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Ainda que controversa, a alteração do genoma de embriões humanos pode atuar na erradicação de algumas doenças genéticas, como a beta-talassemia

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Creative Commons/Wikimedia
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Uma equipe de pesquisadores americanos conseguiu, pela primeira vez no país, modificar o DNA de um grande número de embriões humanos. O objetivo dos cientistas é desenvolver métodos que, no futuro, possam auxiliar na erradicação de doenças hereditárias por meio da edição dos genes responsáveis pelas enfermidades.

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O estudo liderado por Shoukhrat Mitalipov, da Oregon Health and Science University, alterou o DNA de embriões unicelulares, ainda nas primeiras fases de desenvolvimento – invisíveis a olho nu – por meio da técnica CRISPR, de acordo com informações do site “MIT Technology Review”.

Fertilizados a partir do esperma de homens cujo código genético carrega mutações hereditárias, as dezenas de embriões criados in-vitro não se desenvolveram por mais do que alguns dias, e além disso, não havia a intenção de implantá-los em um útero.

Os motivos do sucesso de Mitalipov

Os americanos não foram os primeiros a modificar o genoma de embriões humanos: pesquisadores chineses já conseguiram o feito outras três vezes. Entretanto, o uso da mesma técnica CRISPR pelos cientistas asiáticos não obteve o sucesso esperado. Em seus testes, a tecnologia só foi capaz de modificar algumas partes do código genético – um efeito chamado de “moisacismo” – , resultado que relacionou o método a práticas inseguras da engenharia genética.

Desta vez, o professor e seu grupo conseguiram a completa alteração dos genes selecionados, além de quebrarem o recorde do número de embriões alterados, fatores que representam um grande passo rumo ao nascimento da primeira geração de humanos geneticamente modificados.

Chamado de “engenharia em linha germinal”, o processo sugere que qualquer pessoa com mutações propositais poderia passar tais mudanças para as próximas gerações a partir de suas próprias células reprodutivas – óvulos e esperma. Tal processo pode resultar na erradicação de doenças como a beta-talassemia, uma condição sanguínea congênita , mas, também, extinguir outras características humanas através da mesma lógica.  

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Bebês geneticamente produzidos

Por conta disso, as preocupações acerca dos efeitos colaterais  da engenharia genética crescem junto com as novas pesquisas sobre o assunto. A Agência de Inteligência Americana já declarou, por exemplo, que o CRISPR é uma potencial “arma de destruição em massa”, posição endossada por organizações religiosas, grupos da sociedade civil e algumas companhias de biotecnologia.

Pensando na segurança dos processos, a US National Academy of Sciences (NAS) divulgou um relatório com as diretrizes e regras para testes com embriões humanos. Experimentos como o de Mitalipov, por exemplo, estão autorizados, mas somente se forem destinados a eliminar doenças graves .

“Melhorias” ou “evoluções” genéticas – como o aumento da inteligência – foram proibidas , e Alta Charo, professora de direito e bioética e co-diretora do comitê de pesquisa da NAS, explicou ao “MIT Technology Review” que ainda existem muitas questões a serem debatidas sobre o assunto. Até que ponto os benefícios da prática conseguem superar seus riscos? Quais seriam seus impactos sociais se a tecnologia não for acessível a todas as camadas da população?

Tais regulações são complementadas por decisões do Congresso dos EUA, que barrou qualquer esforço para transformar embriões modificados em bebês, mas apesar das inúmeras barreiras, a criação de um bebê com DNA modificado pode acontecer a qualquer momento, inclusive por clínicas de fertilização in-vitro que atuarem em países sem tais restrições legais.

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