Inquérito conclui que anestesista sedou sete vezes paciente estuprada

Giovanni Bezerra foi preso em flagrante por estuprar uma parturiente no dia 10 de julho

Médico anestesista Giovanni Bezerra, preso acusado de abusar de uma paciente
Foto: Reprodução / TV Globo - 14.03.2022
Médico anestesista Giovanni Bezerra, preso acusado de abusar de uma paciente

A Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de São João de Meriti concluiu o inquérito sobre o abuso sexual filmado em uma sala de cirurgia do Hospital da Mulher Heloneida Studart , situado na mesma cidade da Baixada Fluminense. 

O anestesista Giovanni Quintella Bezerra, de 31 anos, foi preso em flagrante — e agora está indiciado — pelo crime de estupro de vulnerável de uma parturiente atendida na unidade no dia 10 de julho. A investigação foi remetida à Justiça nesta terça-feira, enquanto apurações sobre outros cinco casos envolvendo o médico permanecem em andamento na especializada.

Constam nos autos 19 termos de declaração, relativos a depoimentos da vítima e do marido dela, do corpo técnico e médico do hospital e de policiais, além do próprio autor. Foram anexados ainda laudos dos medicamentos usados para sedar a paciente nos momentos anteriores ao abuso. 

As ampolas de cetamina e propofol, porém, estavam quebradas pela própria utilização, o que pode ocasionar contaminação entre os frascos. Segundo a investigação, Giovanni fez sete aplicações de provável sedação durante toda a ação criminosa.

Também foram feitas análises no material guardado pela equipe de enfermagem depois do estupro. De acordo com os depoimentos, Giovanni limpou o rosto da paciente e o próprio pênis com uma gaze, que foi jogada no lixo e, depois, recolhida pelos funcionários.

O laudo acerca do item, contudo, não encontrou vestígios de sêmen, o que, para os investigadores, explica-se pela falta da chamada "cadeia de custódia", já que o material passou por diversos recipientes até ser entregue à polícia, não sendo possível garantir a integridade da coleta.

No dia da prisão, o médico participou de três cirurgias. Já na primeira, as enfermeiras estranharam o comportamento de Giovanni, que, com o capote, formava “uma cabana que impedia que qualquer outra pessoa pudesse visualizar a paciente do pescoço para cima”, conforme atestam depoimentos prestados na Deam. Segundo esses relatos, os anestesistas se posicionam, usualmente, do lado oposto, de forma que é possível ao restante da equipe ver o rosto da paciente.

Esses profissionais também têm o hábito de conversar com a paciente, fazer a aplicação da anestesia e então se sentar para acompanhar os sinais vitais da mulher através dos monitores eletrônicos. Giovanni, no entanto, se manteve de pé, bem próximo à cabeça da vítima.

Na segunda cesariana realizada naquele domingo, ainda de acordo com as declarações dadas à polícia, o médico usou o capote nele próprio, alargando a silhueta e, mais uma vez, se posicionando de forma que impedisse aos outros presentes enxergarem a gestante.

 “Giovanni, ainda posicionado na direção do pescoço e da cabeça da paciente, iniciou, com o braço esquerdo curvado, movimentos lentos para frente e para trás; que pelo movimento e pela curvatura do braço, pareceu que estava segurando a cabeça da paciente em direção à sua região pélvica”, diz um dos termos de declaração.

Cada vez mais desconfiada, a equipe de enfermagem viabilizou a mudança do parto seguinte para outra das três salas de cirurgia disponíveis no hospital, na qual seria possível filmar Giovanni sem que ele percebesse. 


No novo espaço, escolhido — em cima da hora — pelos profissionais, um celular foi escondido dentro de um armário de vidro escuro, com ângulo de visão direcionado ao ponto onde estaria o anestesista. O móvel, disponível apenas na sala 3, é usado para guardar equipamento de cirurgia por vídeo.

Na gravação, que foi usada como elemento para o flagrante, é possível ver que Giovanni está a cerca de um metro de ao menos dois colegas de equipe, separados apenas por um lençol. Também é possível ver uma terceira pessoa ao fundo. Em geral, procedimentos deste tipo são acompanhados por dois cirurgiões, um anestesista, um técnico de enfermagem e um pediatra.

As funcionárias que organizaram a "operação flagrante" não acompanharam a terceira cesariana de dentro da sala de cirurgia,e só puderam ver as imagens que confirmavam o crime ao pegar de volta o celular. Por isso, não foi possível interromper o abuso no momento em que ele ocorreu.

“É de se destacar o profissionalismo da enfermagem e o papel exemplar desses funcionários do Hospital da Mulher. Eles são dignos de serem servidores públicos. Foram eles que coletaram as provas”, elogiou a delegada Bárbara Lomba, titular da Deam de São João de Meriti e responsável pelo inquérito.

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