
Para além dos impactos na saúde e na vida das adolescentes, a gravidez e a maternidade na adolescência geram perdas anuais estimadas em R$ 6,2 bilhões para a economia brasileira. O valor equivale a 0,06% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional de 2024.
Os dados são do estudo “Consequências socioeconômicas da gravidez na adolescência no Brasil" , elaborado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). O levantamento analisa os impactos do fenômeno em cinco áreas: educação, participação no mercado de trabalho, renda, saúde e arrecadação fiscal.
Segundo o estudo, as consequências ultrapassam a esfera individual e de saúde e podem interferir na trajetória educacional e profissional das mulheres, além de representar um impacto para a economia do país, como explica Anna Cunha, oficial de programa para saúde sexual e reprodutiva e direitos do UNFPA.
Impactos na renda e educação
De acordo com o levantamento, a gravidez e a maternidade na adolescência podem interferir diretamente na trajetória educacional e profissional dessas mulheres. As estimativas apontam diferenças significativas nas oportunidades de estudo e trabalho quando comparadas às mulheres que tiveram o primeiro filho na idade adulta.
Entre as mulheres que foram mães na adolescência, o estudo aponta:
- taxa de inatividade 8,9% maior;
- taxa de desemprego 2,83% maior;
- renda média do trabalho 58% menor;
- maior prevalência de violência sexual.
Já entre as mulheres que tiveram o primeiro filho na idade adulta, há:
- 9% mais probabilidade de concluir a escolaridade;
- 10% mais probabilidade de alcançar formação universitária;
- 5% mais probabilidade de alcançar a pós-graduação.
Os efeitos tendem se estender para além do período imediatamente posterior à gestação. Para Cunha, políticas públicas precisam considerar também a trajetória dessas adolescentes depois da maternidade, garantindo condições para que elas possam retomar os estudos e acessar o mercado de trabalho.
Segundo ela, a oferta de creches e de uma rede de cuidados também é fundamental para evitar que a maternidade represente uma penalização para a trajetória dessas mulheres.
Corresponsabilidade masculina
Além do olhar sobre as adolescentes, Cunha destaca a importância da corresponsabilidade masculina na prevenção da gravidez.
Gravidez na adolescência atinge grupos mais vulneráveis
O estudo também evidencia desigualdades raciais, educacionais e territoriais. Três em cada quatro adolescentes que já engravidaram são pretas ou pardas, enquanto quase metade das adolescentes que vivenciaram uma gravidez apresenta escolaridade limitada ao ensino fundamental.
A maior incidência entre grupos socialmente vulneráveis está relacionada a fatores que vão além da decisão individual. Racismo estrutural, pobreza, dificuldades de acesso e permanência na escola e desigualdades no acesso à saúde sexual e reprodutiva estão entre os elementos apontados pela especialista.
Nesse cenário, a maternidade precoce pode aprofundar vulnerabilidades que já existiam antes da gestação. A interrupção dos estudos, as dificuldades de inserção no mercado de trabalho e a redução da renda podem limitar ainda mais as oportunidades dessas mulheres.
Prevenção e políticas públicas
Cunha afirma que a prevenção passa pela ampliação do acesso das adolescentes à informação, à educação em sexualidade e aos serviços de saúde. Para aquelas que já são mães, também são necessárias políticas que favoreçam a retomada dos estudo s e a entrada no mercado de trabalho, além de uma rede de cuidados que inclua o acesso à creche.
O objetivo da campanha, segundo o UNFPA, é ampliar o debate sobre o tema e estimular políticas públicas voltadas às necessidades dos adolescentes.