Roberto Hipólito, conhecido como Zóio de Gato, discutindo com membros do PCC na frente de um bar, dias antes de ser sequestrado e executado
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Roberto Hipólito, conhecido como Zóio de Gato, discutindo com membros do PCC na frente de um bar, dias antes de ser sequestrado e executado

Era uma noite de sábado. Aparentemente, um momento de lazer familiar na Padaria City Bread, na movimentada Avenida Paulo Faccini, em Guarulhos, segunda maior cidade do Estado de São Paulo. Mas para Roberto Hipólito Rutkauskas, 29 anos, o Zóio de Gato, o ar já estava pesado. Ele sabia que estava marcado.


Às 22h30, o jantar terminou. Roberto, sua mulher e o filho solicitaram um carro de aplicativo para voltar para casa. O veículo, um GM Prisma branco, chegou. A família embarcou rumo à casa onde vivia. Apenas cinco minutos após o início da corrida, o instinto de sobrevivência de Roberto, aguçado por anos transitando entre a criminalidade e a delação, disparou. Pelo vidro traseiro, ele notou um padrão. Um Hyundai Tucson preto, vidros escuros como breu, acompanhava cada curva que o Prisma fazia.

A tensão tomou conta do veículo. Roberto, em um ato desesperado de contra-vigilância, citou a placa da Tucson para a mulher:  EXZ-1D34. Ele pediu ao motorista do aplicativo que parasse em um posto de combustíveis. Era um teste. A Tucson parou logo à frente. Ninguém desceu. Nenhum vidro se abriu. Era a confirmação silenciosa: a caçada havia começado.

Sem opção e talvez na esperança de despistar os perseguidores na velocidade da rodovia, Roberto pediu para seguir viagem. Quando o Prisma acessou a Rodovia Presidente Dutra, na altura do km 220, próximo à loja Telha Norte, a armadilha se fechou. Era o bote. 

A Tucson preta avançou. Primeiro, uma leve colisão na traseira do Prisma, uma técnica clássica de abordagem para forçar a parada. O motorista pensou ser um acidente ou uma tentativa de assalto comum. Mas o grito de Roberto vindo do banco de trás revelou a motivação daquela batida:

"Eu tenho problema! Eu tenho problema!"

Não era assalto. Era mais uma ação da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital). A Tucson ultrapassou, fez manobras de ziguezague e bloqueou a pista diagonalmente, obrigando o Prisma a parar bruscamente. Três homens desembarcaram do SUV. Um quarto permaneceu ao volante, motor ligado, pronto para a fuga.

O caos explodiu dentro do Prisma. As portas se abriram. A mulher de Roberto, num reflexo materno primitivo, agarrou o filho, então com dois anos, e correu para a escuridão do acostamento, buscando salvar a criança. Roberto tentou a mesma rota de fuga. Saiu do carro, tentou correr, mas a superioridade numérica e tática do PCC prevaleceu. Ele foi alcançado, dominado e jogado à força para dentro da Tucson preta.

Destino: Funerária

Em segundos, o veículo arrancou, desaparecendo na noite da Grande São Paulo. Ali, no asfalto da Dutra, terminava a liberdade de Roberto e começava seu julgamento sumário no Tribunal do Crime. Ele não seria levado para nenhum órgão público de segurança, claro, mas para a Favela da Funerária, no Parque Novo Mundo, zona norte de São Paulo, distante cerca de  10 km do ponto da abordagem da Tucson contra o Prisma. Na Funerária, Roberto seria julgado pelo PCC.

O motivo do "tabuleiro" do crime, onde peças são movidas, julgadas e eliminadas, começou a ser montado  13 dias antes do sequestro, em 3 de setembro de 2023, quando Roberto desafiou dois integrantes da facção criminosa ao discutir com eles, na porta do Armazém Maya Gastro Bar, na rua Caetano D'Andrea, uma balada também em Guarulhos, e se deixou ser filmado por eles. 

