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Cariocas relatam sentir diferença na qualidade do ar

Entre tantos males, a quarentena imposta pelo governo estadual para combater a disseminação do novo coronavírus ao menos já afeta positivamente a qualidade do ar fluminense. Dados do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) mostram uma redução de 77% na concentração de dióxido de nitrogênio (NO2) na área de abrangência do Distrito Industrial de Santa Cruz, e de 45% em Duque de Caxias, entre 23 e 25 de março. O gás é um dos principais resíduos poluentes dos motores dos automóveis.

O monitoramento diário feito pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente também mostra uma melhora nos índices de qualidade do ar na cidade do Rio, levando-se em consideração a média de março, pré e pós-quarentena. Dos oito bairros monitorados, cinco (Centro, Tijuca, São Cristóvão, Irajá e Bangu) possuem menos gases nocivos à saúde e ao meio ambiente desde o último dia 24. Copacabana se manteve igual, enquanto que Campo Grande e Pedra de Guaratiba pioraram.

A cabeleireira autônoma Leila Moraes tem sentido os efeitos da quarentena na profissão, mas consegue notar uma diferença no ar de Bangu nesses dias de menos carros nas ruas:

"Por incrível que pareça, a casa está menos empoeirada . São coisas corriqueiras, mas que dá para perceber. Tem menos insetos circulando, as plantas estão mais vivas", disse

A melhora na região, de acordo com os dados da prefeitura, é pequena, de um ponto em média. Os bairros que mais apresentaram uma evolução na qualidade do ar foram Centro e Tijuca, oito e cinco pontos, respectivamente.

"Não vi os dados da prefeitura, mas são dois bairros que não possuem uma atividade industrial que despeje poluentes. Então a poluição do ar neles é basicamente dos veículos. Como houve uma redução drástica na movimentação de pessoas, acontece essa queda" afirmou Ana Carolina Bellot, chefe do Serviço de Avaliação da Qualidade do ar do Inea, responsável pelo monitoramento da qualidade do ar em cinco regiões do estado, com 58 estações automáticas e 128 semiautomáticas.

O professor Claudinei Guimarães, do Programa de Engenharia Ambiental da Escola Politécnica da UFRJ, afirmou que esse fenômeno de melhoria na qualidade do ar já está sendo percebido em outras partes do mundo, onde as medidas de isolamento social já foram implementadas para combater a Covid-19 . Ele alertou sobre os danos que o dióxido de enxofre, o dióxido de nitrogênio, o monóxido de carbono e as pequenas partículas de substâncias sólidas ou líquidas causam às pessoas.

"Estes tipos de materiais particulados, quando inalados pelos seres humanos, levam consigo alguns metais pesados e hidrocarbonetos policíclicos aromáticos (HPA), que são tóxicos e cancerígenos, levando várias pessoas a terem problemas pulmonares e câncer ao longo do tempo de exposição", explicou, para complementar em seguida: "A redução do dióxido de enxofre, que é proveniente da frota de caminhões e ônibus, reduzirá a formação de chuvas ácidas. Já a diminuição da emissão de dióxidos de nitrogênio e de monóxido de carbono na atmosfera é fundamental para que ocorra a diminuição da formação do ozônio (O3), um poluente que provoca várias doenças pulmonares nos seres humanos, além de destruir as plantações."

Tanto o professor quanto a chefe do Serviço de Avaliação da Qualidade do ar do Inea ressaltam que as condições meteorológicas interferem na concentração desses poluentes na atmosfera e, consequentemente, na qualidade do ar.

Um dia de clima seco, sem vento, propicia um ar pior do que o chuvoso, uma vez que a umidade funciona com um filtro para as impurezas. De acordo com Ana Carolina Bellot, os números obtidos neste mês de março, que teve menos chuvas do que o normal, reforçam a quarentena como a principal responsável pela melhoria no ar.

A tendência, com o passar dos dias em isolamento social, com uma redução drástica no número de veículos nas ruas, é que a qualidade do ar fique estabilizada nos níveis atuais.

"De tudo de ruim que estamos passando, ao menos a quarentena melhora o ar, inclusive para pessoas que são do grupo de risco da Covid-19, pessoas com problemas respiratórios, asmas", lembrou Ana Carolina Bellot.

Menos carros nas ruas afeta negócios

Um dos bairros que apresentaram índices de qualidade do ar melhores depois da quarentena foi Bangu, na Zona Oeste do Rio. Localizado em uma baixada, entre os maciços da Pedra Branca e de Gericinó, é conhecido tanto pelo calor quanto pelo ar pouco agradável aos pulmões, fruto da posição geográfica, que desfavorece a dispersão dos poluentes, e da densidade populacional.

Jeremias Gomes, de 39 anos, afirma que já percebeu uma melhora no ar de Bangu. Mas é difícil ver o copo meio cheio no meio da pandemia. Ele é dono de uma loja que vende pneus no bairro. Com menos carros nas ruas, menor é a poluição do ar, mas também diminui o número de pneus que são gastos nas vias da cidade. Sem desgaste, não há motivo para a troca por um novo.

"O movimento caiu 90%. Eu sei fazer outras coisas, mas tem pessoas que só sabem fazer isso da vida", resumiu.

Veja:  Mourão parafraseia Geisel ao defender isolamento social

Procurada pela reportagem para comentar os índices de qualidade de ar na cidade do Rio, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente informou que "está fazendo as análises da qualidade do ar na cidade e comparando os dados históricos do município com o período da população em quarentena, diante da pandemia de Coronavírus. O objetivo é fazer uma comparação semanal enquanto durar a quarentena e divulgá-los no site da secretaria".

Índice de qualidade do ar na cidade do Rio no mês de março*:

*Quanto menor o número, melhor a qualidade do ar


Média antes da quarentena - 1/3 a 23/3
Média depois da quarentena - 24/3 a 31/3

Centro
A - 37,6
D - 29,625

Copacabana
A - 43,5
D - 43,2

São Cristóvão
A - 31,6
D - 29,25

Tijuca
A - 26,4
D - 21,75

Irajá
A - 32,8
D - 29,75

Bangu
A - 37,2
D - 36,1

Campo Grande
A - 31,7
D - 33,25

Pedra de Guaratiba
A - 30,6
D - 33,625

Fonte: Secretaria Municipal de Meio Ambiente

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