Presídio de Itaquitinga, inaugurado em janeiro de 2018, tem capacidade para mil presos
Foto: Hélia Scheppa/SEI/Divulgação
Presídio de Itaquitinga, inaugurado em janeiro de 2018, tem capacidade para mil presos

Um grupo de presos do Presídio de Itaquitinga, localizado na Mata Norte de Pernambuco, iniciou uma greve de fome por tempo indeterminado no domingo (29). Os detentos alegam maus tratos, falta de comida, opressão por parte dos gestores da unidade prisional e problemas com o horário das visitas. 

Em um vídeo gravado pelos presidiários dentro de Itaquitinga, na manhã desta terça-feira (1º), eles mostram as condições nas quais se encontram, denunciam uma suposta milícia dentro do presídio e culpam o governador de Pernambuco, Paulo Câmara, por não tomar providências. A filmagem foi enviada à reportagem por uma das familiares.  

“Olha a situação de nossos companheiros de Itaquitinga, muita fome e muita opressão. Três dias já que estamos em greve de fome aqui. O estado não se comove com nada, querem mexer nos horários das visitas para nos desestabilizar. Olha a fome do pessoal, não queremos problema com nada, nem afrontar ninguém, vamos morrer de fome, estamos sequestrados. Isso tá errado, o governador não vê isso não? Não queremos regalia, não queremos guerra, a gente só quer Justiça”, diz um homem que filma e narra o vídeo, sem se identificar. 

Confira o vídeo completo:



Um outro problema que o grupo destaca é que estão sendo colocado em celas próximas de seus inimigos e o risco de morte é diário. Desesperadas, um grupo de mulheres familiares dos detentos conseguiram uma reunião na segunda-feira (30) com Pedro Eurico, secretário de Justiça e Direitos Humanos de Pernambuco. 

O grupo com cerca de dez esposas informou ao gestor sobre a greve de fome e deram detalhes do que motivou a manifestação dos presos. Elas levaram cartas escritas à mão pelos companheiros, além dos próprios relatos. 

“Somos um pequeno grupo de mulheres lutando pelos direitos de nossos familiares. No domingo, os pavilhões pararam a alimentação sem nenhuma rebelião, sem tumulto e sem discussão. Eles só pararam para revogar os direitos deles porque estão sendo tratados feito animais”, contou uma das esposas que participou da reunião e preferiu não se identificar. 

Fotografia de carta dos presidiários
REPRODUÇÃO/WHATSAPP

Carta enviado por um preso para pedir providências

Ela alega ainda que o secretário Pedro Eurico cortou a água, energia e alimentação de todos. Eles agora estão há três dias sem comida, sem água e encarcerados há três dias. “Estamos em desespero porque se nem as autoridades maiores nos ajudam, como vamos resolver essa falta dos direitos humanos”, indagou. 

Na última quarta-feira (25) os detentos do presídio atearam fogo em cinco celas do pavilhão da ala C da Unidade de Regime Semiaberto 1 (Ursa 1). De acordo com o Sindicato dos Agentes de Segurança Penitenciária de Pernambuco (Sindasp/PE) os presos de Itaquitinga regalias.

"Como o novo modelo de gestão dessa unidade é rígido e o sistema segue um modelo automatizado, eles tocaram fogo para exigir a saída do gerente e do chefe de pavilhão”, afirmou João Carvalho, presidente do Sindasp. Itaquitinga é a primeira penitenciária de segurança máxima de Pernambuco.

Em mensagem enviada à reportagem, um dos detentos conta que presos que não atearam fogo estão sendo injustamente culpados pelo fato. “O problema é que quem ateou fogo nas celas foi um pessoal e nós estamos levando a culpa e de castigo, isolados de tudo e ainda sem ter o que comer, vamos morrer de fome”, disse. 

Celas queimadas em Itaquitinga, presídio de Pernambuco
Foto: Sindasp/Divulgação
Celas queimadas em Itaquitinga, presídio de Pernambuco



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Em janeiro de 2018, a unidade I do Centro Integrado de Ressocialização (CIR), em Itaquitinga, foi entregue pelo governo de Pernambuco. A obra foi iniciada em junho de 2010 e estava parada desde 2012. Só foi retomada em 2017 e custou aproximadamente R$ 10 milhões aos cofres da administração estadual. A capacidade do local é para abrigar cerca de mil presos no regime fechado. O processo de ocupação da primeira unidade do complexo prisional teve início em junho de 2018 para desafogar as unidades prisionais da Região Metropolitana do Recife.

Atualmente, não há problemas de superlotação na unidade prisional. São 624 detentos para mil vagas. Mas, de acordo com Wilma Melo, assistente social, especialista em políticas públicas e presidente do Serviço Ecumênico de Militância nas Prisões (Sempri), Itaquitinga tem uma série de problemas estruturais, como a não existência de uma escola ou da prática de atividades laborais pelos presos.

"É um local que foi inaugurado sem as condições para a ressocialização e sim a repressão. É só a lógica de encarceramento. A comida da família é feita pela unidade, mas a família tem o direito de levar a sua alimentação, mas até então estão sem essa garantia e isso revolta os presos porque a comida é pouca e é ruim", detalhou Wilma.

A assistente social destaca ainda que o incêndio em um dos pavilhões da unidade prisional foi motivado porque a gestão colocou inimigos próximos e isso gerou medo e desconforto. "Pela lei, eles têm o direito de ficarem distantes. Mas, a gestão acredita que a força repressiva vai resolver os problemas, ledo engano. A política de encarceramento em massa é falha. O que eles fizeram, cortando a água dos detentos por exemplo, é tortura", lamentou.

Procurada pela reportagem do iG para esclarecer a situação em Itaquitinga, a Secretaria Executiva de Ressocialização (Seres) informou que não há registro sobre o fato mencionado na Ouvidoria da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos.

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