
Criada em 15 de setembro de 1986, a Guarda Civil Metropolitana (GCM) de São Paulo surgiu com o objetivo de aproximar o policiamento da população e reforçar a segurança nos bairros, atuando na proteção de bens, serviços e instalações públicas municipais. A corporação foi criada para preencher uma lacuna na vigilância urbana e comunitária, de forma integrada às demais forças de segurança. Na época, a GCM começou com apenas 150 agentes, que enfrentaram escassez de recursos e precisaram trabalhar com estruturas provisórias.
Sem sede própria, os agentes se reuniam no prédio onde atualmente funciona o Departamento de Recursos Humanos da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), na rua Pedro de Toledo, na Vila Clementino, em São Paulo.
No local, recebiam as ordens do dia e seguiam para os postos de trabalho a pé ou de ônibus. Os guardas eram divididos em grupos de apenas cinco homens, já que o número de armas disponíveis não era suficiente para atender todo o efetivo. Os armamentos utilizados pela corporação eram emprestados pelo Exército Brasileiro.
O primeiro curso de aperfeiçoamento operacional da GCM teve duração de 30 dias e contou com atividades teóricas e práticas relacionadas ao trabalho cotidiano dos agentes, incluindo aulas de educação física e comunicação por rádio.
Os mesmos problemas, anos depois
Após 40 anos, os problemas relacionados à falta de recursos e estrutura ainda persistem. Os GCMs de São Paulo continuam enfrentando dificuldades com a falta de insumos, produtos de limpeza, viaturas e materiais de escritório nas unidades onde trabalham. As condições dos prédios também são alvo de reclamações dos agentes, que relatam banheiros interditados, estruturas enferrujadas, infiltrações e até infestações de baratas nos refeitórios.
O iG procurou a Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU) e a secretária municipal de Segurança Urbana, Juliana Lopes Bussacos, para comentar os relatos dos guardas sobre a falta de equipamentos, além dos problemas nas viaturas e na estrutura da unidade. Ela também foi procurada para responder a uma série de reportagens sobre a Guarda Civil Metropolitana de São Paulo, incluindo as diferenças entre as inspetorias do Centro e das periferias, o funcionamento de bases em sedes improvisada e o afastamento de guardas por problemas de saúde mental. Até a publicação, não houve resposta.

A reportagem entrou em contato com guardas municipais que atuam na cidade de São Paulo para entender a situação. Em relato à reportagem, um agente que preferiu não se identificar afirmou que as condições de trabalho na unidade onde atua são precárias.
O refeitório é horrível, tem infestação de baratas. Praticamente todas as unidades da Guarda sofrem com a falta de insumos, como materiais de limpeza e de escritório, além de problemas relacionados aos uniformes. Guarda Civil Municipal que preferiu não se identificar
Segundo o guarda, há ainda viaturas de bases da corporação na região central da capital paulista que não possuem rádios comunicadores.
Essa situação existe desde que eu entrei na Guarda, há 20 anos. Quando fui admitido, me deram um uniforme tamanho 56, sendo que eu usava 40 ou 42. Acabei tendo que comprar meu próprio uniforme. Tem gente que se forma e não consegue trabalhar porque faltam equipamentos Guarda Civil Municipal que preferiu não se identificar
Segundo uma GCM ouvida pela reportagem, algumas viaturas que atuam na Zona Leste de São Paulo enfrentam problemas de infestação de baratas. De acordo com ela, os insetos são encontrados em diferentes partes dos veículos, incluindo a caixa de câmbio e o assoalho.
Elas saem da caixa de câmbio, do assoalho, não tem como jogar veneno. Mas aí você me pergunta: por que não manda para a CS, terceirizada que dá manutenção na viatura? No ano passado, uma viatura da região central foi para dedetização, mas agora eles estão mais resistentes. Eles falam que, se as viaturas estão desse jeito, é culpa dos guardas. Então é muita burocracia, e nós temos que trabalhar com viaturas que têm barata dentro. Guarda Civil Municipal que preferiu não se identificar
A GCM também relatou que existe um lava-rápido credenciado para a limpeza das viaturas, mas, segundo ela, a unidade onde trabalha não possui uma programação ou planilha que permita aos agentes encaminharem os veículos para a higienização.
A gente não tem orientação para isso, não temos tempo para isso também. Por mais que tenha o lava-rápido credenciado, nós não usamos. Eles pagam para não usarmos. Guarda Civil Municipal que preferiu não se identificar
Problemas mecânicos
Além da falta de higienização, a guarda afirma que as viaturas também apresentam problemas mecânicos e que, mesmo após serem encaminhadas para manutenção, os veículos retornam às unidades sem que os problemas sejam consertados .
As viaturas estão completamente destruídas. É luz da injeção acesa, tem viatura sem freio, suspensão batendo, sensores com problemas, marcadores de combustível com problema. E a problemática é: as viaturas são alugadas, fazemos os relatórios. Por exemplo, a viatura está falhando, e os caras que alugam as viaturas não arrumam, eles fingem que arrumam e a viatura volta pior. Estamos trabalhando com viaturas que não temos confiança. Eu não tenho coragem de correr com essas viaturas. Guarda Civil Municipal que preferiu não se identificar
Ainda de acordo com a GCM, os problemas nas viaturas existem desde que ela ingressou na corporação, há cerca de três anos.
