PMs perseguem inocente após falso reconhecimento do Smart Sampa

Ailton foi levado à delegacia quatro vezes após ser confundido com um foragido; em uma das vezes, policiais foram até sua casa durante a madrugada

Câmeras de segurança registraram a chegada de PMs à casa de Ailton Alves de Sousa por volta das 3h da manhã, horas após ele ter sido liberado da delegacia
Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
Câmeras de segurança registraram a chegada de PMs à casa de Ailton Alves de Sousa por volta das 3h da manhã, horas após ele ter sido liberado da delegacia

O coordenador de departamento pessoal Ailton Alves de Sousa, de 41 anos, vive com medo desde que passou a ser abordado pela polícia e conduzido à delegacia ao menos quatro vezes em um período de sete meses, em São Paulo.

Morador do Heliópolis, na Zona Sul da capital paulista, Ailton já foi abordado dentro de casa, em uma sala de cinema de um shopping, enquanto trabalhava como freelancer em uma corrida de rua e até dentro de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), onde acompanhava a mãe.

Segundo Ailton, em todas as ocasiões ele foi abordado após ser reconhecido de forma equivocada pelo Smart Sampa , programa da Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU)  que utiliza reconhecimento facial e inteligência artificial. 

O iG procurou a secretária municipal de Segurança Urbana, Juliana Lopes Bussacos, para comentar o caso. Ela também foi procurada para responder a uma série de reportagens sobre a Guarda Civil Metropolitana de São Paulo , incluindo as diferenças entre as inspetorias do Centro e das periferias , o funcionamento de bases em sedes improvisadas e o afastamento de guardas por problemas de saúde mental. Até a publicação, não houve resposta. 

Secretária Municipal de Segurança Urbana, Juliana Lopes Bussacos
Foto: Reprodução/redes sociais
Secretária Municipal de Segurança Urbana, Juliana Lopes Bussacos


Segundo Ailton, as abordagens policiais começaram depois que ele foi confundido com um homem procurado pela Justiça por um homicídio cometido no Mato Grosso. Os dois têm nomes semelhantes, o que teria levado à identificação equivocada. 

Apesar da semelhança, outras informações disponíveis nos registros poderiam ter sido verificadas antes da abordagem, como uma letra do sobrenome, os nomes e as idades dos pais, a cidade de nascimento e o número do documento de identidade.

Eles não têm a foto desse cara que cometeu o crime. E aí o que acontece? Como era o meu nome que estava sendo confundido com o dele, a minha foto foi para os dados, mas assim ninguém se deu ao trabalho de ler porque você vê que tem uma semelhança no nome, mas muda o nome do pai, do número do RG e CPF. O nome da mãe é parecido, mas não é igual.
Ailton Alves de Sousa, coordenador de departamento pessoal


Da UPA à porta de casa

A última abordagem ocorreu em março deste ano. Ailton estava na UPA acompanhando a mãe, que recebia soro, quando agentes entraram no local e o detiveram.

Na delegacia, ele foi colocado em uma sala destinada aos detentos enquanto os agentes conferiam seus dados. No fim do dia, foi liberado.

Horas depois, porém, policiais foram até a casa de Ailton durante a madrugada. Por volta das 2h30, cerca de três viaturas pararam próximo ao imóvel.

Eles vieram às 3 horas da manhã, gritando meu nome e me chamando, ficaram sacudindo o portão, tentando entrar dentro da minha casa. Eu olhei pelo olho mágico, vi que era policial, e era esse horário aí e fiquei com medo. Eu liguei para o meu advogado nesse mesmo horário e ele veio até a minha casa, mas quando o carro dele embicou no começo da rua, os policiais entraram na viatura e foram embora. Ou seja, se eles não tivessem má intenção, eles não teriam saído. Eles saíram porque? Porque além de ter movimento era mais uma testemunha para ver o que eles estavam fazendo.
Ailton Alves de Sousa, coordenador de departamento pessoal









Depois da chegada do advogado, os dois foram até a delegacia registrar uma queixa sobre o ocorrido. Segundo Ailton, o delegado afirmou que os policiais que foram até sua casa provavelmente “queriam forjar uma cana ou fazer algo mais sério”.

Ailton também relata que, em outras duas ocasiões, policiais entraram em sua casa sem mandado.

“Teve duas vezes que os policiais entraram na minha casa sem mandato. Eu tava chegando da feira em um domingo e eles entraram na minha casa. A desculpa que eles usaram foi: “Ah, mas é que a gente recebeu uma denúncia de agressão física e de agressão doméstica e a gente veio averiguar”.

