
Há exatos 39 anos, em 28 de setembro de 1987, uma segunda-feira, Maria Gabriela Ferreira levou à Vigilância Sanitária, no Setor Aeroporto, em Goiânia , um saco de linhagem com o material radioativo que estava adoecendo sua família.
Casada com Devair Alves Ferreira, dono do ferro-velho que comprou parte de um aparelho de radioterapia abandonado, ela desconfiou da peça e procurou ajuda. Na repartição, um funcionário colocou o saco sobre uma cadeira. A imagem ficou marcada na história da cidade como registro do gesto que permitiu identificar a contaminação por c ésio-137 e ajudou a salvar, quem sabe, milhares de vidas.

Maria Gabriela tinha 37 anos quando levou o materia que, desconfiava, estava adoecendo sua família . O equipamento havia sido retirado por dois catadores das antigas instalações do Instituto Goiano de Radioterapia, em 13 de setembro. Depois da ruptura da cápsula, o material radioativo passou a circular entre familiares e conhecidos. O brilho azulado despertava curiosidade, enquanto os efeitos da exposição eram inicialmente confundidos com outros problemas de saúde.
A preocupação de Maria Gabriela levou o material até as autoridades. Acompanhada de Geraldo Guilherme da Silva, funcionário do ferro-velho, ela foi de ônibus à Vigilância Sanitária. O relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) registra que Geraldo ajudou no transporte do saco com os restos da fonte radioativa.
No dia seguinte, 29 de setembro, o físico Walter Mendes Ferreira confirmou a presença de radiação. A descoberta desencadeou o isolamento de áreas contaminadas e a mobilização para localizar e atender as pessoas expostas.
Maria Gabriela, porém, já estava gravemente atingida. Foi levada para tratamento no Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, e morreu em 23 de outubro de 1987, 25 dias depois de procurar a Vigilância Sanitária. Ela está entre as quatro pessoas que morreram naquele mês em decorrência da síndrome aguda da radiação. Sua sobrinha Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, morreu no mesmo dia.
Antes de embarcar para o Rio, Maria Gabriela explicou o que a havia motivado. “Levei a peça para a Vigilância porque estava adoecendo meu povo e queria que sarasse logo”, disse, conforme registro reproduzido na publicação “Césio 137 – 37 anos”, da Secretaria de Estado da Saúde de Goiás.
A dimensão da emergência aparece no balanço da AIEA: cerca de 112 mil pessoas passaram por monitoramento, e 249 apresentaram contaminação interna ou externa.
Intevenção e homenagem
Para Glauco Gonçalves, professor do Programa de Pós-Graduação em Projeto e Cidade da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás (UFG), o gesto de Maria Gabriela precisa ocupar um lugar central na memória da tragédia. Ele defende que o 28 de setembro seja incorporado às datas de lembrança do episódio, com atenção à iniciativa que permitiu começar a enfrentá-lo.
“A minha ideia é reordenar e ressignificar a forma como essa história está sendo contada e também a forma como ela não está sendo contada”, afirma.
A proposta do professor é contar a história também a partir da busca por uma solução e reconhecer Maria Gabriela para além de sua presença na lista de vítimas fatais. Na avaliação dele, sua decisão impediu que outras pessoas continuassem expostas sem que a origem do problema fosse conhecida.
“Maria Gabriela precisa ser reconhecida como uma heroína dentro de uma tragédia. Ela merece receber um reconhecimento público do estado de Goiás, da prefeitura de Goiânia e também do governo brasileiro”, diz.
Esse é o ponto de partida da intervenção “Áspera espera”, concebida por Glauco e realizada em parceria com Tarsilla Couto de Brito, professora da Faculdade de Letras da UFG. O trabalho recria a imagem do saco com material radioativo sobre uma cadeira na Vigilância Sanitária.
Na intervenção, a cadeira, o saco e a vasilha metálica reaparecem em quatro pontos de Goiânia: diante do Centro de Convenções, na área onde funcionava o instituto de radioterapia; nas ruas 57 e 26-A, ligadas à contaminação; e em frente ao Palácio das Esmeraldas, junto ao busto de Pedro Ludovico.
O acidente que marcou Goiânia
O acidente começou em 13 de setembro de 1987, quando dois homens retiraram um aparelho de radioterapia abandonado nas antigas instalações do Instituto Goiano de Radioterapia, no centro de Goiânia. O equipamento continha uma fonte altamente radioativa de Césio-137.
Dias depois, parte do aparelho foi vendida a um ferro-velho. Ao desmontar a cápsula, os envolvidos encontraram um material que emitia luminosidade azul. Sem conhecimento sobre o risco, pequenas quantidades da substância foram manuseadas e distribuídas entre familiares, amigos e vizinhos, espalhando a contaminação por diferentes pontos da cidade.
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A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) considera o episódio o pior acidente já registrado no mundo envolvendo uma fonte radioativa. Cerca de 250 pessoas foram contaminadas e quatro morreram no primeiro mês após a exposição. O desastre também levou à revisão de padrões internacionais de segurança para fontes utilizadas na medicina e na indústria.
A descontaminação exigiu a retirada de casas, objetos pessoais, solo, materiais de construção e outros itens que tiveram contato com o Césio-137. Todo o material recolhido foi transportado para Abadia de Goiás, município localizado a cerca de 25 quilômetros da capital.