Realengo foi um dos lugares mais atingidos pelas chuvas que causaram destruição no Rio de Janeiro
Márcia Foletto/Agência O Globo
Realengo foi um dos lugares mais atingidos pelas chuvas que causaram destruição no Rio de Janeiro


Ainda há muito o que fazer pelas ruas do Barata, em Realengo, na Zona Norte do Rio. As vias do local estão tomadas de lama, esgoto e lixo, muito lixo — grande parte formada por móveis e eletrodomésticos destruídos pelo temporal que atingiu a cidade do Rio na madrugada de domingo. Objetos conquistados ao longo de uma vida inteira foram levados em segundos pela força da água. A região, que fica aos pés do Parque Nacional da Pedra Branca, foi a mais atingida. Ali, dezenas de moradores estão desalojados ou desabrigados.

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Na manhã de terça-feira (3), muitas famílias contabilizavam os estragos. A esperança de recomeçar é como o desalento, comum a todos. Diversas famílias que perderam tudo, só sobrou a roupa do corpo. Conheça agora a história de cinco mulheres que, mesmo não tendo mais nada, levam consigo a fé e a esperança em dias melhores.

Manoela Maria Bento quebrou parede com enxada

Cuidadora de idosos, mãe de três filhos (de 13, 7 e 3 anos) e moradora do Barata desde que nasceu, Manoela Maria Bento perdeu tudo o que tinha. No momento do temporal, dormia com os três filhos em uma casa humildade que fica no alto do morro. Ao perceber que um barranco havia desabado e impedido a saída do local, a cuidadora de idosos pegou uma enxada e quebrou a parede do banheiro para a água escoar.

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Por quase 12 horas, ela, os filhos e mais de 50 vizinhos ficaram presos no alto da comunidade até serem resgatados. Levados para a parte baixa do bairro, Manoela já não tinha mais esperanças. No entanto, ao avistar a comitiva do prefeito Marcelo Crivella — que fez uma rápida visita ao bairro —, correu e se embrenhou entre seguranças e secretários de Crivella. Ali, ela fez um pedido ao prefeito: que a Defesa Civil fosse à sua casa para ver a situação.

"A única chance de alguém me escutar era correr atrás dele e expor o que estamos passando. A imprensa estava ali e ele teve que parar para me escutar. Não pedi muita coisa. Só queria que eles vissem a situação da minha casa. Eu moro com os meus filhos pequenos e não podia deixar eles em risco", conta a cuidadora de idosos, que hoje está na casa da ex-cunhada, no mesmo bairro.

"Com alguns minutos de chuva, começou a deslizar terra e o barranco caiu. Era na madrugada e estava só com as crianças. O que eu pude fazer foi abrir passagem, com uma enxada, para a água escorrer. Eu fiz um buraco no banheiro, mas não adiantou. Os meus filhos estavam dormindo, então eu tive que sair na chuva para pedir ajuda aos vizinhos. Em seguida, houve um novo deslizamento e ficamos ilhados".

Mesmo não tendo mais nada, Manoela — que acorda cedo diariamente para trabalhar e dar um pouco de dignidade às crianças — afirma que vai sair dessa.

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"Vamos recomeçar do zero. Porque é em meio às dificuldades que a gente arruma um jeitinho para seguir a vida. Estamos com vida, é isso o que importa".

A prefeitura esteve na casa da mulher. A residência está interditada por tempo indeterminado.

Sara Cristina Fernandes Pacheco da Silva perdeu o carro que lhe dava o sustento

Nascida e criada no Barata, a motorista de aplicativo Sara Cristina Fernandes Pacheco da Silva, de 27 anos, também é uma das vítimas da enchente. Mãe de dois filhos, de 9 e 3 anos, ela conta que tudo o que tinha foi levado pela força da água. Dona em uma casa de dois andares, Sara revela que todo o material escolar do seu filho mais velho foi atingido. O carro da família também acabou destruído, o que compromete sua fonte de renda: o Fiat Idea foi carregado por 200 metros e ficou em cima de outro carro.

