
Em uma sexta-feira de fevereiro de 2025, integrantes da 5ª DCF (Delegacia de Crimes Funcionais), da Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo, se ajeitaram em torno de uma tela de computador para ouvir, a centenas de quilômetros dali, um homem que dizia carregar a prova de que alguns membros da Polícia Civil paulista tinham virado sócios ocultos do tráfico de cocaína dentro e fora do Brasil.
Do outro lado da videoconferência, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, aparecia Tiago Lobo, apresentado como "ganso"(informante policial), disposto a detalhar como policiais do 77º Distrito Policial, em Santa Cecília, no centro da capital, desviaram 450 quilos de cocaína que, segundo ele, pertenciam a uma das principais lideranças da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital).
A videoconferência foi conduzida pela delegada Camilla Tavares de Albuquerque, com um escrivão registrando cada revelação de Tiago Lobo, dentro de um inquérito que não olhava para biqueiras (pontos de tráfico) de bairro, mas para uma estrutura em que policiais civis, civis e intermediários agiam como atravessadores de carregamentos milionários de drogas, principalmente cocaína.
A tela que mostrava o rosto de Tiago se converteu em janela para um circuito de poder e dinheiro que começava em laboratórios clandestinos ligados a Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho , aliado de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado pelas autoridades como chefão da facção criminosa PCC, passava pela fronteira entre Mato Grosso e São Paulo e terminava, segundo o relato, na mesa de um investigador que ele chamava de “chefe do tráfico” dentro da própria polícia.
Os policiais da Corregedoria da Polícia Civil sabiam que estavam diante de um homem que, antes de reconstituir rotas, placas de veículos, nomes e apelidos, não era uma vítima inocente, mas, sim, peça essencial no funcionamento de esquemas internacionais de tráfico.
Tiago Lobo era um ganso autodeclarado, um informante policial extra‑oficial, aquele que circula no submundo do crime, colhe fios soltos de informação e os entrega, não ao Estado de forma institucionalizada, e sim diretamente a policiais corruptos que transformam esses dados em mercadoria de extorsão.
Na prática, o ganso descobre qual caminhão está carregado, que rota será usada, onde a droga dorme e quem está devendo para quem, e vende esse pacote a grupos de agentes que escolhem o que fazer com a informação, prender, roubar, desviar ou combinar uma encenação de flagrante para satisfazer estatísticas e, ao mesmo tempo, garantir que a parte mais valiosa da carga volte ao mercado.
Foi desse lugar, intermediário entre o crime organizado e segmentos da Polícia Civil, que Tiago Lobo descreveu à Corregedoria como, segundo ele, funcionava o “vira” que transformou uma apreensão de 450 quilos de cocaína em Rubineia, no interior de São Paulo, num negócio privado de milhões de reais para poucos.
O elo de Tiago com o 77º Distrito Policial, segundo ele narrou à Corregedoria, era o empresário Jorge Vinicio Aquino, de quem dizia ser amigo e com quem mantinha contatos frequentes sobre cargas que cruzavam o Centro‑Oeste rumo à capital paulista. No depoimento, Lobo afirma que, quando o caminhão Volvo FH foi interceptado em Rubineia, em maio de 2024, não chegou a participar fisicamente da abordagem, mas acompanhou a movimentação à distância, em Campo Grande, Mato Grosso, alimentando o grupo com dados de rastreamento.
Ele citou não apenas Jorge Vinicio, mas também os policiais Alberto Solano, Rafaela Bertoletti e Alexandre Idalgo e o taxista Julio Cesar Mariano, o Julinho, como parte do time que viajava em uma caminhonete Amarok, responsável por “cuidar do caminhão” carregado com cocaína ao longo da rota. Segundo a versão de Tiago, era esse núcleo ligado ao 77º DP que, numa combinação de confiança pessoal e interesse financeiro, executava na estrada o plano desenhado pelo também investigador Cleber Rodrigues Gimenez em São Paulo, afastando outras equipes de polícia para que não houvesse divisão indesejada do lucro.
