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Josué Damacena/IOC/Fiocruz
Falta de testes nas cidades pequenas contribui para falta de dimensão da pandemia

BRASÍLIA — Com um número cada vez maior de casos de coronavírus em todo o país, cidades pequenas têm encontrado dificuldade de ter acesso aos dados de seus pacientes, dependendo de dados de hospitais e laboratórios de referência nas cidades maiores.

Na Paraíba, os gestores locais precisam aguardar o resultado de exames encaminhados para para o Instituto Evandro Chagas, no Pará. Até a última quinta-feira, oficialmente, o estado tinha apenas uma morte por coronavírus, a secretaria estadual aguardava o resultado de 12 mortes suspeitas. Entre elas, algumas tiveram resultado prévio inconclusivo, ou esperam a contraprova para detectar o vírus. Nesta segunda-feira, o número de óbitos confirmados pela doença no estado foi para quatro.

Soraya Galdino, presidente da representação do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) na Paraíba e secretária municipal de Itabaiana (PB), a 80 km da capital, diz que os resultados têm levado cerca de 12 dias, o que atrapalha as secretarias municipais a tomarem medidas certeiras no combate ao novo coronavírus.

Embora os óbitos tenham acontecido na capital, as vítimas são oriundas de outras cidades do estado. Galdino explica que a Paraíba tem apenas duas redes de referência no tratamento de Covid-19, João Pessoa e Campina Grande, e que há um esforço grande para manter contato com os municípios pequenos, muitos deles localizados na fronteira com outros estados, para prestar atendimento.

— Quanto mais distante o município fica de um hospital de referência onde tem tudo, pior a situação. A falta de diagnóstico rápido dificulta o município a se organizar. Os municípios estão fazendo o trabalho de base, mas a falta de testes e resultados dificulta a ação, muitas vezes um paciente pode ter Covid, mas não foi diagnosticado, então a família não é alvo das medidas de isolamento, por exemplo. Sem o resultado, não há toda a precaução que poderia haver no caso de ocorrências confirmadas — explica ela, acrescentando a reclamação de que, até o momento, os testes rápidos prometidos pelo Ministério da Saúde ainda não chegaram ao estado.

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No Ceará, secretários ouvidos pelo GLOBO relatam uma demora de até 20 dias para receber resultado de testes enviados ao laboratório em Fortaleza, capital do estado. A chegada dos testes rápidos encomendados pelo Ministério da Saúde não deve resolver o problema, já que eles têm 75% de chance de dar um resultado negativo quando o paciente já está infectado.

— Vamos precisar usar o teste rápido para os nossos profissionais de saúde, porque é urgente fazer uma triagem de quem pode ficar à frente do atendimento — diz Sayonara Cidade, secretária de Saúde de Cedro (CE), município de 24 mil habitantes. Ela aguarda o resultado de quatro pacientes.

Sem o diagnóstico de seus moradores, essas secretarias encontram dificuldades em implementar ações de contenção da epidemia, como bloqueio sanitário e isolamento de possíveis infectados. Em Alegrete (RS), com 78 mil habitantes, o prefeito Márcio Amaral recomendou que 150 pessoas com sintomas de gripe fiquem em casa e está à espera de resultados em Porto Alegre, onde há o único laboratório do estado.

— Sem diagnósticos, nós temos uma dificuldade de ter uma noção mais clara da presença do vírus circulando no nosso meio — diz o prefeito.

O único caso confirmado em sua cidade é de um morador que se internou em Porto Alegre. Essa também é uma realidade das cidades pequenas — demoram para receber informações porque, em boa parte das vezes, os pacientes se locomovem para serem tratados em outros municípios.

Sem UTIs e laboratórios

De acordo com dados do SUS , apenas 478 municípios, o equivalente a 8,5%, têm UTIs para adultos no sistema público de saúde no Brasil. As demais cidades têm leitos hospitalares, mas precisam transferir os pacientes para outros municípios ou para a rede privada quando o quadro se agrava.

Até ontem, o Brasil tinha apenas 30 laboratórios em sua rede referenciada para fornecer diagnósticos de covid-19 ao SUS, todos nas capitais. Além dos Laboratórios Centrais de Saúde Pública (LACENs) dos 26 estados e do Distrito Federal, três institutos de referência fazem o trabalho para a rede nacional: a Fiocruz, no Rio de Janeiro, o Instituto Adolfo Lutz (IAL), em São Paulo, e o Instituto Evandro Chagas (IEC), no Pará.

Durante coletiva de imprensa, ontem, o Ministério da Saúde anunciou que a Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou que laboratórios vinculados ao Ministério da Agricultura atuem fazendo diagnóstico da doença, o que deve desafogar os testes represados encaminhados pelas cidades pequenas.

No total, há 84 unidades da Embrapa, Laboratórios Federais de Defesa Agropecuária (LFDAs) e da Comissão Executiva de Planejamento da Lavoura Cacaueira (Ceplac) aptos a fazer o trabalho. Num primeiro momento, farão parte da rede para diagnóstico de Covid-19 os LFDAs de Minas Gerais, Pernambuco, Rio Grande do Sul e São Paulo.

Presidente do Conasems, Willames Freire opina que a falta de laboratórios pode causar um colapso com a expansão no número de casos nos próximos dias, afetando, sobretudo, os menores municípios.

— Temos um acúmulo de exames nesses laboratórios e ele sem capacidade para dar respostas. As cidades pequenas por ficarem dependentes dos laboratórios centrais têm muita dificuldade. Os estados vão ter que se organizar, a tendência é aparecer mais mortes, e do jeito que está não vamos ter como dar vazão aos exames.

Falta de equipamentos

No município de Chapadão do Céu, em Goiás, a amostra para analisar o primeiro caso suspeito foi encaminhada ontem para Goiânia. A secretária da cidade de cerca de 10 mil habitantes, Verônica Savatin, já sabe que vai aguardar mais que o necessário para ter o resultado.

Antes, o tempo de espera no estado era de 72 horas, mas já passou para 5 dias. Sem esperar pelo resultado, a gestora já está aplicando os protocolos para tentar conter a disseminação do vírus na cidade.

— A dificuldade do município do interior é o deslocamento, alguns lugares fazem a coleta do material e mandam para o laboratório central, mas outro municípios nem sequer têm material para coleta, precisam ir a um hospital regional ou para a capital do estado. Lidamos com uma cultura populacional na qual as pessoas só se previnem quando têm um resultado confirmado. Por mais que haja a orientação de que mesmo antes do resultado a conduta seja mantida, lidar com a forte pressão popular típica dos municípios pequenos, onde todo mundo conhece todo mundo, atrapalha o gestor a organizar a rede — argumenta ela.

— Estamos pedindo que a divisão de recursos olhe também para os municípios menores. Tivemos uma guerra para dividir os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Claro que não dá para abandonar os grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro, onde há explosão dos casos, mas o ministério poderia atentar um pouco mais para os municípios pequenos. — diz a secretária. — Pense em um carro cujo pneu furou e você precisa trocar com ele em movimento. Os municípios do interior estão fazendo isso. Se não conseguirmos reorganizar o sistema, muita gente vai morrer.

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