Floresta Nacional do Tapajós, no Pará
Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Floresta Nacional do Tapajós, no Pará

As árvores ajudam a manter o ciclo da água e podem influenciar até na formação de chuvas, mesmo em áreas longe do oceano. Esse fenômeno é possível graças ao processo chamado bomba biótica.

As florestas fazem parte do ciclo da água por meio da evapotranspiração, nome dado à combinação da evaporação da água com a liberação de vapor pelas plantas.

As folhas liberam vapor d’água para a atmosfera. Em grandes áreas cobertas por vegetação, essa liberação pode ser muito alta.

Quando o vapor sobe e ajuda a formar as nuvens, a pressão do ar nas camadas mais baixas da atmosfera diminui. Com isso, o ar úmido de regiões próximas, inclusive dos oceanos, se move em direção às áreas cobertas por vegetação.

O desmatamento no Acre ocorre integralmente no bioma Amazônia, que corresponde a 100% do território
Divulgação/ Governo do Estado do Acre
O desmatamento no Acre ocorre integralmente no bioma Amazônia, que corresponde a 100% do território


Segundo pesquisas feitas entre 2007 e 2022, em regiões sem grandes áreas de floresta, os ventos conseguem transportar umidade só por algumas centenas de quilômetros. Já em grandes florestas naturais, como as da Amazônia, do Congo e da Sibéria, a quantidade de chuva não diminui conforme aumenta a distância do oceano.

Esse processo ajuda a explicar como regiões muito distantes do litoral conseguem receber bastante chuva e manter grandes rios.

Como funcionam os rios voadores

Parte da umidade que chega à América do Sul, levada pelos ventos alísios, que sopram dos oceanos em direção ao continente, entra na região da Bacia Amazônica.

A floresta solta parte dessa água de novo para a atmosfera na forma de vapor. Isso ajuda a manter e transportar a umidade para outras regiões.

Nutrientes presentes na poeira africana ajudam a repor perdas causadas pelas chuvas na Amazônia
Tânia Rêgo/Agência Brasil
Nutrientes presentes na poeira africana ajudam a repor perdas causadas pelas chuvas na Amazônia


Uma parte desse vapor segue em direção ao sul e contribui para as chuvas na Bacia do Rio da Prata, que inclui áreas do Brasil, da Argentina e do Paraguai. Esse transporte de umidade é conhecido como rios aéreos ou rios voadores .

Ainda, durante o dia, o topo das árvores fica mais quente do que o solo. Essa diferença de temperatura forma uma camada de ar que dificulta a saída da umidade do chão para as partes mais altas da atmosfera, o que ajuda a manter a água no ambiente.


O que acontece quando uma floresta diminui

Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), publicada em 2021 na revista científica Nature Communications, analisou áreas desmatadas da Amazônia de diferentes tamanhos e também simulou possíveis cenários para 2050.

Em áreas de 28 por 28 quilômetros, a retirada de até aproximadamente 58% da floresta esteve ligada a um aumento da chuva. Para cada 10% adicional de perda da vegetação, foram observados cerca de 22 milímetros a mais de chuva por ano.

Depois desse limite, porém, a situação se inverteu. A cada 10% adicional de desmatamento, a quantidade de chuva anual passou a diminuir cerca de 49 milímetros.

Em áreas de 56 quilômetros, o ponto de mudança aconteceu com aproximadamente 48% de perda da vegetação. Nas áreas de 112 quilômetros, a redução das chuvas já apareceu a partir de cerca de 23% de desmatamento.

Cerca de 34 hectares de floresta amazônica em Rondônia foram desmatados
Divulgação/ Governo federal
Cerca de 34 hectares de floresta amazônica em Rondônia foram desmatados


Nas áreas maiores, com 224 quilômetros, não foi identificado o aumento inicial da chuva. Nesses locais, a quantidade de precipitação diminuiu continuamente conforme o desmatamento seguiu aumentando.

Todo esse ciclo se fecha quando a água que se acumula sobre os continentes volta naturalmente aos oceanos por meio dos rios.

Quando a vegetação nativa é substituída por pastagens ou plantações, a superfície passa a liberar menos vapor d’água para a atmosfera. A mudança também altera a quantidade de luz solar refletida pela superfície e outras características do ambiente que influenciam a formação de nuvens e a ocorrência de chuvas, desequilibrando o ciclo da água.

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