A rota dos 450 quilos de pó
A narrativa de Tiago começou em Cuiabá, Mato Grosso, onde, segundo ele, a cocaína de alta pureza foi carregada com destino final a São Paulo, seguindo um roteiro conhecido do tráfico, passando por Rondonópolis, percorrendo o interior do Mato Grosso do Sul e alcançando Três Lagoas antes de apontar para a divisa paulista em Rubineia. O rastreamento, afirmou, era feito com o uso de dispositivos instalados no veículo, monitorados por ele e, eventualmente, por duas empresas, permitindo que os policiais soubessem em que ponto da estrada o caminhão estava.

Tiago relatou que, em operações desse tipo, havia sempre fotos de vigilância e reconhecimento prévio da rota. Quando o Volvo FH cruzou a ponte que marca a fronteira entre Mato Grosso do Sul e São Paulo, a Amarok com dois integrantes do grupo que acompanhava os policiais civis do 77º DP já o acompanhava, esperando o ponto certo para reduzir a velocidade, forçar a parada e produzir a cena de flagrante que, no processo judicial sobre a apreensão dos 450 quilos de cocaína, apareceria como resultado de trabalho de inteligência da polícia paulista.
O “vira”: o truque para transformar cocaína pura em negócio
O coração do depoimento está na descrição de Tiago sobre o truque que chamou de “vira”, jargão usado, segundo ele, por policiais e criminosos para designar a substituição de drogas apreendidas por material de qualidade inferior antes da apresentação à Justiça.
Após a abordagem em Rubineia, o caminhão não teria sido conduzido diretamente à delegacia local, como manda a praxe do flagrante policial nesses casos, e sim levado até a região central da cidade de São Paulo, para um endereço específico na Rua dos Italianos, no Bom Retiro, que funcionava como uma espécie de base operacional do esquema.
Nesse imóvel, já identificado pela Corregedoria, a carga verdadeira, cerca de 450 quilos de cocaína de alta pureza, teria sido descarregada e guardada em local controlado pelo grupo, enquanto sacos com quantidade muito menor de droga adulterada, misturada a gesso, lidocaína e outros produtos, eram preparados para ocupar o lugar do carregamento original.
Só depois dessa troca, já com a prova contaminada e em volume drasticamente inferior, é que a equipe, obedecendo a ordens atribuídas a Cleber Gimenez, segundo Tiago Logo, teria conduzido o caso à formalização de flagrante, apresentando ao 77º DP uma apreensão que, no papel, não refletia a dimensão real da mercadoria desviada.
O próprio documento oficial de apreensão da cocaína, que registrou 0,01 grama em vez de aproximadamente 449,55 quilos, foi apontado por um juiz criminal como exemplo de trabalho policial insatisfatório, anotação que, confrontada com o relato de Tiago, reforçou para a Corregedoria a hipótese de manipulação deliberada da cena do crime.
Na prática, a Justiça julgou Diego Russo Castilho, o motorista do caminhão que transportava a cocaína, com base em laudos que confirmavam presença de cocaína, enquanto a maior parte da droga original seguia, segundo o Tiago Lobo, em circulação paralela sob controle de policiais e seus comparsas.
Ao longo da videoconferência, Tiago Lobo repetiu mais de uma vez o nome de Cleber Rodrigues Gimenez, investigador do 77º DP, apontando‑o como a figura que comandava a engrenagem. Na definição que ofereceu à delegada da Corregedoria, Gimenez não era apenas um policial corrupto, mas o “chefe do tráfico” numa estrutura em que o poder de decidir o que seria apreendido, o que seria desviado e quem seria sacrificado no altar do flagrante dava a ele, segundo o relato, um controle sobre parte do mercado de drogas na capital paulista.
