Fernando Ridão mora e trabalha na Tio Patinhas, mas  garante que
Lorena Barros / iG
Fernando Ridão mora e trabalha na Tio Patinhas, mas garante que "só não tem dinheiro"

Sem pompas ou grandes destaques publicitários, uma loja de vestidos de noiva fechada no meio de um dia útil é o retrato pacífico da cidade de Ferraz de Vasconcelos, no Alto Tietê paulista. Em uma sutil coincidência municipal, a vitrine que ostenta o dresscode de festas importantes está no encontro exato da rua Minie com a rua Mikey. O apaixonado casal com nome abrasileirado protagoniza o rol de personagens que batizam as ruas do bairro Parque Dourado, conhecido como a Disney de Ferraz.

As ruas com nome de clássicos personagens criados há quase um século estão a poucos quilômetros do centro comercial da cidade de 160 mil habitantes, mas têm o ar bucólico de um município ainda menor. Andar pela Gastão, Anabela, Tio Patinhas e Pato Donald é dar espaço ao silêncio de uma vizinhança povoada na década de 1970 por iniciativa do ex-prefeito Makoto Iguchi.

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Foi o prefeito, inclusive, quem decidiu colocar os nomes dos personagens nos logradouros de Ferraz. O político, eternamente marcado pelas suas visitas aos parques da Disney no Japão e nos Estados Unidos, faleceu no ano de 2018 e nunca viu um parquinho infantil ser erguido na praça Peter Pan ou alguém se tornar milionário na rua Tio Patinhas, mas deixou como legado uma história inusitada que já virou habitual para muitos moradores.

“Você vai fazer qualquer coisa, até cadastro de banco, e tem logo que dizer que não está brincando quando vai falar o nome da rua”, conta Fernando Ridão, de 31 anos. Para ele, morador da cidade desde que nasceu e da rua Tio Patinhas há cinco anos, os nomes sempre foram naturais, mas nunca deixaram de ser engraçados. “Aqui na Tio Patinhas a gente tem tudo, só não tem dinheiro”, brinca. O mecânico de automóveis sustenta a família trabalhando na oficina para carros que herdou do avô.

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No primeiro andar do imóvel, Fernando faz morada para a esposa e duas filhas, de um e dois anos. Assim como o prefeito Igushi, as meninas têm uma paixão assumida por personagens da Disney. As criações mais antigas, porém, não enchem tanto os olhos das garotas. “Elas gostam mais de Frozen, de Monstros S.A”, explica.

Isildinha, a contadora de histórias da rua Minie

Isildinha varre a rua de casa e lembra de histórias com mais de três décadas
Lorena Barros / iG
Isildinha varre a rua de casa e lembra de histórias com mais de três décadas

Em meio ao silêncio do Parque Dourado, a vassoura de Isildinha Cresso limpa a rua de casa. Moradora da Minie há mais de três décadas, ela guarda tantas histórias do local que é quase uma enciclopédia dos moradores de Ferraz. Aos 64 anos e com os dois filhos morando em cidades diferentes, ela faz da vida de viúva uma oportunidade de conversar com quem passa e manter a memória da Disney viva.

“Quando cheguei aqui tudo o que tinha eram três mangueiras e um monte de mato”, lembra.  A propriedade, segundo ela, era de uma mulher muito rica moradora da capital que precisava de ar puro para garantir a saúde e, de mala e cuia, deixou a vida urbana. Assim como a mulher, ela abandonou a capital, mas por motivos financeiros: na nova cidade teria um terreno próprio para plantar e comer quando o dinheiro apertasse.

Isildinha acha engraçado que os nomes das ruas sejam assim, não sabe como eles surgiram, mas garante: muitos casais já se formaram no encontro da Minie com a Mikey . “Aqui antigamente tinha muito jovem brincando e eles foram crescendo. Meu sobrinho casou com a menina que mora aqui do lado e o irmão dele casou com outra menina da outra rua”, conta Isildinha. Como tantos outros jovens, os casais formados seguiram a vida e foram escrever suas histórias em outras cidades brasileiras.

Ferraz para eles, assim como para os filhos de Isildinha e tantos outros que de lá saíram, é aquele local que vai sempre lembrar a infância, tendo nomes de personagens ou não.

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