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Josué Damacena/IOC/Fiocruz
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SÃO PAULO — Cerca de 500 moradores de 720 residências sorteadas entre as regiões com mais casos e mortes por Covid-19 na capital paulista têm amostras de sangue coletadas para identificação de anticorpos contra a Covid-19 a partir desta segunda-feira. Com a amostra, especialistas poderão estimar o percentual de pessoas que já foram infectadas e podem estar imunes ao novo coronavírus nestas regiões e subsidiar decisões de autoridades sobre o isolamento social.

— Nós adoraríamos que este estudo indicasse que pelo menos 40% das pessoas já estão imunes ao vírus. Neste caso, quanto mais, melhor, porque possibilitaria redução das medidas de isolamento. Mas, baseado em estudos parecidos, estimamos que ficará abaixo de 10%, o que significa que a doença ainda está em aceleração — explica Dr. Celso Granato, infectologista líder do projeto e diretor Clínico do Grupo Fleury.

As casas selecionadas e convidadas a participarem do estudo são das regiões do Morumbi, Bela Vista e Jardim Paulista - distritos que possuem o maior número de casos confirmados na cidade - e Pari, Belém e Água Rasa, que apresentam os maiores índices de letalidade.

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O estudo é iniciativa de pesquisadores do grupo de medicina diagnóstica Fleury, do instituto de pesquisas e dados IBOPE Inteligência e da organização não-governamental Instituto Semeia.

Os domicílios escolhidos recebem entre esta segunda e quinta-feira um entrevistador e um enfermeiro que coletarão amostras de sangue e respostas a questionário da pesquisa. As residências sorteadas foram informadas do sorteio e convidadas a participar do estudo via carta.

Durante a visita da equipe, um dos moradores de cada residência, obrigatoriamente com mais de 18 anos, será sorteado para a coleta sanguínea. Trinta duplas de profissionais, equipados com vestimenta de proteção individual, visitarão até dez casas ao dias durante os próximos 4 dias.

Voluntários que aceitarem participar do estudo não serão remunerados, mas serão informados do resultado individual de seus testes. A expectativa é que a iniciativa tenha alta adesão dos moradores.

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Embora possa refletir a imunidade da população paulista nas regiões mais afetadas pelo vírus, no entanto, a amostra ainda não é reflexo direto da situação de contágio na cidade como um todo.

— Começamos com um projeto piloto, mas ainda não poderemos extrapolar os resultados para toda a cidade até testarmos regiões maiores. Com um mapeamento maior, conseguiremos relaxar o isolamento com mais segurança e menos riscos — avalia Granato.

O teste diagnóstico através de método sorológico, segundo o médico, pode ser ofertado em larga escala e reproduzido em escala nacional. Mas os especialistas alertam que nem sempre a presença de anticorpos indica imunidade à doença.

Coronavírus: ‘Ter anticorpos não é o mesmo que estar imune ao vírus’, diz especialista em coronavírus

— A presença de anticorpos diz que uma pessoa foi exposta ao vírus e produziu uma resposta a isso. Mas isso não significa que ficou imune, pois a resposta pode não ser forte ou duradoura o suficiente, e tampouco que ela deixou de ser portadora do vírus – afirma Eurico Arruda, professor de virologia da Faculdade de Medicina da USP em entrevista ao GLOBO na última quinta-feira.

Granato alerta também que os exames que medem se um anticorpo de fato consegue neutralizar o vírus exigem medidas de segurança que tornam sua aplicação em massa inviável.

Embora 90% dos testes já realizados por sua equipe em outros pacientes tenha indicado a presença de anticorpos capazes de combater o vírus, os pesquisadores ainda não sabem por quanto tempo essa neutralização é eficaz.

Ainda assim, os resultados do estudo podem ajudar a entender como a doença se espalha em regiões com escassez de testes diagnósticos e poucos dados sobre o contágio entre a população. Para Beatriz Tess, professora do Departamento de Medicina Preventiva da USP e também pesquisadora no projeto, os dados podem fornecer projeções melhores do que as atuais, baseadas em dados de internações e óbitos por síndrome respiratória aguda grave:

— Sem estudos epidemiológicos como esse, onde testamos uma amostra representativa da população, independente de sintomas da COVID-19, não é possível conhecer a dimensão e a progressão da pandemia e nem o grau do isolamento social necessário para controlar a disseminação. Este inquérito irá fornecer dados fundamentais para entendermos o tamanho do problema — explica.

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