uma sequência de evidências que mostre como a prática  encontrada na tumba deu origem ao alimento conhecido atualmente.

O registro mais antigo considerado, sem dúvidas, como zongzi, pertence à Dinastia Song, entre os anos 960 e 1279. Isso deixa um intervalo de cerca de mil anos entre esses registros e os objetos encontrados em Wuwangdun.

Segundo Yong, os pesquisadores ainda não sabem exatamente o que aconteceu durante esse período. As evidências, porém, mostram que a prática de envolver cereais em folhas continuou e chegou a outras regiões.

Foto: Reprodução/National Science Review
Materiais de 2.200 anos foram encontrados em uma tumba no sítio arqueológico de Wuwangdun


Materiais sobreviveram por 2.200 anos

O ambiente alagado, a profundidade e a pouca presença de ar ajudaram a conservar folhas, sementes, cordas e resíduos encontrados nos pacotes.

Yong explicou que essas condições funcionaram de maneira semelhante a uma espécie de “geladeira natural”. A água e o isolamento do ar reduziram a ação dos organismos que normalmente provocariam a decomposição.

Restos de plantas podem ficar preservados por milhares de anos em condições específicas, como ambientes muito secos, alagados ou locais onde tenham sido queimados e transformados em carvão.

No caso de Wuwangdun, a conservação permitiu que os pesquisadores analisassem não apenas os cereais, mas também as folhas e as cordas usadas para envolvê-los.

Para os pesquisadores, os resultados mostram que a prática de envolver cereais em folhas e prendê-los com cordas já era utilizada no antigo reino de Chu há pelo menos 2.200 anos , inclusive em rituais funerários.


Descoberta coincide com época de antiga lenda

A idade dos objetos também chama atenção porque corresponde ao período histórico associado à lenda de Qu Yuan, poeta e político do antigo reino de Chu.

Segundo a tradição, Qu Yuan teria se lançado no rio Miluo depois que Chu foi derrotado. Moradores teriam jogado arroz no rio para impedir que os peixes comessem seu corpo.

A história ainda conta que o espírito do poeta teria aparecido e orientado seus conhecidos a envolver o arroz em folhas. Dessa forma, segundo a lenda, um dragão não conseguiria roubar as oferendas.

A narrativa é tradicionalmente relacionada ao costume de comer zongzi durante o Festival do Barco-Dragão.

Os materiais encontrados em Wuwangdun, no entanto, não comprovam a história de Qu Yuan. Eles apenas pertencem a um período histórico semelhante ao associado à lenda.