Policiais durante operação no Jacarezinho, no Rio; 29 pessoas morreram
Reprodução/redes sociais
Policiais durante operação no Jacarezinho, no Rio; 29 pessoas morreram

RIO — Dezoito dias após a operação da Polícia Civil no Jacarezinho, na Zona Norte, — que resultou na morte de 28 pessoas e foi considerada a mais letal da História do Rio — , a secretaria ainda não entregou à força-tarefa do Ministério Público do estado os laudos de necropsia, esquema de lesões, bem como o registro fotográfico de ferimentos dos mortos. Por conta disso, na última sexta-feira, o MP determinou que o prazo de 10 dias para que todo o material seja enviado aos promotores.

Além disso, o MP requisitou que o secretário Allan Turnovisk entregue “múltiplas informações e imagens aéreas da operação”. O MP quer saber se ocorreram delitos e abusos durante a ação policial.

O MP colheu 11 depoimentos de testemunhas, entre elas pessoas que presenciaram a ação e a remoção dos corpos. Todas afirmaram que houve execuções, o que é negado pela Polícia Civil. Os áudios dos depoimentos foram gravados.

Fotos e vídeos encaminhados por moradores do Jacarezinho também estão sendo analisados e compilados pela força-tarefa, assim como todos os boletins de atendimento médico das vítimas.

De acordo com documentos da Secretaria municipal de Saúde (SMS), assinados por médicos de três unidades para onde os baleados na favela foram levados, todos os homens já estavam mortos quando deram entrada nesses locais. Segundo os boletins de atendimento médico (BAMs), outros cinco homens socorridos e levados para o Hospital municipal Evandro Freire, na Ilha, estavam com as "faces dilaceradas". Em três documentos produzidos no Hospital municipal Souza Aguiar, aparece a descrição de corpos eviscerados.

Procurada, a Polícia Civil ainda não comentou a determinação do Ministério Público.

Encontro é marcado por emoção e pedido de justiça

Na manhã desta segunda-feira, Adriana Santana de Araújo, de 43 anos, mãe de um dos mortos na operação, encontrou com a empregada doméstica desempregada Rosana Contas do Carmo, de 49 anos, e a mãe dela, a costureira Vera Lúcia Coutas, de 69. Elas foram vítimas de fake news após a operaçã. Um vídeo falso, que viralizou nas redes sociais, acusava Adriana de ligação com o tráfico.

Foram usadas imagens de uma gravação existente no YouTube com Rosana e Vera com armas que elas alegar ser de airsoft. A gravação data de janeiro e foi uma encenação. O falso vídeo foi divulgado inicialmente pelo deputado estadual Filippe Medeiros Poubel (PSL). Em razão da semelhança física, Adriana foi identificada erroneamente. Elas processam o parlamentar, que apagou a postagem.

A microempresária é mãe de Marlon Santana, de 23 anos, considerado suspeito de integrar o tráfico da favela. Ele tinha uma anotação por posse de drogas para uso pessoal, de 2016, cujo processo foi arquivado.

Durante cerca de 20 minutos, as três conversaram e se emocionaram. Elas criticaram a divulgação do falso vídeo.

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— Gostei muito de ter encontrado Adriana. As coisas já foram esclarecidas. Ela é ser humano igual a mim e não merecia o que aconteceu – disse dona Rosana.

Adriana lembrou que o vídeo já foi desmentido:

— Ficou esclarecido que não somos nada que estão falando por aí. Somos vítimas. Eu perdi o meu filho e ainda fizeram aquilo comigo e com ela.

A microempresária conta que se sente ofendida quando escuta dizer que o que aconteceu no Jacarezinho foi operação.

— Me ofende quando dizem que aquilo foi operação. Aquilo não foi. Operação foi o que aconteceu em Belford Roxo que prenderam todo mundo e não teve morte — disse.

Na próxima semana, a defesa de dona Rosana e Vera deverá entregar as armas que elas afirmam serem de brinquedo na delegacia.

— Estou abalada ainda. Eu sei que aquilo foi brincadeira e que (as armas) não eram de verdade. Tudo o que aconteceu foi uma coisa assustadora. Eu fiquei paralisada quando vi a minha imagem daquela forma na televisão, e as pessoas falando coisas horríveis. Eu estou dando graças a Deus pelas coisas estarem se encaminhando para tudo se resolver. Eu só quero que a minha vida volte a antes — diz a doméstica desempregada.

Ingadas sobre o que levarão do encontro, Adriana e Rosana diz que “querem uma amizade”.

— Tudo isso foi para nos dar força. Quero fazer do meu luto, luta. Agora, as pessoas podem ver que não somos parecidas e que tudo que aconteceu foi uma grande mentira — disse Adriana.

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