Mensagens do celular do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto revelam comportamento abusivo e possessivo com a soldado Gisele Alves Santana, antes dela ser morta. Em documentos obtidos pelo iG, o tenente chegou a afirmar: “Se não trabalhar com macho, pode trabalhar, se for com macho, não. Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho. Casou. Sossega o facho”. Além disso, em outros pontos das conversas é possível ver que o tenente controlava as redes sociais de Gisele, e não permitia que ela trabalhasse com outros homens.
Conversas
As conversas entre Geraldo e Gisele chamam a atenção, os históricos contêm inúmeras brigas entre o casal, com afirmações sobre intenção de separação por parte de Gisele. Ela ainda afirma em uma das mensagens que não conseguirá superar a traição e que a separação seria um caminho por não haver mais confiança.
Em uma das mensagens Gisela afirma:
“Essa história não me desce. Por mais que você negue, todo mundo sabe que você adora rondar, conversar, galanteador”
Geraldo afirma que não fez nada de errado, que são fofocas sem fundamento.
Posteriormente Geraldo envia uma mensagem afirmando que:
“Se você é linda, é piranha. Se é casada com um cara bonito e gostoso, tá te traindo. Se você tem carro novo, tá roubando. Tropa maldita, invejosa.”
Gisele então questiona, quem seria a mulher linda com fama de piranha e Geraldo afirma: “O que falam de você”.
Ela então discorda e afirma que nunca teve essa fama, e ele rebate dizendo: “Que você saiba né”.
Ela então rebate alegando que a fama dela seria de corna, por estar com um ser vergonha. Neste momento Geraldo rebate e afirma que ele é:
“Sou honesto, religioso,inteligente, correto, bonito, gostoso e profissional”
Momentos depois os dois iniciam uma nova briga por Gisele ter tirado a foto de perfil dos dois. Em uma das mensagens Geraldo afirma:
“Tirou nossa foto de perfil é? Quem agradar quem aí que está dando em cima de você. Pagando de solteira.Pode desativar aquele seu perfil de Instagram que você está sozinha na foto.”
Posteriormente Gisele afirma que cansou de tentar conversar sobre o relacionamento dos dois. E Geraldo volta a mandar mensagens fazendo imposições:
“Fotos juntos no perfil, casados na bio, não cumprimentar homens com beijo no rosto e abraços e não usar fardas coladas.”
Gisele então cita novamente sobre separação:
“Se pensa isso de mim realmente temos que separar, porque eu não confio em você, nem você em mim, isso porque você não passou um terço do que eu passei com você referente a traição, mentira e falta de lealdade.”
Gisele durante a discussão voltou a comentar que seu companheiro teria acesso às suas redes sociais e que teria excluídos todos os contatos masculinos de seu perfil.
Geraldo envia uma mensagem afirmando:
“Mulher comprometida tem que ter foto junto com o namorado, noivo ou marido. Pra outros machos ver a foto juntos e já desanimar e cair fora. Foto sozinha é a senha autorizando outros machos chegar junto”.
E ela alega:
“Não tenho ninguém nos meus contatos, você excluiu todos. Eu to bem cansada”
Ainda durante as discussões, eles começam a falar sobre a falta de aliança, e Gisele afirma que Geraldo não quer investir em alianças, e nem trocar o carro com medo dela querer metade. E ele rebate as alegações falando que investe no relacionamento, e paga todas as contas. E em uma das mensagens ele diz:
“Casamento é uma via de mão dupla, os dois tem que contribuir para dar certo. Eu contribuo com o dinheiro, sou provedor. Você contribui com carinho, atenção, amor e sexo.”
Novamente, Gisele fala em seu desejo de separação.
“Por mim separamos, não vou trocar sexo por moradia e ponto final. Eu vou acabar terminando porque você acha que o seu dinheiro supre tudo e não supre. Não vou ser desonesta com você. Antes de me envolver com outra pessoa eu vou terminar porque não vou aguentar muito tempo do jeito que está.”
Neste momento ele afirma:
“Então você já está flertando e trocando mensagens com outro né”
Momentos mais tarde, ela menciona o desejo que Geraldo tinha de que ela pedisse baixa para sair da Polícia Militar.
Geraldo envia mensagens para ela dizendo:
“Eu não queria você trabalhar no QG. Cheios de homens te xavecando. O que acontece na QG. Morre na QG.”
Gisele afirma em outras mensagens durante a discussão que conheceu outro cara e que jamais casaria se soubesse que seria assim.
