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Em 2015, Louismar Bonates teria prometido não transferir criminoso, que acabou indo para presídio federal quatro meses depois

Secretário de Segurança Pública do Amazonas, Louismar Bonates
Divulgação/SSP-AM
PF diz que secretário de Segurança do Amazonas negociou com chefe de facção em 2015

O atual secretário de Segurança Pública do Amazonas, Louismar Bonates, fez um acordo com o chefe da principal facção da região Norte em 2015, segundo um relatório da Polícia
Federal daquele ano. A facção é a mesma apontada como responsável pelos massacres em penitenciárias do Amazonas em janeiro de 2017 e no início desta semana .

À época do suposto acordo com a organização criminosa, Bonates ocupava a pasta da Justiça e era responsável pela Administração Penitenciária. Apesar de ser citado na
investigação da PF, o atual secretário de Segurança não é réu em nenhum processo judicial sobre este assunto.

O relatório foi produzido pela Polícia Federal nas investigações que culminaram na Operação La Muralla, que mirou a facção criminosa. O grupo ganhou notoriedade porque comanda a
Rota Solimões, na tríplice fronteira entre Brasíl, Colômbia e Peru, um dos principais pontos de escoamento de drogas do mundo.

O documento aponta que, em julho de 2015, José Roberto Fernandes Barbosa, o "José Compensa", tido com um dos principais líderes da facção nortista, foi convidado para um
encontro com Bonates.

À época, o Primeiro Comando da Capital (PCC), principal facção do estado de São Paulo, tentava consolidar seu poder nacionalmente, expandindo-se para outros estados. Entre eles,
o Amazonas. Esse crescimento levou a disputas entre as gangues nos presídios e a ameaças de morte também fora das cadeias.

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Foi a briga entre as duas facções que levou ao confronto de janeiro de 2017, quando 56 pessoas morreram, todas elas ligadas à facção paulista. O encontro de Bonates e José
Compensa seria para garantir a paz entre as duas quadrilhas após uma série de assassinatos naquele ano.

A reunião, segundo a PF , teria ocorrido na biblioteca do Complexo Penitenciário Anísio Jobim , onde Compensa estava detido.

"Conforme se depreende das mensagens interceptadas, na reunião (José Compensa) recebeu a garantia do coronel (Louismar Bonates) de que não seria enviado para um presídio
federal, e ainda conseguiu que finalmente fosse atendido seu antigo pleito de extinção do “seguro” (pavilhões 01 e 02) do Centro de Detenção Provisória Masculino – CDPM, último
reduto (da facção paulista), garantido controle total da (facção local) sobre o sistema prisional, em troca de manter as paz nas cadeias", afirma a PF.

Nas conversas, José Compensa relata o encontro por meio de mensagens para um de seus contatos.

"Só que ele falou que estão doidos para me mandar para (um presídio) federal", escreve Compensa, que depois afirma: "Ele falou que eu não vou para (um presídio) Federal não".

O líder diz que teria afirmado ao secretário que "estavam de boa" e que ficaria "tudo na paz" dentro da cadeia.

Compensa seria transferido para um presídio federal em novembro daquele ano, após a operação La Muralla, quatro meses depois do encontro com Bonates.

Segundo o serviço de inteligência do Ministério Púbilco, Compensa está por trás das mortes de 55 presos ocorridas entre domingo e segunda-feira. Ele estaria atacando outro líder
do grupo criminoso numa disputa pelo poder do grupo.

Bonates foi alçado ao posto de Secretário de Segurança Pública pelo atual governador, Wilson Lima (PSC).

Em nota, a pasta que ele comanda informou que Bonates não responde a nenhum processo judicial relativo à mencionada investigação e que, portanto, "não há nada que o desabone ou
o desabilite a ocupar o cargo de secretário de Segurança Pública na atual administração estadual". Além disso, diz a nota, "o MP não o incluiu na operação".

Em entrevista a jornalistas nesta quinta-feira (30), o secretário também destacou que não chegou a ser denunciado pelo Ministério Público em razão das descobertas feitas pela Polícia
Federal.

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"Na época do início do governo do Wilson Lima, (o caso) foi levantado pela imprensa séria e foram até o Ministério Público Federal, que declarou que eu não fui nem citado.
Passei longe dessa operação. Isto é um fato político que estão tentando atingir o Governo que está trabalhando em prol da população", declarou o secretário de Segurança do
Amazonas.