Tiago chegou a afirmar que, em seu entendimento de homem do submundo, cerca de 80% do que acontecia no tráfico em São Paulo passava, de alguma forma, pela mão de Gimenez, porque era ele quem “fazia virar” as cargas e quem comprava tudo para revenda. O investigador, sempre de acordo com o depoente, recebia a droga desviada, mandava que apenas parte fosse apresentada em delegacia e redistribuía o restante no atacado, usando intermediários para pulverizar o produto entre grandes compradores.
O pagamento a quem participava dessa engrenagem, inclusive ao próprio Tiago, era feito em dinheiro vivo e por transferências via PIX em nome de laranjas, o que visava despistar qualquer auditoria sobre enriquecimento repentino de policiais e operadores.
Lobo declarou ter recebido R$ 280 mil pela informação que abriu caminho para a operação de Rubineia, quantia tratada nos documentos como recompensa por uma “dica” que, na prática, teria renderizado uma fortuna multiplicada com a revenda clandestina de centenas de quilos de cocaína.
A linha de frente, a Amarok e a divisão do dinheiro
A engrenagem descrita por Tiago não funcionaria sem a equipe de campo, aqueles que apareciam nas fotos de operação, assinavam boletins de ocorrência e, ao mesmo tempo, garantiam que o “vira” fosse executado com precisão. Ele menciona Jorge Vinicio, Alberto Solano, Rafaela Bertoletti e Julinho como parte do grupo que circulava em uma Amarok, responsável por acompanhar o Volvo FH desde a aproximação da divisa até o momento em que o caminhão foi cercado.
Segundo o depoimento de Tiago, Jorge Vinicio e Julio Cesar, também gansos, viajavam armados, com munição e “bolacha”(distintivo da Polícia Civil) no carro, prontos para reagir em caso de confronto ou fuga, configurando uma força que, oficialmente, operava como unidade de inteligência contra o tráfico, mas, na visão da Corregedoria, podia estar atuando como escolta de uma carga destinada a ser roubada do PCC.
Tiago também falou de um operador identificado como Carlos de Menezes Mendes, o Cabeça, ligado a um núcleo de apoio logístico, e reforça que, em outras situações, era Júlio Cesar quem dirigia veículos de apoio em viagens até Mato Grosso do Sul para acompanhar caminhões na volta a São Paulo.
Um dos pontos mais sensíveis do relato está na referência a um áudio de 4 de julho, em que Jorge Vinicio, segundo Tiago, comenta sobre a forma de repartição do dinheiro de uma remessa, mencionando que unidades especializadas e a delegacia da área receberiam partes do bolo. O arquivo, se confirmado, serviria para demonstrar não apenas a existência de um esquema, mas a sua capilaridade, alcançando outros setores da polícia por meio de repasses de propina mascarados como “participação” em operações bem‑sucedidas.
Oficinas, blindagem e a infraestrutura da lavagem
Além de narrar a operação de Rubineia, Tiago Lobo desenhou no depoimento o mapa físico do que seria a retaguarda do grupo, uma rede de oficinas mecânicas e pontos de encontro espalhados por São Paulo. Ele citou uma oficina de blindagem na zona norte, conhecida entre os envolvidos como “Alê da Blindagem”, local onde, segundo o informante, circulavam carros de policiais, intermediários e empresários ligados ao esquema.
O endereço, de acordo com Tiago Lobo, era comandado por um homem chamado Fábio, apelidado de “3F Menezes”, que também teria ligação com outra oficina, “da Porto”, ponto usado para receber veículos, fazer adaptações e, quando necessário, servir de ambiente neutro para conversas sobre divisão de lucros e planejamento de novos “vira”.
Tiago forneceu inclusive um número de telefone associado a um funcionário identificado como Alê, descrevendo‑o como contato chave na logística de carros que serviam tanto para monitorar cargas como para transportar dinheiro e drogas já desviadas.