Funcionamento do Smart Sampa

Quando lançou o Smart Sampa , a Prefeitura de São Paulo apresentou o programa como uma ferramenta de segurança baseada em câmeras, inteligência artificial e reconhecimento facial, com protocolos para utilização dos dados e análise dos alertas.

Na assinatura do contrato com o consórcio vencedor da licitação, o prefeito Ricardo Nunes afirmou que o sistema havia sido desenvolvido para evitar incorreções e disse que pessoas inocentes não deveriam se preocupar com a tecnologia.

Quem tem que estar preocupado é quem fez alguma coisa contra a lei, mas quem não tem nada contra a lei, fique despreocupado. Alguém que fez algo contra a lei, alguém que traz transtorno para a sociedade, acho que essas pessoas têm que estar preocupadas.
Prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes



Nunes também afirmou que as forças de segurança só iriam atrás de um suspeito quando o rosto apresentasse mais de 90% de similaridade na biometria facial. Segundo o prefeito, antes de os dados serem transmitidos às forças policiais, os alertas passariam por um comitê integrado à Controladoria Geral do Município para análise.

Três anos depois das declarações, no entanto, um levantamento aponta que mais de 90 pessoas foram reconhecidas de forma equivocada pelo sistema. 

Os dados foram retirados da pesquisa “Smart Sampa vigia, mas não protege: falta de evidência na redução de crimes e aumento da produtividade policial na cidade de São Paulo” , realizada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC).

Segundo o estudo, não houve melhora nos índices de furtos, roubos e homicídios em São Paulo após a instalação do sistema.

A pesquisa também aponta que não foram encontradas evidências de que as câmeras do Smart Sampa tenham contribuído para melhorar os indicadores de prisão em flagrante ou de cumprimento de mandados em nenhum mês posterior à adoção do programa.

Falsos reconhecimentos 

O Smart Sampa possui milhares de câmeras instaladas em pontos estratégicos da capital paulista. As imagens são analisadas por ferramentas de inteligência artificial capazes de identificar situações consideradas suspeitas e emitir alertas em tempo real para uma central de monitoramento.

Segundo a pesquisadora do CESeC Yasmin Rodrigues, o programa transforma os rostos das pessoas em uma “assinatura biométrica” e, posteriormente, produz um cálculo probabilístico ao comparar aquela imagem com um banco de dados que reúne milhões de rostos.

Para ela, o problema está também na forma como esse resultado é interpretado pelas forças de segurança: uma previsão estatística passa a ser tratada como uma confirmação de identidade.

Segundo a pesquisadora, dois fatores principais podem contribuir para os falsos reconhecimentos. 

  • O primeiro está relacionado ao treinamento dos softwares. Os sistemas podem ser desenvolvidos a partir de bancos de dados de populações estrangeiras e, com isso, aprender padrões biométricos que, quando aplicados à população brasileira, podem produzir erros.
  • O segundo envolve as próprias condições em que as imagens são captadas . Movimento, baixa luminosidade e outros fatores podem comprometer a qualidade da imagem e aumentar a possibilidade de uma pessoa ser confundida com outra.

Yasmin também ressalta que a população negra está mais suscetível a erros em razão dos bancos de dados utilizados e de um sistema de persecução penal que, segundo ela, é atravessado pelo racismo.

“Quando a polícia para uma pessoa negra, ainda mais apontada por um match de reconhecimento facial, ali já está dada a sentença”.

Para a pesquisadora, o problema não está apenas na possibilidade de o sistema confundir uma pessoa com outra. Ela questiona o fato de todos os cidadãos serem monitorados enquanto circulam pela cidade. 

A principal questão, a meu ver, é a inversão da lógica penal, ou seja, todos passam a ser monitorados porque são considerados suspeitos. Você não é mais um cidadão, com direitos garantidos e inocente até que prove o contrário, é um suspeito e deve ser monitorado. Isso muda totalmente a forma de relacionamento do estado (e das polícias) com as pessoas.
Pesquisadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, Yasmin Rodrigues



Por isso, Yasmin considera que o uso do reconhecimento facial em tempo real em espaços públicos é um problema mesmo quando a tecnologia apresenta poucos erros. Para ela, a questão está na própria ideia de manter a população sob monitoramento constante.

“Na minha avaliação, o reconhecimento facial em tempo real em espaços públicos é incompatível com direitos fundamentais. Mesmo que o sistema fosse mais preciso, continuaria submetendo toda a população a uma busca policial permanente. O problema não é apenas o erro, mas o próprio modelo de vigilância.”

O iG procurou a Secretaria Municipal de Segurança Urbana e a secretária Juliana Lopes Bussacos para solicitar um posicionamento sobre o caso e os dados relacionados à saúde mental dos agentes da GCM, mas não houve resposta até a publicação.