Era um domingo. Roberto havia chamado sua mulher e o filho do casal, então com dois anos, para encontrá-lo ali por volta das 17h30. A família ocupou uma mesa no 1º andar, onde o ambiente era festivo, comemorando-se um aniversário. A tranquilidade durou até a madrugada.

Por volta das 2h30, a mulher de Roberto se afastou brevemente da mesa para acompanhar a criança na área do playground. Foi nesse intervalo que a rotina da família foi quebrada. Ela viu dois homens descerem as escadas vindos do 2º andar. A abordagem contra Roberto não foi discreta; foi, nas palavras da mulher, "ríspida e ameaçadora".

Os desconhecidos não queriam dinheiro. Queriam uma confirmação. Questionaram ali mesmo, no meio do salão do Gastro Bar, se ele era o homem cujo o apelido corria à boca pequena nas delegacias da Polícia Civil e batalhões da Polícia Militar e biqueiras do tráfico de drogas da Grande São Paulo:  "Você é o Zóio de Gato?".

Ciente do peso daquele apelido, Roberto negou. Tentou desvincular sua imagem da fama de informante policial ("Ganso"). Mas os homens insistiram. Eles pareciam ter a certeza de quem já havia investigado o alvo. Numa tentativa desesperada de blindar a família do que estava por vir, Roberto pediu que mulher ficasse na mesa. "Fica aqui", disse, antes de descer as escadas rumo à entrada do Gastro Bar, no térreo, acompanhando seus inquisidores.

Lá fora, a discussão mudou de patamar. Da sacada ou janela de onde estava, a mulher de Roberto conseguiu observar a cena na calçada. Um dos algozes do marido era um homem de branco, trajando boné, camisa e calça pretas; e outro, negro. Era este segundo que segurava o celular, não para fazer uma ligação, mas empunhando-o como uma arma. Ele filmava o rosto de Roberto, registrando cada negativa, cada expressão de medo, cada tatuagem visível.

"Seu Inseto"

Aquele vídeo captado na porta da balada tem apenas 40 segundos. Desse tempo, a parte mais importante está nos cinco últimos segundos. Quando Roberto diz: "Aqui é contra o Primeiro! Aqui é contra o Primeiro!". O "Primeiro" é uma referência ao Primeiro Comando da Capital, o PCC. O homem que filmava Roberto  sentencia: "Você vai morrer, Jão! Você vai ver o que vou fazer com o seu sangue, seu inseto! Vou tomar o seu sangue!". 

Horas depois, o vídeo viralizaria como um troféu macabro nos grupos de WhatsApp de integrantes do PCC. Não era o registro de uma briga. Era a produção de prova para a "Sintonia", a liderança da facção criminosa. Roberto havia sido notificado sobre seu crime nas regras do submundo criminal: falar demais.

A discussão terminou sem agressão física imediata, mas a tática do medo já havia funcionado. Os homens foram embora, levando o arquivo digital que selaria o destino de Roberto. Ao voltar para a mesa, Zóio de Gato já não era mais o mesmo. Transtornado, falou ao telefone com alguém desconhecido, relatando o confronto com os membros do PCC. Virou-se para a mulher e foi taxativo: não podiam voltar para casa.

Naquela noite, Roberto dormiu em um hotel. Nos dias seguintes, a paranoia se instalou. A mulher revelou que o marido passou a viver aterrorizado, "temeroso por sua vida", alternando dormidas entre a residência e hotéis, assustando-se com qualquer veículo desconhecido que rondasse a rua da casa onde viviam. Ele sabia: o upload de sua morte havia sido concluído e ele estava "decretado", marcado para morrer. A caçada na Dutra, treze dias depois, seria apenas o cumprimento da formalidade.

Roberto Hipólito, o
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Roberto Hipólito, o "Zóio de Gato"(de boné azul), é filmado discutindo com integrantes do PCC na porta de uma balada. A gravação, onde recebe a ameaça "vou tomar seu sangue, seu inseto", selou sua sentença de morte no Tribunal do Crime.






