
Durante quase todo o ano, a GO-060 faz o que se espera de uma rodovia. Liga cidades, movimenta mercadorias, aproxima trabalhadores e conduz milhares de veículos entre Trindade, Goiânia e o oeste goiano. Mas basta a chegada da Festa do Divino Pai Eterno, entre o final de junho e o primeiro domingo de julho, para que o asfalto mude de significado.
Por alguns dias, motores dão lugar às orações. O som das buzinas é substituído por cantos, promessas, agradecimentos e passos. Milhões de pessoas ocupam a faixa destinada aos pedestres e transformam uma rodovia estadual em um dos maiores caminhos de peregrinação do Brasil.
É nesse trecho de cerca de 18km que Goiás guarda uma de suas cenas mais emblemáticas. Famílias inteiras caminham sob o sol, idosos e jovens carregam objetos que simbolizam as promessas feitas e graças alcançadas. O destino é sempre o mesmo: Trindade, município da Região Metropolitana de Goiânia conhecido nacionalmente por sediar a Festa do Divino Pai Eterno, a maior manifestação religiosa do Centro-Oeste e a segunda maior do Brasil.
A tradição atravessa gerações. Surgida em meados do século XIX, a romaria nasceu da devoção popular após a descoberta de um medalhão de barro representando a Santíssima Trindade coroando Nossa Senhora. Desde então, a pequena peregrinação se transformou em um evento que reúne milhões de pessoas e movimenta não apenas a fé, mas também o turismo, o comércio e a economia goiana.

Ao longo dos 10 dias de festa, a Rodovia dos Romeiros reúne os fiéis em torno da fé e a infraestrutura montada ao longo da GO-060 também impressiona. O caminho conta com pista exclusiva para pedestres, estações da Via-Sacra, postos de atendimento médico, distribuição de água, banheiros, bases das forças de segurança e o Centro de Apoio ao Romeiro, funcionando continuamente durante a celebração. Tudo para garantir que uma rodovia pensada para veículos consiga, por alguns dias, receber milhões de pessoas caminhando.
Painéis retratam a paixão, a vida e a morte de Cristo
Ao longo da Rodovia dos Romeiros, a paisagem também conta uma história. Grandes painéis instalados às margens do caminho representam as etapas da paixão, crucificação e morte de Jesus Cristo.

A Via-Sacra é formada por 14 painéis distribuídos em sete estações ao longo da GO-060. As obras são de autoria do artista plástico Omar Souto e foram construídas em 1988. Durante a restauração no fim de 2010, as obraganharam relevo em cerâmica produzidas pelo artista Bené, que nunca ganhou o reconhecimento pelo trabalho.
Dispostos aos pares, os painéis medem cerca de 10 metros de largura por quatro metros de altura. As imagens foram produzidas com mosaicos de cerâmica e estruturas de concreto em alto-relevo, criando figuras que podem ser observadas tanto pelos peregrinos quanto por quem atravessa a rodovia de carro.

Para quem segue a pé, os painéis funcionam como pontos de referência. Eles marcam o avanço da caminhada, oferecem espaços de parada e conduzem o peregrino por uma narrativa religiosa que acompanha praticamente todo o trajeto.
A Via-Sacra também é cenário de uma tradicional encenação da Paixão de Cristo. Durante a Semana Santa, atores percorrem as estações representando os últimos momentos da vida de Jesus.