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"Na minha casa, a única coisa que sobrou foi o fogão e a geladeira. O resto a água levou. Até o material escolar do meu filho se perdeu. Só sobraram alguns livros que estão na casa do pai", disse a mulher.

A motorista de aplicativo afirma que o carro tem seguro. No entanto, é preciso pagar 10% da franquia, no valor de R$ 4 mil, para o conserto.

"Não tenho dinheiro nem para arrumar os estragos aqui de casa. Vou ter para pagar o seguro do carro?"

Maria da Graça Pereira Rocha Garcia foi resgatada a nado

Sentada na casa onde morou por 16 anos, em uma vila, a pensionista Maria da Graça Pereira Rocha Garcia, de 66, relata os momentos de pânico que enfrentou.

"A chuva foi muito rápida. Eu estava deitada e começou a entrar lama na minha casa. Quando vi, estava tudo boiando e eu não conseguia sair. Gritei pedindo socorro e meu vizinho veio, a nado, e quebrou a porta. Só assim pude escapar", conta ela.

Maria Lúcia Ferreira salvou seu chachorro e alguns documentos

Moradora da região desde os 9 anos, Maria Lúcia Ferreira, hoje com 53, conta que, quando a água entrou na sua casa, que fica colada a um rio que corta o bairro, só conseguiu salvar o cachorro e alguns documentos. Nesta terça, a empregada doméstica via seus pertences serem retirados dos cômodos invadidos pela lama:

"Foi tudo muito rápido. Só deu tempo para salvar o meu cachorro, pegar uns documentos e subir para a casa do meu irmão. Quando consegui chegar na escada, a água já estava batendo no meu peito".

Do alto da casa, cerca de dez pessoas viam mais de 20 carros serem arrastados e atingirem os imóveis que estavam pelo caminho. O medo da família de Maria Lúcia era que um dos veículos atingisse o local e derrubasse a casa. Quarenta e oito horas após a chuva, a mulher contabilizava os estragos:

"Hoje é dia de verificar o prejuízo. Não sei nem o que fazer. Nesses últimos dias estou na casa da namorada do meu filho, no Parque Real (Realengo). Estou vendo o que vou fazer depois disso".

Nos próximos dias, a mulher vai procurar um Centro de Referência e Assistência Social (Cras) para fazer uma inscrição para receber ajuda da prefeitura.

Gilmara Paiva de Souza quase perdeu o marido e os filhos

Algumas peças de roupas e poucos pares de sapatos. Foram as únicas coisas que restaram da casa de Gilmara Paiva de Souza, de 37 anos. Nesta manhã, assim como outros vizinhos, a faxineira lavou as poucas coisas que lhe restaram. Segundo Gilmara, ela estava trabalhando no momento da chuva e quase perdeu o marido e os filhos, de 16 e 10 anos:

"Ele me ligou desesperado, dizendo que a casa estava tomada pela água. Para salvar meus filhos, ele os colocou em um colchão, que ficou boiando. A água ficou tão alta que meu marido pensou em tirar as telhas e colocá-los no telhado. Minha filha gritava que não queria morrer, meu marido entrou em pânico. Hoje, os meus filhos não estão conseguindo dormir direito porque acordam assustados, pensando que a água está entrando".

Com o marido afastado do trabalho e recebendo pelo o INSS, a mulher, que mora no bairro há 8 anos, diz que conta com a solidariedade de amigos e parentes para reconstruir o que perdeu.

"Estamos sendo ajudados pelos meus amigos e pela minha família. Eu pago mais de R$ 1 mil de aluguel, além de luz, água e outras contas. A nossa renda é baixa. Em meio a isso tudo, a gente vê a solidariedade das pessoas", agradece a mulher, que está com o marido na casa de uma vizinha.

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