A tensão nas discussões pelo celular aumenta, inclusive, Gisele afirma querer o divórcio e manda Geraldo aceitar:
“Quero o divórcio, aceita. Não confio em você. Você não me respeita. Não sabe conversar. Ontem enfiou a mão na minha cara. Hoje começou a berrar. Não dá certo. Eu não confio em você. Não dá para ficar em um casamento de fachada, onde não há diálogo você só quer falar sobre assuntos que te interessam se for algo do meu interesse, vira as costas e sai andando, não me escuta. É um estúpido, grita. Nosso casamento sempre foi uma merda.”
Gisele continua afirmando seu desejo de separar
e Geraldo envia uma mensagem dizendo:
“Cada uma faz o seu papel no casamento. Marido provedor. Esposa carinhosa e submissa. Não tem atrito.”
No dia seguinte, Gisele afirma que vai sair do apartamento que divide com Geraldo.
“Pode deixar, vou sair da sua casa. Vou me acertar pra sair”
Em outros momentos Gisela afirma que entrará com pedido de divórcio, além de pedir para que Geraldo pare de gerenciar o Instagram dela. Nesse momento ela diz:
“Não tenho acesso ao seu Instagram. Não mexe no meu”
E ele responde:
“Nosso Instagram do casal. Está acionando macho pra que?”
E ela responde:
“Praticamente solteira”
Neste momento ele afirma que Gisele jamais será solteira.
“Jamais! Nunca será”
E ainda impõe algumas regras:
“Se você quer ter liberdade pra seguir quem você quiser. Você tem que ficar solteira. Enquanto você estiver casada comigo e vivendo na minha casa, na minha comanda, as coisas serão do meu jeito. Enquanto for casada comigo não admito seguir outros homens e ficar de conversa com outros homens. Mulher casada comprometida e que o marido é o único provedor do lar, tem regras a cumprir. Se você quer liberdade, não fique casada. Enquanto estiver casada comigo e morando comigo, onde eu que pago todas as contas. São as minhas regras e do meu jeito.”
E Gisele rebate afirmando:
“Se considere divorciado. Você só pode esperar eu me ajeitar para sair? Preciso levar minhas coisas”
Geraldo acrescenta:
“Enquanto você estiver tomando banho, com a minha água, usando a minha energia elétrica, a minha comida, meu gás. Eu estou pagando tudo sozinho. Enquanto não se divorciar e for embora. Estaremos casados ainda.”
Em uma das mensagens Gisele afirma que Geraldo não deixava ela trabalhar.
“As que eu fizer esse mês só recebo daqui a dois meses. Eu preciso do dinheiro. Daí não precisa me ajudar mais. Você disse que não ia me ajudar mais e não quer que eu trabalhe fica difícil. Todo mês é isso né, não quer ajudar e não quer que trabalhe, daí não dá né.”
No dia 14 de fevereiro, Gisele, novamente, questiona Geraldo se ele quer que ela vá embora do apartamento, porém, ele responde negativamente, embora as discussões fossem diárias.
“Quer que eu vá embora? Aproveito que não tá aqui” e ele responde “Não”.
Posteriormente ele envia outra mensagem para ela:
“Nossa saiu a tarde, foi na liberdade. Vai sair a noite de novo? Tá sobrando dinheiro hein!. Você e o pai dela não tem como custear tantos passeios. Tem que dar o passo de acordo com o tamanho das pernas. ”
Gisele mais uma vez fala em divórcio e solicita que Geraldo encaminhe os papeis do divórcio.
"Quer mandar os documentos para divórcio Neto pode mandar essa semana. Não vou aguentar desaforo e humilhação sua não.”
Mais tarde, os dois discutem novamente por Gisele ter ido no Parque da Mônica e Geraldo fala:
“Deve tá cheio de papais solícitos e prestativos aí…fora se não tem algum papai que por “coincidência” foi aí também né… Que roupa você está usando agora? Tira selfie de corpo inteiro e me manda.”
Em outro momento ela fala sobre ele enviar um dinheiro para ela, já que ele não deixava ela trabalhar e ele afirma:
“Não é pra você trabalhar pra ganhar mais. Tem que aprender a economizar e gastar o que o salário permite. Lugar de mulher é em casa cuidado do marido e dos filhos, não na rua. Não sossega o facho.”
E ela rebate afirmando que “Em relação ao trabalho, faço sim e vou fazer já que você não vai ajudar mais não tenho problema de trabalhar não”
E ele finaliza:
“Se não trabalhar com macho, pode trabalhar, se for com macho, não. Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho. Casou. Sossega o facho”.
