Dados expõem números alarmantes nos estados
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Dados expõem números alarmantes nos estados

Nos últimos cinco anos, os estados do Mato Grosso (MT) e Mato Grosso do Sul (MS)  apresentaram  aumento nos casos de feminicídio, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. No levantamento, o MS ocupa a terceira posição do ranking nacional, com 181 casos entre 2021 e 2025, ficando atrás do Acre e de Rondônia. Foram os dois únicos estados que se mantiveram entre os cinco de todo país com as maiores taxas em todos os anos considerados. 

Por exemplo, no MS, o ano de 2022 foi o ano mais violento, quando o estado somou 44 ocorrências, conforme apurado pelo Monitor de Violência Contra a Mulher da Secretaria de Estado e Justiça e Secretaria Estadual de Segurança Pública. As cidades com maiores registros nos últimos cinco anos são:

  • Campo Grande - 42 casos;
  • Dourados - 15 casos;
  • Três Lagoas: - 13 casos;
  • Ponta Porã - 9 casos

Enquanto o MT  apresentou índices alarmantes em 2022, 2024 e 2025, em que reuniu, respectivamente, 47, 47 e 54 casos de feminicídio, de acordo com o Observatório Caliandra, plataforma de monitoramento do Ministério Público do Mato Grosso (MPMT). O levantamento do observatório aponta que os municípios com quantitativo expressivo de crimes contra as mulheres nos últimos cinco anos são:

  • Cuiabá : 20 casos;
  • Sinop  19 casos;
  • Rondonópolis 15 casos;
  • Várzea Grande 12 casos

Onde está o agressor

Nos dois estados, a maioria das ocorrências aconteceu na residência da vítima e foi motivada por ciúmes, posse ou misoginia, que é o ódio, desprezo ou preconceito contra mulheres e meninas. Além disso, os principais autores dos crimes, segundo monitoramento de cada lugar, foram os companheiros/cônjuges e, logo em seguida, estão ex-companheiros e familiares.

Perfil das vítimas

As principais vítimas de feminicídio no Mato Grosso entre 2021 e 2025, como apontado pelo Observatório Caliandra, são, em sua maioria, mulheres entre 30 e 34 anos de idade, pardas e com ensino fundamental completo ( confira os dados completos a seguir). Além disso, a maioria dos casos não tinha registro de boletins de ocorrência ou medidas protetivas contra os agressores. 

Dados feminicídio no MT
Imagem gerada por IA a partir dos dados do Observatório Caliandra
Dados feminicídio no MT


O cenário demográfico de feminicídio no Mato Grosso do Sul, conforme o Monitor de Violência Contra a Mulher, é formado majoritariament e por mulheres de 30 a 59 anos e pardas. Um dado que chama atenção é que  mulheres acima dos 60 anos aparecem em terceiro lugar como as principais vítimas. No entanto, o levantamento não traz informações acerca da escolaridade das vítimas ou dados sobre boletim de ocorrência e medida protetiva. 

Confira o infográfico:

Perfil das vítimas de feminicídio no Mato Grosso do Sul
Imagem gerada por IA a partir do levantamento do Monitor da Violência contra a Mulher
Perfil das vítimas de feminicídio no Mato Grosso do Sul





Em entrevista ao iG, a promotora de Justiça e presidenta do Instituto Brasileiro de Atenção Integral à Vítima (Pró-Vítima), Celeste Leite, ressalta que a ausência de boletim e pedido de protetiva pode significar, muitas vezes, medo, controle psicológico. Ou, até mesmo, dependência emocional e descrença nas instituições.

"Muitas mulheres vivem sob ameaça constante e não denunciam porque temem que a violência piore, justamente, após a denúncia. Outras não se reconhecem imediatamente como vítimas de uma escalada que começou com humilhações, controle, perseguição, violência psicológica e ameaça. Há também situações em que a mulher está tão vulnerabilizada que não consegue acessar a rede de proteção a tempo". Celeste Leite




Celeste esclarece que, no geral, o feminicídio não começa no dia da morte, mas é o "desfecho mais grave de violências que, muitas vezes, já vinham acontecendo de forma silenciosa". 

Denúncia é fundamental

Leite reforça a necessidade de formalizar uma denúncia "porque ela ativa oficialmente a rede de proteção do Estado". Segundo a promotora, a partir desse registro, é possível produzir provas, como também mapear o histórico de violência, "subsidiar investigação, pedir medidas protetivas e responsabilizar o agressor".

