Por que as baleias não conseguem mais voltar a viver em terra?

Estudo com 5.635 espécies mostra que, quanto mais um mamífero se adapta à vida na água, mais difícil se torna voltar a viver no ambiente terrestre

Baleias têm ancestrais que já viveram em terra
Foto: Todd Cravens/Unsplash
Baleias têm ancestrais que já viveram em terra

A passagem de mamíferos terrestres para a vida aquática aconteceu várias vezes ao longo da evolução . As baleias são um dos exemplos mais conhecidos que tinham ancestrais em terra, mas, durante milhões de anos, seus corpos foram mudando para se adaptar cada vez mais à água. Porém, segundo um estudo de 2023, esses animais passaram o ponto em que o retorno para a vida em terra se torna muito difícil.

A mudança nesses animais não aconteceu de uma hora para outra. Ao longo de muitas gerações , diferentes partes do corpo foram mudando. Os membros e o formato do corpo passaram a facilitar a natação, enquanto a alimentação e os sentidos também se adaptaram ao novo ambiente.

Para entender como essas mudanças aconteceram, os pesquisadores analisaram 5.635 espécies de mamíferos atuais e recentemente extintas e dividiram os animais em quatro grupos, de acordo com o quanto estavam adaptados à vida aquática. Do total, 96,7% eram totalmente terrestres. As outras 186 espécies, ou 3,3%, apresentavam algum nível de adaptação.

O primeiro grupo reúne animais que não apresentam características específicas para viver na água. No segundo estão espécies que já desenvolveram algumas adaptações, mas ainda conseguem se movimentar facilmente em terra. O ornitorrinco, por exemplo, possui membranas entre os dedos que ajudam na natação, mas também vive em ambientes terrestres.

Orcas de diferentes idades
Foto: Reprodução Wikimedia Commons / Christopher Michel
Orcas de diferentes idades


No terceiro grupo estão animais que já enfrentam mais dificuldades para se locomover em terra, embora ainda consigam sair da água. É o caso de focas, leões-marinhos, morsas e lontras-marinhas.

No último grupo estão os mamíferos totalmente aquáticos . Eles dependem do ambiente aquático para viver e não precisam voltar à terra. Baleias, golfinhos, peixes-boi e dugongos fazem parte dessa categoria.

É justamente nessa passagem para os grupos mais adaptados à água que aparece o principal resultado do estudo.

Quanto mais adaptado à água, mais difícil voltar

Os pesquisadores encontraram sinais de que existe um limite entre os mamíferos que ainda conseguem viver bem em terra e aqueles que já dependem muito mais da água.

Quando as adaptações são leves, um animal ainda pode, ao longo da evolução, voltar a depender mais da terra. Mas, quando as mudanças no corpo se tornam muito intensas, essa possibilidade diminui bastante.

Foto: Reprodução Wikimedia Commons / Stan Shebs
Baleia-beluga


Entre os mamíferos mais adaptados à vida aquática, a chance de voltar para grupos menos dependentes da água ficou próxima de zero.

Esse resultado está ligado à chamada Lei de Dollo, uma hipótese da evolução que diz que estruturas complexas perdidas ao longo do tempo dificilmente voltam a aparecer da mesma maneira.

Isso ajuda a entender por que uma baleia, por exemplo, não poderia simplesmente recuperar as pernas de seus ancestrais terrestres depois de milhões de anos de mudanças.

Regra de Bergmann

A adaptação à vida na água também causou mudanças no tamanho do corpo e na alimentação dos mamíferos. 

Esse padrão pode estar relacionado à chamada regra de Bergmann, que diz que animais de sangue quente tendem a ter corpos maiores em ambientes frios. Um motivo pode ser a água, que retira calor do corpo mais rapidamente do que o ar.  Ter um corpo maior ajuda a diminuir essa perda, já que a superfície corporal cresce proporcionalmente menos do que o volume. Além disso, muitos mamíferos aquáticos desenvolveram uma camada de gordura sob a pele, que ajuda a conservar o calor.

Foto: Reprodução Wikimedia Commons / Dr. Kristin Laidre from Polar Science Center - NOAA (Public Domain)
Narval


A alimentação também mudou conforme os animais se tornaram mais dependentes da água. Os pesquisadores observaram que, quanto maior era a adaptação à água, maior era a presença de dietas carnívoras e onívoras, baseadas em outros animais.

Uma explicação pode ser a maior necessidade de energia. Como a água favorece a perda de calor, esses mamíferos podem precisar de mais energia para manter o corpo funcionando e conservar a temperatura. Alimentos ricos em nutrientes ajudam a compensar essa demanda. É o caso de algumas baleias , que filtram grandes volumes de água para capturar pequenos organismos.


O caminho de volta não é impossível

Os resultados não significam que exista uma regra absoluta que impeça qualquer mamífero de voltar da água para a terra.

Os próprios pesquisadores destacam que ainda existem dúvidas sobre como as diferentes mudanças evolutivas estão relacionadas e sobre qual delas acontece primeiro. Além disso, o estudo identifica padrões observados entre os mamíferos, e não uma regra capaz de prever exatamente o futuro de todas as espécies.

A principal conclusão é que quanto mais intensa é a adaptação de um mamífero à vida na água, menor tende a ser sua capacidade de retornar a um modo de vida terrestre.

Em outras palavras, a evolução pode levar um animal da terra para a água, mas, à medida que o corpo se transforma para sobreviver nesse novo ambiente, o caminho de volta fica cada vez mais difícil.