Com quem ele falou primeiro antes da polícia?
A partir da apreensão do celular de Geraldo, a polícia teve acesso ao registro do histórico de chamadas e é possível perceber que a primeira ligação teria sido para o 190, porém, Geraldo não aguarda a ligação ser completada, constando como não atendida às 07:54:58, sendo que na sequência passar a ligar para seu Comandante Coronel Bueno, que não o atende.
Ele volta a ligar para o 190, porém, a ligação dura somente cinco segundos, sendo interrompida e na sequência volta a ligar para o Coronel Bueno, que o atende e fica em chamada por 58 segundos. Somente após falar com seu superior Geraldo volta a ligar para o 190 e esperar a chamada ser completada às 07:57:17, ficando em ligação por aproximadamente três minutos e 12 segundos. Somente após falar com seu superior e acionar o 190.
Controle de redes sociais
No celular de Geraldo foram encontrados registros confirmando que ele possuía acesso às contas das redes sociais Instagram e Facebook da sua companheira Gisele.
Defesa contesta prisão preventiva de tenente-coronel
Em um documento obtido pelo iG,a defesa do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto solicitou à Justiça o indeferimento do pedido de prisão preventiva apresentado pela autoridade policial no inquérito que investiga a morte de sua companheira. O caso tramita na 5ª Vara do Júri do Tribunal de Justiça de São Paulo.
No relatório final da investigação, a polícia atribui ao oficial os crimes de feminicídio majorado e fraude processual. A defesa, no entanto, contesta a conclusão e afirma que não há elementos suficientes que justifiquem a medida cautelar.
De acordo com o advogado, houve dificuldades no acesso aos autos, inicialmente classificados como sigilosos. Após a liberação, mais de mil páginas teriam sido disponibilizadas de forma desorganizada, o que, segundo a defesa, comprometeu a análise adequada do material e o pleno exercício do direito de defesa.
Gravidade do crime não basta, diz defesa
No pedido, a defesa sustenta que a gravidade da acusação, por si só, não pode fundamentar a prisão preventiva. O argumento é de que a medida deve ser excepcional e baseada em riscos concretos, como ameaça à ordem pública, à instrução criminal ou possibilidade de fuga.
A versão apresentada pelo investigado é de que o casal enfrentava uma crise no relacionamento e que, no dia dos fatos, a mulher teria tirado a própria vida após uma conversa sobre separação.
A defesa também rebate a interpretação da polícia sobre o comportamento do tenente-coronel após o ocorrido. Segundo o documento, o controle emocional demonstrado seria compatível com a formação e a experiência profissional do oficial, não podendo ser interpretado como indício de frieza.
Outro ponto destacado é a suposta colaboração do investigado ao longo das apurações. A defesa afirma que ele acionou o socorro no dia da ocorrência, prestou depoimento espontaneamente, autorizou o acesso ao celular, indicou testemunhas e participou da reconstituição dos fatos.
Além disso, argumenta que não há risco de fuga, já que o oficial possui residência fixa, vínculo com o serviço público e endereço conhecido.
A defesa também aponta que o próprio relatório policial menciona a possibilidade de aplicação de medidas cautelares alternativas, como o afastamento do cargo. Para o advogado, isso demonstra que a prisão preventiva não seria necessária.
O documento ainda cita a repercussão do caso e o clamor público, destacando que decisões judiciais devem se basear em critérios técnicos e legais, sem influência de pressões externas.
Pedido final
Ao final, a defesa pede que a Justiça negue o pedido de prisão preventiva e solicita a aplicação de medidas cautelares menos severas, como o afastamento do cargo de tenente-coronel, caso o juízo considere necessário.
Pedido negado
O ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Reynaldo Soares da Fonseca rejeitou reclamação feita pela defesa de Geraldo Leite Rosa Neto, tenente-coronel Com o indeferimento, a reclamação não terá andamento no STJ.
O ministro Reynaldo Soares da Fonseca, afirmou que não há justificativa para o cabimento da reclamação:
"Nítido, assim, que não houve nenhum provimento emanado desta corte superior, no processo em tela, que pudesse vir a ser descumprido pelas instâncias ordinárias. Tem-se, portanto, manifesta a ausência de descumprimento de decisão proferida pelo Superior Tribunal de Justiça, o que inviabiliza, portanto, o conhecimento da presente reclamação"