"Irmão J"

A viagem de Roberto não terminou em um hotel ou esconderijo, como nos dias de pânico anteriores. O trajeto final, da Rodovia Presidente Dutra até a   Favela da Funerária, na zona norte de São Paulo, foi curto, mas sem retorno. Ao cruzar a fronteira invisível daquela área, Zóio de Gato deixou de ser um cidadão sob a tutela do Estado para se tornar um réu indefeso sob a jurisdição paralela e implacável do PCC.

Dentro da Funerária, o PCC assumiu o controle absoluto sobre a vida de Roberto. O julgamento dele seguiu um rito burocrático. A sentença, traçada desde a afronta no bar, precisava apenas ser cumprida. Antes disso, a logística da morte exigiu uma troca de veículos. O Hyundai Tucson do sequestro ficou para trás. Entrou em cena um  Fiat Fiorino branco.

Assim foram os últimos passos de Roberto: o Fiorino parou na entrada de uma viela estreita, acesso pela rua Manguari. Do baú de carga, não desceram mercadorias. Desceu Jefferson Rodrigues Alexandre, 29 anos, conhecido no submundo do crime como  "Irmão J".

O
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O "Disciplina": Jefferson Rodrigues Alexandre, conhecido como "Irmão J". Ele é acusado de conduzir Roberto "Zóio de Gato" para a execução em um Fiat Fiorino


Jefferson não é um soldado raso do PCC. Ele exercia a função de "Disciplina" na região, o gestor local das leis paralelas impostas pela facção. Foi ele quem conduziu Roberto, já rendido, cabisbaixo e com as mãos para trás, em direção ao paredão improvisado nas vielas da favela.

No local escolhido dentro da Funerária, o cenário estava montado para a produção de um novo vídeo-propaganda do PCC, desta vez definitivo. Outro personagem entrou em cena:  Alisson Alexandre Borges, 32 anos, o "TK". Nas imagens que circulariam nos grupos da facção e que, futuramente, seriam sua própria incriminação irrefutável, Alisson não dispara a arma. Sua função foi conter a vítima, segurando Roberto no chão, imobilizando-o para que os atiradores cumprissem o veredito.

Alisson Alexandre Borges, o
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Alisson Alexandre Borges, o "TK", em registro oficial. Ele foi identificado pela própria mãe como o homem que segura Roberto "Zóio de Gato" no vídeo da execução, sendo apontado pela polícia como peça-chave do Tribunal do Crime


Roberto foi executado com vários disparos. O PCC lavava a honra ferida com sangue. E a sua morte virou uma peça de propaganda da facção. 

Para a polícia, o caso começou como um registro burocrático de desaparecimento. Mas a divulgação do vídeo da execução transformou o inquérito em uma caçada prioritária. A inteligência do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa), da Polícia Civil de SP, inverteu a lógica dos criminosos: a peça de propaganda do terror tornou-se a principal prova material contra eles.

O rastreamento da  Tucson levou os investigadores à zona norte de São Paulo, mas foi a análise frame a frame do vídeo que permitiu identificar os rostos por trás dos apelidos. Quando a polícia chegou ao endereço de Alisson, o TK, ele já havia evaporado. Fugira para Jacobina, no interior da Bahia, ciente de que sua imagem estava rodando o país. Quem atendeu a porta foi sua mãe.

Os inevstigadores exibiram o vídeo da execução de Roberto à mãe de Alisson. A reação dela rompeu qualquer tentativa de álibi. Confrontada com a brutalidade da cena, a mulher desabou. Ela reconheceu, "sem sombra de dúvidas", o próprio filho nas imagens. "É o Alisson segurando a vítima", confirmou, selando o destino do filho com a verdade dolorosa de uma mãe que não compactua com a barbárie.

O fim de um informante: Roberto Hipólito, o
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O fim de um informante: Roberto Hipólito, o "Zóio de Gato", aparece rendido e machucado na Favela da Funerária. Na imagem, Alisson Alexandre Borges, o "TK", segura seu braço momentos antes da execução decretada pelo Tribunal do Crime


A admissão materna foi fundamental para que uma operação policial interestadual fosse montada:  Alisson foi capturado na Bahia, a 1.700 km do local do crime. Jefferson, o Disciplina que conduziu Roberto à morte, teve a prisão preventiva decretada e tornou-se foragido.

