
A "Apocephalus borealis”, espécie de mosca “corcunda” e parasita nativa da América do Norte , vêm causando problemas a diferentes espécies de abelhas e trazendo crise às colmeias, uma vez que as moscas utilizam outros insetos para gerar seus filhotes, e as abelhas se tornaram seu alvo principal.
De acordo com uma publicação do portal A-Z Animals, dos Estados Unidos , o ataque das moscas é só o início de um processo sofisticado. A verdadeira eficiência do ataque parasita, está em sua capacidade de inserir seus ovos em abelhas ainda vivas, provocando uma espécie de infecção que compromete, gradualmente, as funções fisiológicas do inseto, e o leva a exibir comportamentos cada vez mais incomuns com o passar dos dias.
Uma vez contaminadas pelos ovos, as abelhas passam a agir de maneira autodestrutiva, deixando suas colmeias durante a madrugada, aglomerando-se perto de fontes de luz artificial e apresentando movimentos circulares cada vez mais desordenados. No final, a infecção causa a morte da abelha e as larvas emergem da carcaça, reiniciando o ciclo reprodutivo da mosca.
Como o parasita escolhe e contamina suas vítimas
A mosca integra a família Phoridae, que reúne uma variedade de moscas conhecidas por se reproduzirem em matéria orgânica e por parasitar outros animais; algumas dessas espécies, inclusive, atacam formigas. No caso da Apocephalus borealis, apelidada de "mosca-zumbi", o alvo preferencial são as abelhas.
Do ponto de vista comportamental, esta espécie está entre os parasitas mais bem-sucedidos do continente norte-americano e sua estratégia consiste em utilizar abelhas como hospedeiras para seus ovos.
A infecção começa quando as fêmeas da mosca-zumbi saem à procura de abelhas isoladas, distantes da colmeia, geralmente enquanto pousam em flores ou até mesmo em pleno voo. Ao localizar uma vítima em condições, a fêmea pousa sobre ela e usa um órgão pontiagudo, chamado de “ovipositor”, para injetar os ovos diretamente no abdômen da abelha.
Uma vez depositados, os ovos não demoram para eclodirem em larvas. Durante várias semanas, elas se desenvolvem no interior das abelhas, alimentando-se dos músculos torácicos responsáveis pelo voo e da hemolinfa da abelha, líquido equivalente ao sangue dos insetos. Esse consumo progressivo dos órgãos internos, de dentro para fora, é o que desencadeia as mudanças comportamentais observadas nas vítimas.
Abelhas parasitadas invertem completamente sua rotina e passam a abandonar a colmeia no período, em vez de permanecerem ativas de dia e recolhidas à noite. Ainda que os pesquisadores não tenham conseguido registrar esse momento exato, é comum encontrar exemplares infectados reunidos ao redor de lâmpadas e postes, mostrando que as abelhas passaram a buscar luz artificial durante a noite. Os movimentos do vôo também se alteram, com as abelhas passando a girar em círculos sem direção definida, até perderem completamente a capacidade de se equilibrar .
Uma hipótese aponta que este comportamento parte da expulsão das abelhas infectadas pelas companheiras da colmeia, uma vez que percebem os sinais de que a mesma está contaminada. Outra corrente de pesquisa defende que a própria abelha infectada se afastaria voluntariamente, num gesto de “sacrifício” para proteger o restante do grupo.
Cerca de sete dias após a infecção, o inseto morre. Nesse momento, as larvas, já em estágio avançado, emergem por uma abertura entre o tórax e o abdômen do cadáver. Em seguida, elas se enterram no solo, onde completam a metamorfose até a fase adulta e partem em busca de novas vítimas.
O problema não se limita à ação direta do parasita: as abelhas hospedeiras também ficam mais suscetíveis a infecções secundárias. Estudos indicam que elas podem contrair o vírus da asa deformada em decorrência do parasitismo. Na espécie “mamangavas”, as “bumblebees”, esse processo chega a reduzir a expectativa de vida em até 70%.
Descobertas sobre a infecção de espécies
Durante muito tempo, acreditou-se que moscas da família Phoridae, incluindo a A. borealis, atacavam exclusivamente as espécies de abelhas mamangavas e vespas-do-papel. Esse cenário só mudou entre 2008 e 2009, quando o pesquisador John Hafernik identificou, pela primeira vez, outras espécies de abelhas parasitadas, como as abelhas-européias, na Universidade Estadual de São Francisco.
A descoberta aconteceu por acaso, nas proximidades do Hensel Hall, no campus universitário, Hafernik reparou em um conjunto de abelhas mortas próximo a um poste de luz. Intrigado, recolheu os insetos, guardou-os em um recipiente e, por descuido, esqueceu-se deles. Uma semana depois, ao verificar o material, encontrou larvas emergindo dos corpos, revelando uma evidência inédita de que a Apocephalus borealis também parasitam abelhas “melíferas” .
A descoberta abriu espaço para novas teorias, entre elas a de que a mosca teria passado a atacar essa espécie por sua maior disponibilidade em determinadas regiões. Mais do que isso, o achado trouxe uma pista relevante para a síndrome do colapso das colônias, que provoca o desaparecimento repentino de colmeias inteiras.
Embora ainda não haja certeza sobre as causas exatas desse abandono em massa, cientistas não descartam uma relação entre a ação das moscas-zumbi e o colapso das colônias. Atualmente, a Apocephalus borealis já é considerada uma das principais ameaças às populações de abelhas na América do Norte.