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As alunas do quinto ano de medicina Daniela Harsanyi e Manoela Fidelis estão atuando na linha de frente do Covid-19 desde o meio de março

O dia 13 de abril marcou Daniela Harsanyi. Em um só dia de atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, a estudante de medicina de 25 anos perdeu três pacientes para a Covid-19. "Foi o dia mais difícil que eu consigo imaginar", conta.

Matriculada no quinto ano da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, está desde março na linha de frente do combate ao novo coronavírus (Sars-Cov-2) de São Paulo, o estado mais afetado pela doença no Brasil - onde, até na última sexta-feira (24), havia 1.345 das 3.670 mortes pelo vírus no país e 16.740 dos 52.995 casos nacionais.

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Nesse cenário, lidar com mortes de pacientes virou rotina para os estudantes, que ainda não estavam acostumados com essa realidade.

"É uma situação que é bem delicada. Talvez com alguns anos de carreira… Eu acho que é uma situação que a gente nunca deve se acostumar . Mas tem servido de experiência pra aprender a lidar com isso. Aprender a lidar com as nossas frustrações como profissional da saúde, com as nossas limitações", afirma Daniela.

No dia 13, a demanda de trabalho na UPA foi intensa e a estudante de medicina acabou ficando muito além do seu horário. Apesar do esforço, os pacientes não resistiram. Eles estavam em estado grave e precisavam ser transferidos com urgência, mas a evolução do quadro clínico foi mais rápida.

Daniela não escolheu estar na linha de frente do combate ao novo coronavírus. A UPA onde ela já realizava seu internato – que é um estágio, para alunos do quinto e sexto ano de medicina – antes da doença chegar ao Brasil, foi designada para receber casos suspeitos de contaminação da região e, dessa forma, ela se viu em meio à pandemia.

"Hoje em dia, eu penso que se o nosso internato também tivesse parado como de outras faculdades, eu provavelmente já teria arrumado algum trabalho voluntário pra fazer", conta. 

Depois do fim do expediente, Daniela chegou em casa, no dia 13, esgotada. A estudante relata que o sentimento de se sentir útil de verdade , de estar contribuindo com o resto da equipe, e tornando os momentos finais de seus pacientes menos dolorosos, não alivia a perda de pessoas pelas quais ela criou empatia.

Entre suas ativades, está mostrar para seus pacientes vídeos e cartas que familiares enviam para se despedir, já que não podem vê-los pelo risco de contaminação.

A importância desses momentos para os doentes e seus parentes faz com que seu "dia valha a pena", diz Daniela. Para quem está na linha de frente, os números diários de quantos casos e quantos mortos pela doença há no Brasil não são apenas números . "Não é só um número, são pessoas com nome", afirma Daniela.

Mesmo após o fim do expediente, sair do hospital não significa desligar os pensamentos sobre o trabalho. "O paciente que eu vi hoje, como será que ele vai ficar amanhã? Como será que ele vai passar a noite?", são angústias que a estudante relata.

Isso tudo com a televisão, os jornais e as redes sociais bombardeando notícias sobre o assunto. "No começo disso tudo, me senti muito sobrecarregada com a quantidade de informações", afirma.

O próprio trajeto de volta dos hospitais muitas vezes acaba sendo frustrante , segundo Daniela. Depois de ver tantos casos graves, de perder pacientes, sair do hospital e ver as ruas cheias de pessoas, com fila no McDonald's, fila na farmácia, fila no banco e gente andando, correndo e até passeando com carrinho de bebê, deixa a estudantes brava e assustada, preocupados com a capacidade dos leitos de hospitais. 

Nesta sexta-feira (24), o estado de São Paulo já tinha 57,7% dos leitos de UTI , de hospitais públicos e privados, ocupados. Nas enfermarias a situação não é muito melhor, 41,8% dos leitos nelas estão ocupados. Na capital paulista a ocupação das UTI chegam a 77%, e nas enfermarias a 67%. “A gente não pode baixar a guarda de forma alguma”, diz Daniela.