Profissão de risco: O "Ganso" e o "Outro PCC"

Para entender a ferocidade do PCC na caçada a Roberto, é preciso olhar para além do vídeo do bar. A "afronta" gravada foi apenas o estopim. A verdadeira sentença de morte foi escrita ao longo de anos, nas sombras de uma atividade perigosa: a de  informante policial.

A vida real de Roberto aparece nua e crua. Ele era um "Ganso" profissional: vendia informações sobre criminosos e recebia pagamentos via PIX, deixando um rastro digital de sua atividade dupla. O  "outro PCC", como são conhecidos policiais civis corruptos que recorrem a quem tem acesso ao submundo do crime para conseguir vantagens das mais variadas ordens, sejam financeiras ou com informações privilegiadas, era o maior cliente de Zoio de Gato

Um parente de Roberto desenhou o esquema como ele ganhava a vida com crueza: Roberto denunciava criminosos da Zona Norte não apenas para operações legítimas, mas para alimentar "o outro PCC"(policiais civis corruptos) que usavam as dicas para extorquir traficantes e roubar cargas de drogas. Para a facção, Roberto era um traidor duplo: lucrava com o crime para alimentar a corrupção que sangrava o crime.

De Gato a Inseto, passando por Ganso e Frango 

No vocabulário do crime organizado, a desumanização antecede a morte. Roberto carregava o apelido de Zóio de Gato por ter olhos claros. Era sua identidade nas ruas. Como informante, tornou-se um "Ganso", aquele que fala demais e entrega os segredos alheios. Mas na noite de 16 de setembro, ao ser jogado no cativeiro, foi reduzido a "Frango".

Frango é a gíria pejorativa para o refém indefeso, amarrado, aguardando o abate. A trajetória de Roberto foi uma descida brutal nessa escala zoológica do submundo, que encontrou seu nível mais baixo na voz de seu algoz. No vídeo gravado na porta do bar, o criminoso que o ameaça não o chama de homem, nem de rival. Ele decreta: "Vou tomar o seu sangue, seu inseto!".

No código do crime, "Inseto" é a categoria final de desprezo. É o ser que perdeu o direito à existência; aquele que pode, e deve, ser esmagado, pisado e aniquilado sem remorso. Roberto nasceu com olhos de Gato, viveu perigosamente como Ganso, foi capturado como Frango e morreu executado como Inseto.

O últiFrame do vídeo que registrou a execução de Roberto Hipólito, o
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O últiFrame do vídeo que registrou a execução de Roberto Hipólito, o "Zóio de Gato". Caído e desarmado na Favela da Funerária, ele é alvo de vários disparos, cumprindo a sentença de morte do PCC


A morte de Roberto foi um reflexo fiel e brutal de sua própria biografia criminal. Quatro anos antes, em janeiro de 2019, ele havia ocupado posição  oposta nesse mesmo teatro de horrores. Zóio de Gato foi indiciado pela polícia como peça-chave no sequestro e homicídio de  Kleberson dos Santos Santana.

Naquela ocasião, a motivação também foi vingança. Kleberson havia se envolvido em uma briga familiar para defender a irmã de agressões do cunhado. Jurado de morte, acabou emboscado. O veículo usado para o arrebatamento da vítima não foi uma Tucson preta, mas um  Hyundai HB20 cinza. E quem estava ao volante, motor ligado, pronto para a fuga? Roberto.

A investigação apontou que ele dirigiu o carro que levou Kleberson para a morte, com o mesmo  modus operandi frio que o PCC usaria contra ele anos depois: abordagem surpresa, superioridade numérica e condução da vítima para um local de execução isolado: Estrada de Santa Inês, também na zona norte de São Paulo.

Roberto foi preso preventivamente por esse crime e foi solto em maio de 2023, poucos meses antes de encontrar a vingança do PCC. O destino desenhou uma revanche cruel: o homem que um dia pisou no acelerador para levar um rival ao tribunal da morte, acabou, quatro anos depois, tremendo no banco de trás de outro carro, percorrendo o mesmo caminho sem volta de carrasco a condenado.

