
A passagem de mamíferos terrestres para a vida aquática aconteceu várias vezes ao longo da evolução . As baleias são um dos exemplos mais conhecidos que tinham ancestrais em terra, mas, durante milhões de anos, seus corpos foram mudando para se adaptar cada vez mais à água. Porém, segundo um estudo de 2023, esses animais passaram o ponto em que o retorno para a vida em terra se torna muito difícil.
A mudança nesses animais não aconteceu de uma hora para outra. Ao longo de muitas gerações , diferentes partes do corpo foram mudando. Os membros e o formato do corpo passaram a facilitar a natação, enquanto a alimentação e os sentidos também se adaptaram ao novo ambiente.
Para entender como essas mudanças aconteceram, os pesquisadores analisaram 5.635 espécies de mamíferos atuais e recentemente extintas e dividiram os animais em quatro grupos, de acordo com o quanto estavam adaptados à vida aquática. Do total, 96,7% eram totalmente terrestres. As outras 186 espécies, ou 3,3%, apresentavam algum nível de adaptação.
O primeiro grupo reúne animais que não apresentam características específicas para viver na água. No segundo estão espécies que já desenvolveram algumas adaptações, mas ainda conseguem se movimentar facilmente em terra. O ornitorrinco, por exemplo, possui membranas entre os dedos que ajudam na natação, mas também vive em ambientes terrestres.

No terceiro grupo estão animais que já enfrentam mais dificuldades para se locomover em terra, embora ainda consigam sair da água. É o caso de focas, leões-marinhos, morsas e lontras-marinhas.
No último grupo estão os mamíferos totalmente aquáticos . Eles dependem do ambiente aquático para viver e não precisam voltar à terra. Baleias, golfinhos, peixes-boi e dugongos fazem parte dessa categoria.
É justamente nessa passagem para os grupos mais adaptados à água que aparece o principal resultado do estudo.
Quanto mais adaptado à água, mais difícil voltar
Os pesquisadores encontraram sinais de que existe um limite entre os mamíferos que ainda conseguem viver bem em terra e aqueles que já dependem muito mais da água.
Quando as adaptações são leves, um animal ainda pode, ao longo da evolução, voltar a depender mais da terra. Mas, quando as mudanças no corpo se tornam muito intensas, essa possibilidade diminui bastante.
Entre os mamíferos mais adaptados à vida aquática, a chance de voltar para grupos menos dependentes da água ficou próxima de zero.
Esse resultado está ligado à chamada Lei de Dollo, uma hipótese da evolução que diz que estruturas complexas perdidas ao longo do tempo dificilmente voltam a aparecer da mesma maneira.
Isso ajuda a entender por que uma baleia, por exemplo, não poderia simplesmente recuperar as pernas de seus ancestrais terrestres depois de milhões de anos de mudanças.
Regra de Bergmann
A adaptação à vida na água também causou mudanças no tamanho do corpo e na alimentação dos mamíferos.
Esse padrão pode estar relacionado à chamada regra de Bergmann, que diz que animais de sangue quente tendem a ter corpos maiores em ambientes frios. Um motivo pode ser a água, que retira calor do corpo mais rapidamente do que o ar. Ter um corpo maior ajuda a diminuir essa perda, já que a superfície corporal cresce proporcionalmente menos do que o volume. Além disso, muitos mamíferos aquáticos desenvolveram uma camada de gordura sob a pele, que ajuda a conservar o calor.
A alimentação também mudou conforme os animais se tornaram mais dependentes da água. Os pesquisadores observaram que, quanto maior era a adaptação à água, maior era a presença de dietas carnívoras e onívoras, baseadas em outros animais.
Uma explicação pode ser a maior necessidade de energia. Como a água favorece a perda de calor, esses mamíferos podem precisar de mais energia para manter o corpo funcionando e conservar a temperatura. Alimentos ricos em nutrientes ajudam a compensar essa demanda. É o caso de algumas baleias , que filtram grandes volumes de água para capturar pequenos organismos.
O caminho de volta não é impossível
Os resultados não significam que exista uma regra absoluta que impeça qualquer mamífero de voltar da água para a terra.
Os próprios pesquisadores destacam que ainda existem dúvidas sobre como as diferentes mudanças evolutivas estão relacionadas e sobre qual delas acontece primeiro. Além disso, o estudo identifica padrões observados entre os mamíferos, e não uma regra capaz de prever exatamente o futuro de todas as espécies.
A principal conclusão é que quanto mais intensa é a adaptação de um mamífero à vida na água, menor tende a ser sua capacidade de retornar a um modo de vida terrestre.
Em outras palavras, a evolução pode levar um animal da terra para a água, mas, à medida que o corpo se transforma para sobreviver nesse novo ambiente, o caminho de volta fica cada vez mais difícil.