Essa infraestrutura, descrita em detalhes, reforçou a tese de que não se tratava de um caso isolado, mas de um padrão de atuação sustentado por imóveis, empresas e profissionais que, oficialmente, operavam no ramo automotivo, enquanto, nos bastidores, davam suporte a ações ilícitas de agentes públicos. Para a Corregedoria, o cruzamento desses endereços com dados bancários e fiscais tende a ser uma chave para seguir o rastro do dinheiro produzido no “vira” de Rubineia e em outros episódios ainda não rastreados.
Fuminho, Marcola e o risco de roubar a carga do PCC
Questionado sobre a quem pertencia, de fato, a carga desviada, Tiago Lobo atribui os 450 quilos de cocaína a Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, tratado nos documentos como principal parceiro de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, chefão do PCC.
A afirmação mudou a escala do crime narrado: não se falava mais apenas de policiais que se aproveitam de apreensões aleatórias, e sim de agentes do Estado que teriam roubado uma remessa da maior facção criminosa do país, interferindo diretamente no caixa de uma organização que não costuma deixar prejuízos sem resposta.
Tiago lembrou que, na lógica do PCC, desviar uma carga desse porte equivale a declarar guerra, já que cada quilo de cocaína representa lucro relevante em negociações internas e externas, do atacado na fronteira aos acordos com grupos estrangeiros. Ao afirmar que a droga era de Fuminho, ele sugere que havia, de um lado, alguém dentro da facção repassando informações de rota para a polícia civis corruptos, e, de outro, policiais civis dispostos a correr o risco de um acerto de contas sangrento em nome de uma fortuna imediata.
O próprio Tiago disse ter passado a receber ameaças de morte depois de se envolver no esquema e começar a falar em colaboração com a Corregedoria, ameaças que, segundo o material analisado, vinham tanto de policiais citados no depoimento quanto de interlocutores associados ao crime organizado, incomodados com a possibilidade de um ganso se converter em delator oficial.
Nesse cenário, ele aparecia como alvo em potencial de dois lados: para o PCC, alguém que participou de um roubo de carga; para a célula policial, um homem que sabia demais e estava disposto a colocar essa informação no papel, de maneira oficial.
A promessa de colaboração premiada e a morte anunciada
Ao final da videoconferência, Tiago Lobo se declarou disposto a firmar um acordo de colaboração premiada, colocou‑se à disposição para comparecer em São Paulo sempre que fosse chamado e reforça que poderia apresentar provas adicionais, entre elas o áudio atribuído a Jorge Vinicio e dados completos sobre a oficina de blindagem citada como base do grupo.
No documento oficial sobre o depoimento, a delegada da Corregedoria explicou a Tiago Lobo que o seu depoimento, por si só, não garantia benefícios legais, dependendo de avaliação do Ministério Público e do Judiciário, mas mesmo assim a Corregedoria passou a considerá‑lo uma peça central para comprovar o desvio de droga em Rubineia.
Os documentos indicam que Tiago negociava essa possível colaboração como forma de sobreviver ao fogo cruzado que se armava em torno de seu nome, buscando proteção institucional num sistema que, na prática, ainda engatinha quando o assunto são testemunhas que denunciam ao mesmo tempo policiais e facções.
Meses depois do depoimento online, ele foi executado em Campo Grande, atingido por dez tiros enquanto dirigia um veículo em cujo porta‑malas a polícia encontrou 15 tabletes de pasta base de cocaína, cena que, ao mesmo tempo, elimina uma testemunha incômoda e sustenta, no papel, a imagem de um “traficante morto com droga no carro”.
A morte de Tiago, ocorrida antes que qualquer eventual acordo de delação fosse formalizado e sob a sombra de ameaças relatadas à Corregedoria, funciona, na leitura da investigação, como evidência adicional do grau de risco enfrentado por quem decide atravessar a linha que separa a lealdade ao crime da tentativa de cooperação com o Estado. Em vez de ser removido do tabuleiro por uma operação oficial de proteção a testemunhas, o ganso que alimentou por anos a engrenagem de policiais e traficantes terminou silenciado por balas que, até hoje, não podem ser atribuídas a nenhuma das estruturas criminosas que ele denunciou.