Celeste Leite, promotora de Justiça e presidente do Instituto Brasileiro de Atenção Integral à Vítima (Pró-Vítima)
Divulgação
Celeste Leite, promotora de Justiça e presidente do Instituto Brasileiro de Atenção Integral à Vítima (Pró-Vítima)


Ao iG, Celeste Leite ressalta que o registro da ocorrência e a medida protetiva têm funções diferentes, mas, são mecanismos complementares. "O B.O. formaliza o fato e permite o início da apuração. Já a medida protetiva é um instrumento urgente para reduzir o risco", salienta. 

A medida protetiva impõe restrições ao agressor, tais como: afastamento do lar, proibição de aproximação e de contato, entre outras determinações judiciais de proteção. Esses mecanismos não eliminam o risco por si sós, mas são ferramentas centrais de proteção e prevenção, especialmente quando acompanhados de uma atuação rápida e articulada da rede" Celeste Leite



A promotora frisa que o ato de denunciar vai além do relato de uma violência, mas é uma possibilidade de "criar uma oportunidade concreta de interromper a próxima".

O que dizem as gestões

Por nota, enviada ao iG, o governo do Mato Grosso do Sul salienta que, em 2025, foram investidos cerca de R$ 95 milhões em ações de prevenção e repressão à violência contra a mulher, a partir da criação de "novos e aprimorando serviços voltados à prevenção, atendimento às vítimas e investigações de crimes".

Além disso, a gestão estadual ressalta que, desde 2019, diversas ações foram desenvolvidas, entre elas, estão a criação do Gabinete de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres, ligado ao governador. Além disso, há a implantação do Plantão 24 Horas de Atendimento a Vítimas de Violência Doméstica e Sexual. Ainda conforme o governo, houve a ampliação da Patrulha Maria da Penha e a expansão do número de delegacias e núcleos especializados.

Segundo a promotora de Justiça, Celeste Leite, nem sempre um orçamento robusto é o suficiente para diminuir as estatísticas e sanar a problemática. Ao iG, a magistrada salienta que o investimento financeiro só produz resultado quando é transformado em políticas públicas eficazes.

O orçamento precisa chegar à ponta: delegacias especializadas estruturadas, atendimento psicossocial, abrigamento, equipes treinadas, canais de denúncia acessíveis, fiscalização das medidas protetivas e resposta rápida ao risco. Em outras palavras: dinheiro sem gestão, sem integração e sem avaliação de resultado pode virar apenas peça orçamentária; dinheiro com estratégia salva vidas". Presidenta do Instituto pró-vítima




Sobre o cenário do Mato Grosso do Sul, a  subsecretária de Políticas Públicas para Mulheres, Manuela Nicodemos Bailosa, pasta vinculada à Secretaria de Estado da Cidadania, diz que o aumento de casos nos últimos cinco anos é um  "fenômeno multidimensional, que tem a ver com várias camadas sociais".

O que está por trás desse aumento é e continua sendo o machismo estrutural; enquanto a gente não atacar a raiz, não vai ter uma alteração de estatística". Manuela Nicodemos Bailosa





Ao iG, a subsecretária afirma que o estado conta atualmente com 62 salas lilás; 12 Delegacias de Atendimento à Mulher (DAM) e uma Delegacia Especializada (DEAM).

Questionada sobre as iniciativas da gestão para o combate ao feminicídio, Manuela Nicodemos Bailosa pontua que, no ano passado, foi criado, mediante decreto estadual, o Programa de Estado de Prevenção e Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, Protege.

O programa prevê ações a partir de quatro pilares estratégicos, sendo eles: Prevenção e Igualdade de Gênero, com ações educativas e preventivas, de formação intersetorial da rede de atendimento às mulheres em situação de violência, entre outros, também o pilar estratégico de atendimento integral e proteção às mulheres, acesso à Justiça, e Governança, Intersetorialidade e monitoramento". Subsecretária de Políticas Públicas para Mulheres







Ela ressalta a importância do monitoramento dos casos. Segundo Bailosa, a Secretaria de Estado da Cidadania, juntamente com a Secretaria Executiva de Transformação Digital do Estado, está desenvolvendo um sistema de rastreio no Protege.

"Transparência essa que já é demonstrada pelo Observatório da Cidadania, que é uma parceria entre a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e o Governo do Estado, com os dados por município em diversos marcadores sociais", finaliza. 

Canais oficiais para denúncia

  • Central de Atendimento à Mulher: 180
Orientação sobre feminicídio
Conteúdo gerado por IA
Orientação sobre feminicídio


  • WhatsApp do Ligue 180 – (61) 99610-0180
  • Disque Denúncia 181
  • Polícia Militar: 190
  • Zap Delas (Senado Federal): (61) 98309-0025
  • Ouvidoria da Mulher (CNMP): Canal do Conselho Nacional do Ministério Público
  • Delegacias da Mulher





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