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Em entrevista, Shanna diz que o responsável pelo atentado que sofreu é o seu ex-cunhado Bernardo Bello, mas não apresenta provas de sua acusação

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Reprodução
Filha do bicheiro Maninho, Shanna sofreu atentado na última semana

Alvo de um atentado na semana passada, Shanna Garcia, filha do bicheiro Waldomiro Paes Garcia, o Maninho, é aguardada hoje pela Polícia Civil do Rio para prestar seu primeiro depoimento depois da tentativa de homicídio no Recreio. Em entrevista ao Extra, após ter alta do hospital na última sexta-feira (11), Shanna diz que o responsável pelo crime é o seu ex-cunhado Bernardo Bello, mas não apresenta provas de sua acusação. Segundo ela, ele hoje controla os pontos do jogo do bicho e máquinas caça-níqueis herdados do seu pai.

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A herança do bicheiro Maninho, um patrimônio estimado por Shanna em R$ 25 milhões, está por trás da guerra que já matou quatro integrantes da família nos últimos anos. Os homicídios, jamais desvendados, a exemplo de vários outros ligados ao jogo do bicho no Rio, expõe uma “polícia corrompida”, diz Shanna, que afirma não confiar na Delegacia de Homicídios (DH) para tocar o seu caso, por ter “um monte de gente vendida”. Mais uma vez, ela não apresenta provas das acusações. Desde a semana passada, o caso da tentativa de homicídio saiu da 16ª DP (Barra) para a DH, unidade responsável por desvendar os assassinatos de maior repercussão, como o da morte da vereadora Marielle Franco (PSOL).

Em novembro de 2018, o miliciano Orlando de Curicica já havia acusado a polícia fluminense de “acobertar assassinatos de contraventores”. Procurada, a Polícia Civil informou que não vai comentar as declarações de Shanna.

"Tem exceções, claro, mas eu diria que quase toda a polícia do Rio é corrompida. Por isso, não resolve os casos. Um exemplo: no inquérito do meu irmão (Myro), morto em 2017, só fui prestar depoimento esse ano. Falei muita coisa e meu relato foi para dentro da gaveta. Não queria falar na DH novamente em vão. Vou chegar lá e falar várias coisas para um monte de gente que é vendida? Não confio", diz, pedindo para ser ouvida pelo Ministério Público do Rio, que, através do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), vem reativando investigações envolvendo assassinatos relacionados ao jogo do bicho.

Em meio à guerra dentro da família Garcia, a própria Shanna já chegou a ser acusada de ordenar um homicídio no passado. Em 2011, ela teve a prisão decretada após ser acusada da morte do tio, o pecuarista Rogério Mesquita, assassinado dois anos antes. Na mesma época, um relatório da Subsecretaria de Inteligência (da extinta Secretaria de Segurança) e da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas apontou o ex-capitão da PM Adriano Magalhães como envolvido no crime. O ex-militar, foragido, é acusado de chefiar o “Escritório do Crime”, braço da milícia formada por assassino de aluguel.

Shanna, que nega envolvimento, acabou excluída da ação e o caso não teve solução, assim como a morte de Maninho, executado em 2004 após sair de uma academia na Barra; o homicídio de José Luiz de Barros Lopes, o Zé Personal, ex-marido de Shanna, atacado ao sair de um centro espírita; e o assassinato de Myro, seu irmão, após ser sequestrado por três homens em 2017.

Embora a polícia do Rio investigue a participação de Shanna na contravenção, ela nega que receba recursos oriundos do bicho. De acordo com a filha de Maninho, todos os pontos do império do jogo construído pelo avô, o bicheiro Miro, em bairros como Vila Isabel, Tijuca, Largo do Machado e Ipanema, estão com o ex-cunhado Bernardo, que também controlaria cerca de duas mil máquinas caça-níqueis. Shanna, que diz viver do aluguel de espaços comerciais que seu pai tinha, afirma que deixou de receber em 2013 dinheiro das atividades da contravenção por ordem de Bernardo.

Tiro falhou

Com o braço esquerdo na tipóia e um curativo abaixo da axila, Shanna acredita que só escapou da emboscada porque o primeiro dos tiros disparados pelo criminoso falhou. Como ela estava atenta e ouviu o som seco do tiro frustrado, disparado por um homem de capuz, teve tempo de voltar ao carro blindado e trancar-se, antes de ser atingida por outros disparos. Para ela, o estopim do ataque que diz ter sido ordenado por Bernardo seria o fato de ter contratado, recentemente, uma nova advogada, que vem questionando a forma como o espólio de Maninho está sendo administrado.

O legado da família, segundo Shanna, é estimado hoje em R$ 25 milhões, dos quais pelo menos R$ 20 milhões se referem ao Haras Modelo, fazenda onde a família criava cavalos de raça e gado de corte em Guapimirim, na Baixada Fluminense. Desde 2013, quando foi impedida de entrar na propriedade, Shanna disse que não pisa no local. A disputa desta fazenda e de imóveis no Rio, especialmente em lojas de Vila Isabel, também é a explicação para a briga física entre a filha de Maninho e sua irmã gêmea, Tamara, ex-mulher de Bernardo Bello, em 2016.

"Procurei a minha irmã para conversar sobre a divisão dos bens. Quando cheguei, ela tentou fechar o portão na minha cara. Foi quando a briga começou. Trocamos tapas, socos e mordidas, até os seguranças do condomínio dela nos separarem", diz Shanna, para, depois, se recordar que Bernardo passou a ameaçá-la. Segundo ela, ele foi até a entrada do condomínio onde ela mora para lhe ameaçar.

A pós a briga, Shanna disse que depôs na Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), onde relatou as desavenças.

‘Medo de morrer’

O ex-cunhado, segundo Shanna, era varejista quando conheceu Tamara. Após casar com a outra filha de Maninho, foi envolvendo-se nos negócios da família até assumir o controle de tudo, em 2013. Bernardo, segundo ela, chegou a remunerá-la com 30 salários mínimos mensais, mas já não repassa mais nada e nem presta contas dos bens familiares que desfruta — um bar e uma loja localizada em dois imóveis dos Garcia em Vila Isabel.

"Hoje, não tomo conta de nada. Ele toma conta de tudo. Não pode ter vindo de outra pessoa, a não ser dele a ordem para matar. Do meu irmão, não tenho dúvidas de que a ordem veio dele. Mirynho estava tentando saber e participar de tudo. É o que está acontecendo comigo agora, mas, graças a Deus, escapei", disse.

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Shanna disse que depois que Bernardo assumiu o controle dos negócios, a mãe dela deixou de receber a pensão estabelecida pela contravenção. De acordo com ela, enquanto mora numa casa alugada, Bernardo vive uma mansão, cercada de seguranças e de carros blindados. Procurado, o ex-cunhado de Shanna não foi encontrado para responder às acusações.

Os três tiros atingiram Shanna num momento em que ela, a convite da ex-presidente do Salgueiro Regina Celi Fernandes, estava tentando retornar à escola de samba que já foi dominada pela família Garcia. Depois do ataque da semana passada, a preocupação agora é com a proteção. O dilema, segundo ela, é saber em quem confiar a investigação do seu atentado no Recreio: "hoje tenho medo de morrer. Acho que se isso tivesse acontecido, seria mais um caso arquivado, não daria em nada. Sair do Rio e ir morar em outro lugar é uma possibilidade".