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João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, homem negro assassinado por segurança e PM em unidade do Carrefour em Porto Alegre

assassinato de João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos,homem negro espancado até a morte em um supermercado da rede Carrefour, em Porto Alegre, segue sem respostas enquanto a indignação e os apelos por justiça ecoam em manifestações e movimentos sociais. O crime, que aconteceu na noite da última quinta-feira, ainda não foi esclarecido. Novas gravações, divulgadas no último domingo, trouxeram novos elementos para o caso, apontado como um reflexo do racismo estrutural no Brasil.

A defesa de um dos acusados, o vigilante do Carrefour Giovane Gaspar da Silva, afirma que tudo não passou de um "acidente". Os vídeos e os relatos da esposa de João Alberto, no entanto, indicam que ele foi violentamente espancado ao invés de contido após uma suposta discussão com os seguranças.

A vítima foi escoltada para o lado de fora do supermercado, situado no bairro do IAPI, na capital gaúcha, por motivos ainda desconhecidos. Em depoimento, a fiscal Adriane Alves Dutra afirmou que João Alberto teria ameaçado uma funcionária enquanto passava as compras pelo caixa, o que é negado por sua esposa, que também estava no supermercado.

  • O que ainda não se sabe

Relação prévia entre João Alberto e seguranças

No último domingo, novas gravações do momento em que João Alberto foi morto sugerem que ele conhecia os seguranças do Carrefour. Numa das imagens, a vitíma, conhecida como Nego Beto, aparece imobilizado e respirando com dificuldades, ofegante e gemendo no chão, quando um terceiro funcionário do supermercado se abaixa e diz: “A gente te avisou da outra vez”. Em outro momento, o mesmo homem afirma: “Aí, rapaz, sem cena, tá?”.

O depoimento de Adriana Alves Dutra, agente de fiscalização do Carrefour, também segue a tese de que a vítima conhecia seus assassinos. A fiscal afirmou à polícia que ouviu de uma funcionária da loja que já havia presenciado “atrito com fiscais” e João Alberto. O autor das novas imagens não foi identificado.

Motivação do crime

O assassinato brutal de João Alberto tem sidoapontado pelo movimento negro, lideranças do Congresso, ministrosdo STFepela Organização das Nações Unidas (ONU)como uma consequência do racismo estrutural no Brasil. O comunicado oficial do O presidente do Grupo Carrefour, Alexandre Bompard, também faz menção ao racismo.

A delegada responsável pelo caso, Nadine Farias Alfor, não descarta que o crime tenha sido cometido por racismo, mas afirma que ainda é preciso ouvir todos os envolvidos para que a polícia chegue a uma conclusão.

"Racismo existe, discriminação existe, preconceito existe. Existe o racismo estrutural e o racismo no momento da ação. Temos imagens, mas não temos sons para ouvir o que foi conversado. Não descartamos nenhuma hipótese", diz Nadine, pontuando que o inquérito tem 10 dias para ser concluído.

Motivo do soco desferido pela vítima

Imagens mostram que João Alberto foi escoltado até a saída do Carrefour e que a briga começou após ele ter empurrado ou dado um soco num segurança. Os motivos ainda são desconhecidos. Outras gravações mostram que os seguranças usaram joelhos nas costas da vítima para imobilizá-la.

Não está claro a razão pela qual João Alberto foi expulso da loja, nem supostamente ter começado a briga. No entanto, uma testemunha disse ao “Fantástico”, da TV Globo, que os seguranças “espancaram” Beto no lugar de tentar contê-lo.

Segundo a esposa de João Alberto, a cuidadora de idosos Milena Borges Alves, de 40 anos, a vítima chegou a pedir ajuda antes de morrer, mas continuou sendo imobilizado pelos seguranças.

Em entrevista à Rádio Gaúcha, Milena afirmou que o marido não fez nenhum gesto agressivo para a funcionária do mercado. Milena relatou que estava pagando as compras e, quando chegou ao estacionamento, João Alberto já estava imobilizado e pedindo socorro.

Suposta perseguição a moradores do IAPI

Moradores do bairro IAPI, onde está situado o supermercado, relatam um histórico de perseguição pelo corpo de segurança do estabelecimento.

"Esse é o procedimento padrão deles. Já presenciei situações de violência nesse supermercado. Depois que ocorre, eles trocam a guarda. Mas o procedimento é sempre o mesmo. Sofremos perseguição", afirmou o líder comunitário Paulo Paquetá no último domingo.

  • O que já se sabe

Agressores presos e versão da defesa

Duas pessoas foram presas pelo assassinato: os seguranças do Carrefour Magno Braz Borges e Giovane Gaspar da Silva, que também é policial militar temporário. Os dois seguranças presos não tinham antecedentes criminais. O advogado de Silva classificou como “um acidente” a morte de João Alberto.

Em entrevista à Rádio Gaúcha, David Leal afirmou que o segurança "foi inexperiente" na abordagem à vítima. “Ele (João Alberto) era mais forte do que os dois seguranças, o meu cliente é franzino, um guri.”

Segundo a chefe da Polícia Civil gaúcha, os dois seguranças foram presos em flagrante e vão responder por homicídio triplamente qualificado, com dolo eventual. A asfixia é uma das três qualificadoras. As outras duas são motivo fútil e uso de recursos que impossibilitaram a defesa da vítima.

Irregularidades em empresa de segurança

O Grupo Vector, empresa terceirizada responsável pela segurança da unidade do Carrefour em queJoão Alberto Freitas foi espancado até a mortena noite da última quinta-feira em Porto Alegre, tem entre seus sócios-administradoresao menos uma policial militar de São Paulo, o que é proibido pela legislação paulista. A companhia tem sede no estado e seus sócios são Adelcir Geusemin e Simone Tognini, cabo da Polícia Militar paulista, licenciada do cargo há um ano.

Segundo a Rádio Gaúcha, os registros da Polícia Federal indicam que um dos vigilantes envolvidos no crime, Magno Braz Borges, não tem registro de seu vínculo profissional com o Grupo Vector nos arquivos da corporação. A sua Carteira Nacional de Vigilante (CNV) teria sido suspensa, segundo o veículo. Já o outro agressor preso, Giovane Gaspar da Silva, não teria habilitação de vigilante.

Causa da morte

Embora a delegada Nadine Farias Alfor tenha afirmado que as investigações aguardam pelos laudos que detalharão a morte de João Alberto, sua certidão de óbito de João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, aponta que ele foi morto por asfixia. A informação foi divulgada pela própria delegada e chefe da Polícia do Rio Grande do Sul. Segundo a investigação, Beto ficou cinco minutos pressionado no chão.

Testemunhas acompanharam o crime

Um dos vídeos que vieram à tona no último final de semana mostra, ainda, que ao menos sete pessoas testemunham o crime. A Polícia Civil investiga se outros indivíduos, além dos seguranças, têm responsabilidade, por assistirem “passivamente” ao crime.

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