
Os transtornos de ansiedade e depressão são as principais causas de afastamento por saúde mental entre os guardas civis metropolitanos da cidade de São Paulo. Entre janeiro de 2021 e 16 de julho de 2026, foram concedidas 6.932 licenças médicas, que resultaram em mais de 286 mil dias longe do trabalho.
Desde 8 de julho, o iG tenta entrevistar a secretária municipal de Segurança Urbana, Juliana Lopes Bussacos , para tratar das condições de trabalho, da saúde mental dos agentes e das medidas adotadas pela pasta. Ela também foi procurada para comentar as reportagens sobre a infraestrutura das bases e inspetorias da GCM. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno aos pedidos de entrevista.

Os dados, obtidos pelo iG por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), foram fornecidos pela Secretaria Municipal de Gestão de São Paulo.
Ao longo do período, mais de 2,3 mil servidores precisaram se afastar por motivos relacionados à saúde mental. Isso significa que, aproximadamente, um em cada três guardas civis metropolitanos precisou de pelo menos uma licença médica.
Entre os principais diagnósticos registrados nas licenças médicas estão:
- transtornos ansiosos (2.098);
- episódios depressivos (1.590);
- transtorno depressivo recorrente (1.049);
- transtorno afetivo bipolar (582);
- reações ao estresse grave e transtornos de adaptação (559).
Os transtornos do humor (CID F30 a F39) lideraram os afastamentos entre 2021 e 2024. Já em 2025 e até julho de 2026, os transtornos neuróticos, relacionados ao estresse e somatoformes (CID F40 a F48), passaram a representar o maior número de licenças.
Entre 2021 e 2025, o número de guardas civis metropolitanos afastados por transtornos mentais caiu de 519 para 337. Os dados de 2026 ainda são parciais e contemplam apenas o período até 16 de julho. Atualmente, 33 guardas estão afastados.
Saúde mental ainda é tabu entre agentes
O psicólogo e mestre em saúde mental com foco em servidores da segurança pública, Carlos Jean, avalia que o adoecimento mental entre os agentes é resultado de diversos fatores. Entre eles, cita o endividamento, a falta de plano de carreira e as escalas excessivas, que extrapolam a carga de trabalho e contribuem para o desgaste físico e emocional.
Para o especialista, a própria cultura organizacional das corporações também favorece o desenvolvimento dos transtornos.
Nós temos a cultura do herói, de que policial é herói e não pode sentir, chorar ou ser fraco. A gente vê isso muitas vezes na visão dos nossos antepassados sobre os homens, de que eles têm que ser fortes. Dentro do contexto policial, quando você vai passar por um treinamento, isso também é imposto.
Além da dificuldade em demonstrar vulnerabilidade, Carlos afirma que o preconceito dentro da própria corporação e o medo do julgamento fazem com que muitos agentes deixem de procurar ajuda. Segundo ele, o pedido de sigilo é uma das primeiras preocupações de quem busca atendimento psicológico.
“Quando ele vai até a instituição para comunicar o afastamento, ele pensa: ‘o que vão pensar de mim?’. No nosso linguajar policial, é chamado de ‘13’. Então fica: ‘o 13 trouxe um atestado psicológico’. Ele passa a ser separado e visto como um problema dentro da instituição. Por isso, muitos preferem tentar remediar de alguma forma antes de se afastar.”
Na avaliação do psicólogo, é preciso que as corporações deixem de tratar a saúde mental apenas no discurso e passem a oferecer acolhimento efetivo aos profissionais.
Um agente apresentou um relatório psiquiátrico e a corporação não aceitou. Um dia, ela estava a 15 metros da base dela e eu fiquei uma hora e 46 minutos no telefone tentando convencê-la a não tirar a própria vida. Ela levou um atestado psiquiátrico, mas o superior interpretou aquilo como se ela não quisesse trabalhar.
Suicídios acendem alerta
Os impactos do adoecimento mental também aparecem nos casos mais graves. Dados obtidos com exclusividade pelo iG mostram que, desde 2021, foram registrados 15 suicídios e quatro tentativas entre guardas civis metropolitanos da capital paulista. Somente em 2025 e em 2026, foram quatro mortes em cada ano.
Para o inspetor da GCM Carlos Matos, a precariedade das condições de trabalho contribui para o adoecimento dos agentes.
“Trabalhar em um ambiente insalubre e precário mexe diretamente com a autoestima do guarda civil, que se sente desprestigiado e desvalorizado pela instituição. Isso afeta severamente a saúde mental dos servidores, gerando altos índices de adoecimento e, no limite, o alarmante índice de suicídios que enfrentamos hoje na categoria. Um profissional desmotivado e mentalmente esgotado tem sua capacidade de atendimento à população comprometida.”
Medidas de acolhimento
Em resposta ao iG, a Secretaria Municipal de Gestão informou que mantém programas voltados à promoção da saúde mental, à prevenção do adoecimento e ao acompanhamento de servidores.
Entre as iniciativas está a Rede SOMOS, programa que reúne equipes multiprofissionais e interlocutores de saúde mental distribuídos pelas secretarias municipais. Segundo a pasta, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana conta atualmente com 123 interlocutores.
A Gestão afirmou que, entre 2023 e junho de 2026, foram realizadas 149 ações em parceria com a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, incluindo palestras, lives sobre saúde mental, acolhimento de servidores em sofrimento psíquico, capacitação de gestores, contato com familiares quando necessário e ações de pósvenção, voltadas ao suporte das equipes após eventos críticos ou fatais.
Se você ou alguém que conhece estiver enfrentando sofrimento emocional ou pensamentos suicidas, é possível buscar apoio gratuito e sigiloso no Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188 ou pelo chat disponível no site do serviço. Em situações de emergência, procure o serviço de saúde mais próximo ou ligue para o Samu (192).