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Manoela Fidelis, de 23 anos, aluna da da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein

Tomada pelos mesmos sentimentos  da colega de classe e internado, Manoela Fidelis, de 23 anos que também está no quinto ano, teve altos e baixos no primeiro mês de enfrentamento ao novo coronavírus.

Sem ainda entender direito a dimensão que o vírus teria, ela viu a unidade onde trabalhava mudar por completo – desde os pacientes, que agora seriam majoritariamente pessoas com Covid-19, até os protocolos que eles deveriam seguir.

Isso abalou e gerou um stress em toda a equipe da UPA Campo Limpo : no pessoal da limpeza e da administração, nos médicos, enfermeiros e técnicos. “E isso acabou refletindo na gente também”, relata. Ela conta que um dos maiores estresses foi se adaptar ao uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). 

Para a estudante, vestir os equipamentos é sempre levar consigo um sentimento de incômodo e preocupação. Isso porque colocar o EPI da forma correta é imprescindível para evitar uma infecção.

Nada se compara, porém, ao momento da retirada dos equipamentos. Nessa hora, tudo tem uma ordem. Cada peça precisa ser colocada e retirada de forma certa, lavando as mãos entre cada uma das proteções.

"A gente acaba ficando, assim como todos os profissionais de saúde, muitas horas sem comer ou sem beber água, sem ir ao banheiro , porque cada vez que a gente bota ou tira todo esse material de proteção a gente acaba aumentando o risco de contaminação", relata Manoela.

São muitas horas com a touca, com a máscara, com os óculos, com o avental por cima do jaleco, por cima da roupa que usam embaixo disso tudo. “É um stress muito diferente do que a gente sempre viveu no dia a dia do nosso internato”, afirma. 

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Daniela Harsanyi, de 25 anos, aluna da da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein

Apesar disso, ela e Daniela acreditam que essa experiência trará marcas positivas para elas. “Nenhuma geração de estudantes medicina vai ser tão preocupada com o paramentação, com EPI, com higiene das mãos, quanto a nossa”, afirma Daniela.

Manoela também enxerga que, por ter menos obrigações que um médico formado, ela pode olhar com calma para cada prescrição médica, cada cuidado de seus pacientes, dando mais atenção para eles e mandando os recados para a família e mostrando vídeos.

"A gente acaba sendo útil e é gratificante poder fazer parte também desse tipo de coisa emocional e dar esse tipo de suporte pros pacientes", conta Manoela.

“Eu me sinto honrada de poder participar desse momento, apesar dos medos e do estresse. Sinto que é gratificante no final do dia, saber que você conseguiu fazer um pouquinho da história de um paciente, da história de uma família – com desfechos positivos ou não”, relata Daniela.

Chamado para o combate

Além dos trabalhos vinculados às faculdades, como o de Manoela e Daniela, o Ministério da Saúde também abriu um edital em que alunos do primeiro ao último ano das faculdades de medicina, enfermagem, fisioterapia e farmácia poderiam se inscrever para ajudar nas demandas do Sistema Único de Saúde (SUS) durante a crise sanitária.

Chamado de “O Brasil conta comigo”, o programa auxiliaria os participantes com bolsas de até um salário mínimo para os alunos que trabalhassem 40 horas semanais e meio salário mínimo para aqueles que trabalhassem 20 horas. Contudo, nem todos os estudantes foram chamados.

Outra opção

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Zeus (esquerda), junto com colegas que também são voluntários, Fernanda (direita) e André (centro)

O aluno do quarto ano da Faculdade de Medicina da Unicamp, Zeus Tristão dos Santos, de 30 anos, viu suas aulas suspensas, assim como a maioria das atividades médicas realizada pelos estudantes da instituição.

Mas isso não diminui seu anseio por ajudar. “A pessoa que estuda pra isso e sente aquele chamado dentro dela, ela quer tá ali junto”, relata. O jovem descobriu que a ONG Expedicionários da Saúde estava auxiliando nas demandas do Hospital de Clínicas da faculdade, realizando a pré-triagem dos pacientes com suspeita de Covid-19.