As versões dois suspeitos

A brutalidade do vídeo da execução de Roberto contrasta com a batalha técnica travada nos tribunais. As defesas de Jefferson, o Irmão J, e Alisson, o TK, adotaram estratégias distintas para tentar desmontar a tese do Ministério Público, que pediu que ambos enfrentem o Júri Popular por homicídio triplamente qualificado, sequestro, ocultação de cadáver e organização criminosa.

"Fofoca não é prova"

Jefferson sustenta que a acusação se baseia em "falatórios e comentários de terceiros", sem provas materiais robustas. A defesa dele também ataca a validade do reconhecimento fotográfico feito por dua testemunhas do caso. Argumenta que o procedimento não seguiu o rigor do artigo 226 do Código de Processo Penal, que exige colocar suspeitos semelhantes lado a lado, e pede a anulação dessa prova, citando jurisprudência do STF.

A defesa explora também o fato de Jefferson não aparecer nas imagens da execução. "A certeza que temos é a ausência do acusado neste cenário", escreveu a defesa. O argumento é que imputar a autoria a ele apenas por sua suposta posição hierárquica no PCC (Disciplina) seria criar uma "responsabilidade penal objetiva" baseada em fama, não em fatos.

Além disso, a defesa usa o depoimento da mulher de Roberto a seu favor, alegando que as características físicas descritas por ela sobre os sequestradores da Dutra (homens de "um metro e oitenta") não coincidem com as de Jefferson.

Infográfico detalha a cronologia da morte de Roberto Hipólito, o
Infográfico IA
Infográfico detalha a cronologia da morte de Roberto Hipólito, o "Zóio de Gato"


TK: Confissão e estratégia

A situação de Alisson é juridicamente mais delicada. Preso na Bahia, ele foi citado pessoalmente. Sua defesa, a cargo da Defensoria Pública, lida com uma prova difícil de contornar: sua própria confissão inicial.

Logo após ser capturado, Alisson admitiu integrar o PCC desde 2019 e ter recebido a ordem ("Resumo") para participar da "missão". Confirmou ser o homem que aparece no vídeo segurando a vítima, embora tenha alegado que apenas cumpria ordens e não efetuou os disparos . Em juízo, porém, orientado juridicamente, exerceu seu direito ao silêncio.

A estratégia da Defensoria focou na redução de danos: pedia a impronúncia pelo crime de ocultação de cadáver, alegando falta de provas de sua participação no sumiço do corpo, e tentava afastar as qualificadoras do homicídio (motivo torpe, meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima), argumentando que o sofrimento da vítima já estaria punido pelo crime de sequestro.

Apesar dos esforços das duas defesas, o Ministério Público mantém que o conjunto probatório contra J e TK é sólido. A Promotoria destaca que a confissão extrajudicial de TK é blindada pelo reconhecimento feito pela própria mãe e pelos vídeos. Quanto a Jefferson, a acusação sustenta que  testemunhas o viram descer do Fiorino conduzindo Roberto para o paredão, colocando-o no centro da execução, aparecendo ele na câmera ou não.

Em decisão de 1º de agosto de 2025, o Tribunal de Justiça de São Paulo pôs fim à primeira fase do processo penal e decretou: os acusados pela morte de Zóio de Gato enfrentarão o julgamento popular.

A sentença de pronúncia, que é quando a Justiça recebe a denúncia da Promotoria pelo crime de homicídio e decide que os réus serão julgados pelo Tribunal do Júri, desmonta ponto a ponto as estratégias das defesas e valida integralmente a denúncia do Ministério Público. Pela decisão, há "indícios suficientes de autoria" que obrigam o caso a ser decidido pelos sete jurados do Conselho de Sentença.