Nós muitas vezes preferimos andar com as viaturas quebradas, porque mandamos para a CS Brasil, eles não vão mandar uma nova, e aí vai ter uma viatura a menos circulando. E, com uma viatura a menos, nós temos que pegar nosso próprio carro, com a nossa gasolina e ir para o posto fixo. Guarda Civil Municipal que preferiu não se identificar
Outro guarda ouvido pela reportagem, que também atua na Zona Leste de São Paulo, afirmou que os problemas nas unidades são diversos e relatou, inclusive, casos de assédio sexual.
Já vi muitos casos de inspetores assediando femininos. Minha base mesmo, a situação é vexatória. Você vai fazer o número dois no banheiro, a descarga não pega, você é obrigado a fazer a limpeza, porque não tem faxineiro ali. São condições subumanas. Guarda Civil Municipal que preferiu não se identificar
O GCM também afirmou que há equipamentos nas bases que, segundo ele, não são utilizados ou são usados de maneira inadequada.
Enquanto isso, minha farda, se eu mostrar ela, vou ter que comprar outra. Guarda Civil Municipal que preferiu não se identificar
Smart Sampa recebe investimentos enquanto GCM continua sem recursos
O programa Smart Sampa foi formalmente criado em 4 de julho de 2024 e é apresentado pela Prefeitura de São Paulo como o maior programa de videomonitoramento inteligente da América Latina. A iniciativa conecta milhares de câmeras equipadas com inteligência artificial, reconhecimento facial e leitura de placas de veículos, além de integrar dados entre órgãos municipais e forças de segurança estaduais e federais.
A tecnologia utiliza algoritmos de reconhecimento facial e leitura de placas (OCR), capazes de gerar alertas em uma central integrada e auxiliar na identificação e localização de pessoas procuradas pela Justiça, a partir do cruzamento de informações com bancos de dados de segurança pública.
A expansão da tecnologia é considerada positiva, mas ocorre em meio a reclamações sobre a estrutura de algumas bases da GCM. Segundo relatos, unidades ainda aguardam reformas e enfrentam falta de insumos. A construção dos pontos de monitoramento do Smart Sampa também avançou em ritmo mais rápido do que as obras de manutenção e reforma das unidades da GCM, principalmente em áreas periféricas da capital, onde agentes relatam esperar há muito tempo por melhorias.
A reportagem conversou com o diretor de Comunicação do SindGuardas-SP, Mauricio Villar. Segundo ele, as reformas nas unidades da GCM avançam lentamente, enquanto a nova estrutura do Smart Sampa foi concluída em um curto período.
Ainda de acordo com Maurício Villar, a sede do Smart Sampa, que funcionava na rua Quinze de Novembro, no Centro Histórico de São Paulo, foi transferida, em 2025, para a antiga sede dos Correios, localizada no Vale do Anhangabaú, também na região central. Segundo ele, a mudança não estava prevista no orçamento e ocorre enquanto unidades da GCM, principalmente nas regiões periféricas, enfrentam falta de efetivo e outros problemas estruturais.
O novo Smart Sampa não estava previsto na peça orçamentária votada no ano passado. Claro que os prefeitos podem remanejar verbas, mas isso foi feito puramente por propaganda. Enquanto isso, sofremos com a falta de uniformes, por exemplo. O novo modelo só deve chegar aos policiais em janeiro de 2027. Não houve compra emergencial, e são os próprios policiais que tiram dinheiro do bolso para não ficar sem. Enquanto isso, a Prefeitura gasta milhões em algo que já funcionava perfeitamente no endereço anterior. Diretor de Comunicação do SindGuardas-SP, Mauricio Villar

Questionado sobre a principal diferença entre a estrutura que funcionava no antigo endereço do Smart Sampa e a que foi implantada no novo prédio, e se havia uma necessidade operacional que justificasse a mudança, Maurício Villar afirmou que não.
Só propaganda mesmo. Local de destaque e ostentação da marca. Diretor de Comunicação do SindGuardas-SP, Mauricio Villar
Questionamentos à Prefeitura
Por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), a reportagem entrou em contato com a Secretaria Municipal de Segurança Urbana e com a Secretaria Municipal de Gestão para questionar a manutenção das viaturas. A reportagem recebeu relatos de panes mecânicas em veículos com cerca de um ano e meio de uso. Segundo as informações recebidas, a empresa terceirizada teria até 24 horas para consertar ou substituir o veículo.
Entre os questionamentos, está o número de viaturas que não foram consertadas ou substituídas dentro desse prazo. Até a publicação desta reportagem, no entanto, não houve retorno.
Também foi solicitado ao Comando-Geral da Guarda Civil Metropolitana (GCM) de São Paulo um posicionamento sobre a falta de insumos e os problemas apresentados pelas viaturas. Até a publicação da matéria, não houve resposta.
A empresa terceirizada CS Brasil, responsável pela manutenção das viaturas da GCM, também foi procurada para comentar os problemas relatados e os serviços prestados, mas não respondeu até a publicação.
Questionamentos sobre o Smart Sampa
Também por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), a reportagem entrou em contato com a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia e com a Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação do Município de São Paulo (Prodam) para questionar a justificativa para a mudança de endereço do Smart Sampa, o valor total gasto com a transferência e o montante investido pela Prefeitura de São Paulo, nos últimos dois anos, em reformas e manutenção das unidades da GCM.
Até a publicação desta reportagem, não houve retorno.