Inicialmente, nenhum aluno poderia participar, por questões burocráticas e da saúde dos estudantes. Mas ele, junto com outros, defenderam o potencial e a vontade que possuíam para ajudar e foram liberados.

“Eu ainda não sou medico, sou estudante, mas é um momento para vestir a capa do profissional que você é”, afirma Zeus.

O que faz valer a pena

O dia que mais emocionou Zeus Tristão dos Santos, aluno do quarto ano da Faculdade de Medicina da Unicamp, de 30 anos,que tem atuado como voluntário na pré-triagem de pacientes com suspeita de Covid-19, foi quando uma enfermeira aposentada de 71 anos – logo, do grupo de risco – apareceu por lá, não porque estava com sintomas, mas porque queria se voluntariar.

"A dona Isabel queria ajudar de todo jeito, mesmo estando em uma idade em que a doença é mais letal. Uma senhora da população de risco sair de casa pra se oferecer, se pondo em risco, sabendo que ela tem tendência a ficar pior, foi a coisa mais emocionante que eu vi até agora”, conta.

Agora, ela está ajudando por telefone , sem se pôr em risco, a senhora de 71 anos orienta pessoas que têm dúvidas sobre o novo coronavírus.

Assim como a Dona Isabel, Zeus se sentiria muito inútil em casa. “Como eu estudo medicina, eu acho que a minha função é tá ali pra tentar levar um pouco de tranquilidade pra outra pessoa”. Entre 2014 e 2015, o aluno lutou contra um câncer no seu sistema linfático e sabe da importância que profissionais de saúde tem em acalmar os pacientes.

Receios que vem junto com o vírus

Daniela conta que o maior receio dos alunos não é ficar doente, mas passar o vírus para familiares , com quem geralmente moram juntos. "Pra mim, pessoalmente, foi um dos aspectos que mais me abalou emocionalmente", conta a jovem, que mora com parentes que estão no grupo de risco. 

Cada aluno criou sua própria rotina ao chegar em casa depois do turno no hospital. Chegar em casa, tirar a roupa, ir direto pro chuveiro, lavar tudo e se isolar dentro das próprias casas . Não ficar perto dos familiares, não abraçar, não compartilhar talheres, nem copos. “Essa preocupação existe desde o começo e é constante”. 

Na faculdade de Daniela e Manoela, assim como em outras, foram criados grupos de apoios e realizados debates entre alunos e professores que atuam na área de saúde mental. Também disponibilizaram atendimentos on-line com psicólogos. Os próprios estudantes se auxiliam todas as vezes no momento de colocar o EPI. 

O apoio familiar também é importante neste momento. Mesmo morando com familiares de grupo de risco, Daniela conta que sua família fica mais preocupada com a saúde dela do que de serem contaminados pela doença. O receio dos pais também se mistura com orgulho e o apoio que dão aos filhos.

"Eles ficam muito orgulhosos de a gente estar ajudando, perguntam bastante do nosso dia a dia, mas também tem uma preocupação atrelado. Então a gente escuta 15 vezes por dia aquele 'se cuida', 'toma cuidado'", conta Manoela.

Sem medo

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Zeus Tristão dos Santos, de 30 anos, aluno do quarto ano da Faculdade de Medicina da Unicamp

“Olha, depois da doença que eu tive, eu não tenho medo disso não”, afirma Zeus, que após ter sido diagnosticado com câncer não tem receio de ser contaminado pelo novo coronavírus – apesar de seguir todos os procedimentos de paramentação com cautela.

O jovem, que na época tinha 25 anos, foi tratado pelo SUS e, depois disso, ele, que já tinha um diploma em direito, resolveu dedicar-se à área de saúde , prestando vestibular novamente, dessa vez para medicina.

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E já que essa foi a carreira que escolheu, Zeus sente que não pode sentir medo. “Se eu tiver muito medo, eu não consigo fazer as coisas que eu tenho que fazer. Então, eu não tenho medo com relação a isso. Nenhum”. Apesar disso, admite que o fato de morar sozinho alivia suas tensões.

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