Pilares da decisão

O Tribunal de Justiça fundamentou sua decisão em três pilares probatórios que resistiram aos arguementos dos advogados de defesa:

1 - O depoimento de uma testemunha foi crucial para incriminar Jefferson. Ela relatou ter visto o Fiat Fiorino branco parar na viela e Jefferson, o Irmão J, descer do baú conduzindo a vítima rendida. Para a Justiça, o reconhecimento fotográfico feito na delegacia foi validado em juízo, derrubando a tese de nulidade.

2 - O vídeo como prova cabal. Contra Alisson, a prova é visual e irrefutável. A Justiça citou o vídeo da execução e o reconhecimento feito por familiares e policiais como elementos que ligam o réu à cena do crime, independentemente de seu silêncio no tribunal.

3 - A brutalidade ratificada. A Justiça manteve as três qualificadoras do homicídio (motivo torpe, meio cruel e recurso que dificultou a defesa): "A vítima foi alvejada por diversos disparos, revelador de uma brutalidade fora do comum e em contraste com o mais elementar sentimento de piedade." A ausência do corpo de Zóio de Gato, que nunca foi encontrado, não impediu a manutenção do crime de ocultação de cadáver.

Destino dos réus

Jefferson responderá por sequestro, homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver e organização criminosa. Alisson responde pelos mesmos crimes, exceto o sequestro.  O Ministério Público entendeu que ele entrou na ação apenas na fase da execução.

Ambos permanecem presos preventivamente. A Justiça negou o direito de recorrerem em liberdade, citando a garantia da ordem pública e a gravidade concreta do crime, executado "no contexto do Tribunal do Crime". O próximo ato desse drama real será no plenário do Júri, onde a sociedade decidirá se a "sentença" do PCC será punida pela lei do Estado.

Desafio no Facebook, o escritório digital

A sentença assinada no feed: Print da última postagem de Roberto Hipólito no Facebook, feita na véspera de sua morte. Na legenda, ele desafia o PCC e publica o vídeo da discussão no bar que selou seu destino no Tribunal do Crime
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A sentença assinada no feed: Print da última postagem de Roberto Hipólito no Facebook, feita na véspera de sua morte. Na legenda, ele desafia o PCC e publica o vídeo da discussão no bar que selou seu destino no Tribunal do Crime











Se nas ruas Roberto Hipólito era conhecido como Zóio de Gato, no Facebook ele operava sem apelido, com perfil aberto e uma ousadia que beirava a imprudência. Para ele, a rede social era não era um espaço de lazer, mas uma ferramenta de trabalho, e até pouco antes de seu assassinato, um campo de batalha.

Zóio de Gato transformou seu perfil público em um balcão de negócios perigosos. Ali, ele pedia informações sobre criminosos e condutas ilícitas, inclusive oferecendo recompensas, agindo como um hub digital de denúncias. O Ganso modernizou a delação: saíram os encontros furtivos, entraram os posts e o dinheiro via PIX.

O balcão de negócios do
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O balcão de negócios do "Ganso": Em postagens abertas no Facebook, Roberto Hipólito pedia informações sobre "casas-bomba", esconderijos de armas, drogas e dinheiro, e também de biqueiras, oferecendo pagamentos via PIX. "Manda que tô disponível", escreveu ele, sem saber que o PCC monitorava cada passo


Mas a vitrine digital também atraía pedradas. Muitas de sua postagens tinham comentários onde o chamavam de "X9" e "cagueta", juras de morte digitais que ele parecia ignorar. 

Na véspera de seu sequestro, Zóio de Gato usou seu escritório virtual para assinar, publicamente, sua sentença. Ele postou o vídeo da discussão no Armazém Maya, o mesmo que o PCC usaria para decretá-lo, com uma legenda que misturava desabafo e desafio:

"Tá achando que vou abaixar a cabeça, o cara…? Faz 8 anos que minha foto roda aí, amigão... só que aí, esse barato não vai ficar assim não, pode ter certeza."

Foi seu último post. Ao expor a briga e desafiar a facção em praça pública digital, Zóio de Gato acelerou o relógio de sua execução. O Facebook, que serviu para ele caçar criminosos e vender informações, acabou sendo o local onde o PCC, num ato final de escárnio, desovou o vídeo de sua morte nos comentários de sua própria página.

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